Trinidad, Bolívia, 16/03/2007 – Na cidade boliviana de Trinidad, no leste, o anel de contenção das inundações é um muro que separa famílias de rendas médias e modestas dos excluídos que perderam quase tudo em uma das maiores inundações da história deste país. O muro de contenção das águas de rios que correm desde as cordilheiras ocidentais de mais de seis mil metros de altura até os vales é uma estrada de contorno de 10 quilômetros e desde 1993 transformada na única proteção para a capital do departamento de Beni, construída sobre uma planície a 155 metros do nível do mar e habitada por mais de 89 mil pessoas.
Desde o início da habitual época de chuva, no final de 2006, 51 pessoas morreram e mais de 70 mil famílias ficaram desabrigadas em todo o país, segundo o último relatório fornecido à IPS pelo diretor nacional de Defesa Civil, Gonzalo Lora. As chuvas e enchentes excepcionais se devem ao fenômeno climático El Niño, no oceano Pacífico, desta vez mais grave na Bolívia. Nunca como agora o anel de proteção foi a linha divisória entre os danificados submersos em uma imensa lagoa e os habitantes protegidos em uma cidade sem grandes comodidades e afetada por apagões e deficientes serviços públicos.
Em um dos países com menor renda da América do Sul no qual 67% de seus 9,6 milhões de habitantes são pobres, Trinidad é um exemplo de exclusão social. Em uma jornada de pausa entre os tormentosos dias, várias famílias vão e vêm desde a estrada protetora no penoso trabalho de resgatar os poucos bens que se encontram em casas e choças inundadas. O único meio de acesso até suas casas é uma canoa conduzida por quatro adolescentes que por momentos remam ou submergem para arrastá-la em meio às enchentes.
Enquanto o bote improvisado se aproxima de terra firme com sua carga de colchonetes forrados de plástico azul, sua proprietária, professora de oficio, cai na água contaminada e é auxiliada pelos adolescentes para poder chegar à margem. É um dia ensolarado, e apesar da tristeza coletiva não se ouve lamentos e as pessoas desfrutam do lago criado em mais de um mês de intensas chuvas. “Se não viu o que aconteceu com nossas casas, suba na canoa, é muito segura, não vai cair. Vá e visite o bairro”, diz uma vizinha, como um desafio, e os quatro adolescentes convidam a jornalista da IPS a embarcar e fazer a viagem.
Um colorido letreiro de madeira colocado à beira do caminho anuncia a Zona 6 de Agosto, data de fundação da República, em 1825. A canoa balança e a borda está a apenas cerca de 10 centímetros do nível do lago. Um jorro de água entra no fundo por um pequeno buraco feito por um prego. O acúmulo perigoso de água é combatido por Rodolfo Vaca, que a retira com um pedaço de plástico como se fosse balde, mas após meia hora o cansaço toma conta do jovem de 17 anos.
Seus companheiros, todos da mesma idade, fazem outras tarefas. Grover Moreno dirige o grupo, formado ainda por Alexander Morasima e Jesús Vaca, encarregados dos remos e do timão para através as vias fluviais que 15 dias atrás eram ruas de terra cercadas de mato e altas árvores. O formato cúbico do bote chama a atenção, e Moreno explica: “Nós fizemos esta canoinha com as tábuas que sobraram de várias construções, mas faltou breu e por isso os buracos são fechados com pedaços de pano para não entrar água”.
Apenas acaba esta explicação, passa junto de nós uma jovem e seu cão flutuando sobre frágeis madeiras às quais foram presas garrafas plásticas de refrigerantes, transformadas em pequenas bóias salva-vidas. Então, ano há motivo para duvidar da solidez da nossa embarcação. “Ajudamos a recolher algumas coisas das casas inundadas porque não podemos carregar nos ombros já que a água chega até à cabeça e tentar caminhar no fundo escorregadio posso cair. Também ajudamos os moradores a resgatarem pequenas coisas”, explica Moreno.
A canoa passa perto de casas de barro e folhagens que vão se desfazendo lentamente e de alguns automóveis cujos proprietários não puderam salvar da inundação. “Não chegou ajuda do resgate. Eles só foram nos bairros mais organizados”, queixa-se Moreno. Ele perdeu “a roupa, os sapatos e a comida. Também ficaram meus livros, o de álgebra e outros. Tenho de voltar a trabalhar para poder comprá-los novamente”, diz. Seus amigos perderam porcos, galinhas e frangos criados nos “canchones” (quintais) de suas casas e “que vendiam para ter seu dinheirinho”, disseram.
A nostalgia é evidente nos olhos dos quatro jovens enquanto vêem passar casas de tijolo resistindo à umidade e choças de palmeiras danificadas, ou janelas pelas quais se pode ver até ursinhos de pelúcia perfeitamente alinhados. A melhor recordação de antes da inundação foi “um cozido de frango com os amigos no domingo, antes da chegada das águas. Estava chovendo e havíamos ganho um campeonato de futebol, e no dia seguinte tudo ficou inundado”, conta Moreno.
Os jovens não escondem sua exclusão por estarem fora do anel de proteção. “Os que vivem dentro são os que têm dinheiro e o poder. Podem comprar uma casa melhor que não será inundada”. Na Zona 6 de Agosto “a junta de moradores divide os terrenos e pagamos mensalidade de aproximadamente US$ 15. Os terrenos custam cerca de US$ 1.500 (dentro do anel o preço chega a US$ 10 mil)”. A casa de Moreno era de madeira, “cercada de tábuas dos lados, telhas, o mais simples. Era preciso muito esforço para que durasse”, recorda.
“Meu quarto não era grande nem pequeno. Cabia uma pequena cama, outra para meu irmão, minha mesa e um espaço para estudar. Minha cama não tinha lençóis nem colchão novo. Só colchão de palha, que é muito barato”, afirma. O jovem moreno lembra o melhor desse lugar: “Meus livros, meus diplomas, certificados da Unidade Educacional San Vicente por ser o melhor aluno. Eram certificados por meu bom comportamento e por organizar grupos de amigos para fazer as tarefas, ajudar os jovens e organizar campeonatos esportivos”. No futuro, “viverei em meu bairro com meus amigos e vizinhos, fora do anel, e tenho esperança de que construam outro anel”, conclui. (IPS/Envolverde)

