Oriente Médio: Aliança pretendida pelos EUA pode não ter apoio

Washington, 12/02/2007 – O plano dos Estados Unidos e de Israel de formar uma aliança com os países árabes sunitas para enfrentar o Irã pode carecer de apoio, pelo menos em nível popular, segundo uma pesquisa realizada no Oriente Médio. Aproximadamente 80% dos 3.850 entrevistados na Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Líbano e Marrocos consideram os Estados Unidos e Israel as duas maiores ameaças externas à sua segurança. Apenas 6% citaram o Irã.

Menos de um em cada quatro árabes sunitas acredita que o Irã deveria ser pressionado para suspender seu programa nuclear, enquanto 61% , incluindo a maioria em todos os seis países, disseram que Teerã tem direito de seguir seus planos, inclusive se pretender fabricar armas atômicas. A pesquisa, quinta de uma série anual realizada pelo instituto Zogby International e planejada por Shibley Telhami, do Centro Saban para Políticas sobre o Oriente Médio, foi realizada em novembro e início de dezembro, depois da última guerra entre Israel e o movimento xiita libanês Hezbolá (Partido de Deus), mas, antes da polêmica execução do ex-presidente iraquiano Saddam Hussein.

Essa execução ampliou a divisão entre os muçulmanos xiitas e sunitas em toda a região, segundo alguns informes, e foi usada pelos Estados Unidos para tentar forjar uma aliança com os países árabes sunitas, formada por Arábia Saudita, Egito, Jordânia e as nações do Golfo, com a intenção de conter a crescente influência iraniana no Iraque, na Síria, no Líbano e na Palestina. Mas, Telhami, que apresentará suas descobertas oficialmente em um encontro que reunirá líderes islâmicos em Doha nos próximos dias, disse à IPS duvidar que estas tensões sectárias estejam mudando as atitudes básicas no público em geral sobre assuntos regionais-chave nos países incluídos na pesquisa, com a exceção do Líbano.

“O público no mundo árabe não vê os assuntos importantes através da divisão sunita-xiita; os vêem através das lentes do confronto palestino-isralense e da moléstia com as políticas dos Estados Unidos. A maioria dos árabes sunitas se colocam do lado dos xiitas nos assuntos-chave”, afirmou Telhanmi. De fato, o estudo sugere que Washington, cuja imagem no mundo árabe caiu a um nível sem precedentes no ano passado, enfrenta grandes dificuldades para ganhar apoio popular para suas políticas no Oriente Médio.

Mais de três em cada quatro dos consultados afirmaram ter uma visão “um pouco” (21%) ou “muito” (57%) desfavorável dos Estados Unidos. As posições desfavoráveis em realção a Washington foram mais fortes nas três monarquias: Jordânia, com 90%; Marrocos com 87%, e Arábia Saudita com 82%. Quase quatro em cada 10 árabes citaram o presidente George W. Bush como o líder estrangeiro que mais desprezam, seguido de longe por dois líderes israelenses, o ex-primeiro-ministro Ariel Sharon (11%) e seu sucessor, Ehud Olmert (7%).

Este resultado é particularmente significativo, já que na pesquisa anterior, de 2005, Sharon superava Bush na lista dos “mais desprezados” pela margem de 15 pontos percentuais. Inclusive no Líbano Bush tem maior rejeição do que Olmert, apesar de este último ter lançado a ofensiva militar que no ano passado destruiu a infra-estrutura de várias cidades do país. O estudo conclui que a melhor maneira para Bush mudar sua imagem junto aos árabes é patrocinar um acordo de paz integral entre palestinos e israelenses, baseado no regresso das tropas de Israel às suas fronteiras antes da Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Quando foi pedido aos entrevistados que sugerissem seis passos que Washington poderia dar para melhorar sua imagem, a maioria em todos os países onde houve a pesquisa, menos na Arábia Saudita, mencionaram primeiro um acordo de paz entre Israel e Palestina. Depois, sugeriram a retirada das tropas norte-americanas do Iraque, o fim da ajuda a Israel, a promoção da democracia e a ajuda econômica à região. Entre os fatores que incidem em sua visão negativa dos Estados Unidos, o conflito palestino-israelense foi qualificado de “extremamente importante” por 76% dos jordanianos, 65% dos marroquinos, 62% dos libaneses e 54% dos sauditas.

Por outro lado, 42% dos sauditas e 36% dos jordanianos disseram que “os árabes deveriam continuar lutando contra Israel”, mesmo se esse país regressar às suas fronteiras de 1967. Por sua vez, Bush superou Sharon como o líder mais desprezado pelos árabes em 2006; enquanto o líder do Hezbolá, Hassan Nasrallah, superou o presidente da França, Jacques Chirac, com o mais admirado. Chirac ficou em segundo lugar na lista, à frente do iraniano Mahmoud Ahmadinejad e do venezuelano Hugo Chávez. “São pessoas vistas como capazes de enfrentar os Estados Unidos. Nenhum deles é árabe sunita”, destacou Telhami. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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