Saúde: Paquistão começa a erradicar a poliomielite

Carachi, 22/02/2007 – O Paquistão intensificou seus esforços para erradicar a poliomielite, através de uma campanha de vacinação em 12 distritos de alto risco na província de Sindh, onde surgiram três novos casos desde o começo do ano. A campanha porta a porta, parte do Programa Ampliado de Imunização do Ministério da Saúde, começou na terça-feira e termina nesta quinta-feira. A Iniciativa para a Erradicação da Poliomielite do Paquistão foi lançada em 1994 em colaboração com a Iniciativa Global de Erradicação da Poliomielite, iniciada seis anos antes.

O esforço de aproximadamente 60 mil trabalhadores da saúde, que percorreram todas as casas para administrar duas doses da vacina a cerca de 6,5 milhões de menores de cinco anos em cada dia da campanha, não conseguiu a erradicação, que será seu principal objetivo. A falta de vontade política e a indiferença dos pais dificultaram seu cumprimento. O Paquistão continua sendo um dos quatro países onde ainda existe o poliovirus, junto com Afeganistão, Índia e Nigéria.

A Iniciativa Global de Erradicação da Poliomielite, um empreendimento da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Rotary Internacional e o Centro para o Controle de Enfermidades, com sedenos Estados Unidos, se propôs erradicar a doença até 2005. Mas, não foi possível. Dezenove anos e 65 campanhas depois, os menores continuam sendo vítimas do vírus. “Nossos esforços devem contar com o apoio dos governos provinciais e distritais”, disse Salma Kausar Ali, diretora de projeto da Iniciativa de Erradicação da província de Sindh.

No ano passado, o Ministério da Saúde registrou 39 casos da doença, 15 deles na Província da Fronteira Nordeste. Desde 1º de janeiro foram registrados quatro casos, três deles em Sindh. As equipes de imunização lamentaram não terem conseguido acesso a 66 localidades, algumas delas na porosa região fronteiriça com o Afeganistão. A população local resistiu à campanha porque a vacina procede dos Estados Unidos, que, por sua aliança com Israel, é um “inimigo” dos muçulmanos.

Renovaram-se os temores de um surto de poliomielite nessa província, onde 12 crianças apresentaram os sintomas da doença desde janeiro sem que tenha sido constatada pelos exames. Uma das razões da alta prevalência do vírus da poliomielite nessa região é a fraca delimitação da fronteira. Há famílias com vínculos estreitos nos dois lados. A médica Ali descartou os temores de um surto em Sindh, mas também alertou que, a menos que o vírus da pólio seja erradicado no Afeganistão e nas províncias fronteiriças paquistanesas do Baluchistao e da Fronteira Nordeste, é inútil querer erradicá-lo este país.

“Os três casos dos últimos dois meses apareceram na população nômade e não entre a população radicada em Sindh”, disse Ali. “O exame genético do vírus revelou que a cepa é originaria de Kandahar, no Afeganistão, onde é endêmico. Como não pode evitar a entrada de pessoas através de Sindh, não podemos evitar a propagação do vírus”, explicou a médica. Um método efetivo para controlar a mobilidade do vírus foi a colocação, em janeiro, de 26 centros do Programa Ampliado de Imunização em todos os pontos de entrada da província, paradas de ônibus, portos e aeroportos, para que todas as crianças que entram e saem e não tenham sido vacinadas recebem a sua dose. Até o momento, 11 mil menores em situação vulnerável receberam a vacina.

O programa de imunização paquistanês também foi reforçado pela substituição de equipamentos para manter as vacinas em baixa temperatura. Além disso, o pesadelo da logística da qual se queixavam os grupos de vacinação foi resolvido com o fornecimento de transporte e melhoria de equipamento. Os especialistas em saúde se sentem frustrados na medida em que aumenta o cansaço causado pela campanha e diminuem os recursos. “Talvez tenhamos de redesenhar a estratégia e impulsionar uma campanha para captar todos. É necessário fortalecê-la para culminar a tarefa”, disse a doutora Mubina Agboatwala, encarregada da clinica de poliomielite do Hospital Estatal de Carachi.

Mais otimista se mostrou o funcionário da OMS responsável pelas operações na província, Abdul Wahid Bhurt. “Creio que vamos pelo caminho certo, testado e comprovado. Foi assim que outros países acabaram com a doença. A está altura, na última etapa surgiam obstáculos e o final nunca era visualizado sem problemas. também considero que a imprensa pode assumir um papel mais ativo e acompanhar a campanha”, disse Wahid.

“As pessoas se esquecem e é necessário lembrar-lhes que devem levar as crianças aos centros de vacinação caso não tenham recebido a dose no dia em que o pessoal das brigadas passou em suas casas”, destacou. “É preciso recordar-lhes as conseqüências caso os menores não sejam vacinados. Devem fazer o que podem e devem reclamar a vacina se por alguma razão acabaram ou a equipe não chegou à sua localidade”, acrescentou. Em todos esses anos, a imprensa não participou da estratégia de comunicação traçada pela Iniciativa de Erradicação Paquistanesa.

Houve alguma publicidade antes e durante o dia de vacinação, mas não houve tentativas de manter um processo de informação permanente. Em lugar de apoiar-se na imprensa, as autoridades se basearam em seus próprios recursos para divulgar o programa. “Creio que em todos estes anos esqueceram o papel importante que a imprensa poderia ter desempenhado. Mas ainda é tempo, pois é a única forma para se chegar aos lugares mais distantes”, reconheceu Ali.

Porém, não há recursos financeiros para uma campanha publicitária. O doutor Bhurt reconheceu ter as mãos amarradas no que se refere ao gasto em publicidade. “Mas talvez a imprensa possa considerar o assunto de interesse nacional e levar adiante uma campanha sustentada e rigorosa de serviço público pelo bem da população”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Zofeen T. Ebrahim

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