Irã: Também aqui, sunitas contra xiitas

Teerã, 22/02/2007 – A tensão é patente na fronteira do Irã como Afeganistão e Paquistão, após um atentado contra forças de segurança do regime xiita reivindicado por rebeldes da comunidade sunita, minoritária no país, mas majoritária nessa região. A explosão de um carro-bomba na semana passada em Zahedán, na província do Baluchistão, matou 11 pessoas e feriu 28. O atentado foi atribuído à organização militante sunita Jundullah (Éxercito de Deus).

Jundullah, que conta com redes no Paquistão, luta pela independência do Baluchistao e sua unificação com a província paquistanesa de mesmo nome, e é considerada uma organização terrorista pelos dois governos. Um dos quatro homens capturados pouco depois do ataque, Nasrollah Shanbezehi, foi enforcado na segunda-feira no mesmo lugar da explosão. Ele havia confessado sua participação na operação em um programa especial da televisão estatal, quando disse que entrara no Irã a partir do Paquistão alguns dias antes.

Os esforços do governo iraniano para conter a propagação do sectarismo religioso não conseguiu deter a Judullah, que cometeu vários ataques terroristas nessa província, incluindo o assassinato de quatro policiais no começo deste mês. Está organização, também conhecida como Movimento Popular de Resistência Iraniano, assumiu o seqüestro e assassinato de vários clérigos e funcionários, bem como um massacre em uma estrada da província de Kermanchah, no ano passado.

Seu líder é um jovem de 24 anos, Abdul Malik Rigi, que se faz chamar de emir Abdul Malik Baluch e garante desde a clandestinidade que seguirá métodos de luta pacíficos se o regime xiita iraniano fizer o mesmo. Em um comunicado divulgado no dia 14 passado através da Internet e pelos canais de televisão via satélite que transmitem em persa desde fora do território iraniano, Baluch informou que as operações foram uma represália pelas execuções de alguns membros da Jundullah. “Diante da resposta violenta do regime aos protestos pacíficos, não restou outro caminho a não ser recorrer às armas”, dizia o comunicado.

Um alto funcionário da segurança de Zahedán disse à agência iraquiana de notícias Ilna que a operação terrorista foi dirigida “desde o exterior”, e que a polícia apreendeu armas e uma poderosa bomba em um esconderijo invadido pela policia na noite anterior à explosão. Em sua breve confissão, Nasrollah disse que foi recrutado pela Jundullah três meses antes do atentado, tendo recebido dois meses de treinamento no Paquistão com instrutores que falavam em inglês. Também contou que a organização lhe prometera US$ 1mil e que essa foi sua única motivação. A Jundullah, supostamente um grupo surgido da cisão da organização paquistanesa de mesmo nome, veio à luz após fazer uma operação com reféns no Baluchistao iraniano.

Em janeiro de 2006, foram seqüestrados nove membros dos Guardiões da Revolução (força de segurança do regime xiita), que teriam sido levados para o Paquistão. Depois, a rede de televisão por satélite Al-Arabiya transmitiu imagens dos reféns, os quais a Junduallh ameaçou executar se o Irã não libertasse 16 de seus militantes presos. Um oficial dos Guardiões foi executado e a imagem da execução oferecida à emissora, que se negou a transmiti-las. Os demais foram libertados depois de negociações com o governo iraniano, que negou o pagamento de resgate.

Em março de 2006, rebeldes com uniforme policial atacaram uma caravana do governador de Zahedán. Mataram 22 pessoas e seqüestraram 12. o governador ficou muito ferido, mas sobreviveu. O representante de Zahedán no parlamento iraniano, Hossein Ali Shahriari, acusou os governos ocidentais de não fazerem o suficiente para o Paquistão controlar as operações de grupos armados desde seu território. Shahriari acusou Estados Unidos, Grã-Bretanha e Paquistão de ajudarem a Jundullah a fomentar a violência sectária no Irã, segundo a agência de notícias Aftab.

Mas, também foi contra as forças de segurança iranianas pro não conseguirem garantir a ordem na província de Baluchistão, inclusive depois do último ataque, e sugeriu armar a população local para que participe de sua defesa. Outros funcionários iranianos também atacaram o Paquistão e nações ocidentais. “Entraram o Irã vindos do Paquistão, cometeram seu ataque com apoio total das potências ocidentais. Não são nem xiitas nem sunitas; respondem às potências arrogantes que os preparam e apóiam”, afirmou um responsável pela segurança provincial à Agência de Notícias da Republica do Irã (Irna).

O Baluchistão iraniano faz parte da principal rota do tráfico de drogas desde Afeganistão e Paquistão para a Europa. É uma das províncias mais pobres e mais anárquicas do país. Os moradores devem recorrer ao narcotráfico e ao contrabando para sobreviver. A desnutrição atinge níveis críticos. A maioria sunita se sente frustrada pela participação mínima que tem nas decisões do governo. “A frustração vai empurrar naturalmente a população local para organizações como a de Rigi, mas, também para a pobreza, o principal problema da província”, disse à IPS um especialista em política de Teerã que pediu reserva de seu nome.

“Sem dúvida que a discriminação sectária é outro fator a ser considerado, mas a maioria dos detidos até agora são pobres e não têm apoio de intelectuais sunitas. Os Guardiões da Revolução e seu braço armado (Basij) mandam na zona”, explicou. “É claro que há uma guerra sectária no mundo islâmico. O Iraque não foi o começo, mas, seguramente é o catalisador. Estão se ajustando as contas em vários lugares, salvo no principal campo de batalha, e o Baluchistão é um desses lugares”, disse o analista. “Houve sangrentos enfrentamentos entre o regime e combatentes sunitas no começo da década de 90, quando a Al Qaeda e extremista desse ramo do Islã começaram a atuar no Afeganistão e Paquistão”, recordou. (IPS/Envolverde)

Kimia Sanati

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