Clima: Chile quer partir para a ação

Santiago, 05/03/2007 – A temperatura média no Chile pode aumentar até quatro graus e o mapa das chuvas sofrer uma alteração, entre 2070 e 2100, diz um estudo que o governo utilizará para elaborar ações contra os efeitos da mudança climática. Necesita-se de maior diligência, reclamam cientistas e ecologistas. “O governo tem uma atitude de reação, não pró-ação” neste assunto, disse à IPS Manuel Baquedano, presidente do não-governamental Instituto de Ecologia Política (IEPE), pois ainda não se elabora o plano de ação correspondente à Estratégia Nacional de Mudança Global, aprovada em janeiro de 2006.

O doutor em meteorologia Jorge Carrasco, que participou da redação do último informe do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC), divulgado dia 2 de fevereiro em Paris, acredita que o Executivo fez um trabalho correto, e chegou a hora de agir. “O governo chileno está em dia com a assinatura de tratados e protocolos internacionais sobre mudança climática, proteção da camada de ozônio e biodiversidade. Também aprovou uma Estratégia Nacional de Mudança Global e encomendou um estudo para determinar a variação que terão temperatura e chuvas no território. Agora, é necessário criar políticas de médio e longo prazo”, explicou Carrasco.

O plano de ação estará pronto somente no segundo semestre deste ano, informaram à IPS porta-vozes da governamental Comissão Nacional do Meio Ambiente (Conama). O plano irá considerar a identificação dos setores mais vulneráveis, medidas de adaptação e minimização e fomento da educação formal e informal em mudança climática. Também incluirá o fortalecimento das capacidades institucionais, sistêmicas e individuais, o reforço da pesquisa científica e a atualização do inventário nacional sobre emissões de gases causadores do efeito estufa, considerados responsáveis pelo aquecimento do planeta.

O órgão encarregado de sua elaboração é o Comitê Nacional Assessor sobre Mudança Climática, criado em 1996 e integrado por ministérios e serviços públicos, e pelo Comitê Técnico da Estratégia Nacional de Mudança global, formado pelo Executivo, instituições científicas e organizações não-governamentais. A Conama apresentou no dia 22 passado as conclusões do “Estudo da Variabilidade Climática no Chile para o século XXI”, encomendado à estatal Universidade do Chile, com o objetivo de estimar as mudanças de temperatura e precipitações que se registrarão no território chileno por causa dos efeitos do aquecimento global entre 2071 e 2100.

Para isso foi usado o modelo regional Precis (Porviding Regional Climates for Impact Studies), desenvolvido pelo Escritório Meteorológico da Grã-Bretanha. Este projeto apresenta dois cenários possíveis: um moderado e outro severo. No primeiro, estima-se aumento da temperatura entre um e três graus em todo o território, e no segundo o aumento ficaria entre dois e quatro graus. Devido à sua extensão, o Chile possui uma grande variedade de climas, que podem basicamente ser agrupados em três: árido desde o norte até o centro do país, temperado nas zonas centro e sul, e frio no extremo austral.

A maior variação de temperatura se daria no chamado norte grande (regiões de Tarapacá e Antofagasta) e no norte pequeno (regiões de Atacama e Coquimbo), principalmente nas zonas próximas à Cordilheira dos Andes. Também são elaborados mapas de precipitação para as quatro estações. No norte grande, especificamente no setor altiplano, as chuvas aumentariam na primavera e no verão, potencializado o fenômeno do “inverno boliviano”, chuvas de verão que às vezes causam estragos no altiplano. Por outro lado, no norte pequeno as chuvas aumentariam no inverno.

Baquedano alerta para a necessidade de adaptar as casas de toda a região norte – muitas feitas de adobe – para que possam suportar novos índices de chuva e, assim, evitar alguma catástrofe. Na zona central, entretanto, se prevê uma redução nas chuvas no verão e outono. No setor Sul, entre a região do Bío-Bío e a de Los Lagos, o índice pluviométrico baixaria 40% no verão e 25% na primavera. E nas duas regiões mais austrais, de Aysén e Magalhães, as chuvas diminuiriam 25% no verão, mas, se manteriam normais no inverno. Quanto ao nível do mar, o cenário moderado contempla uma elevação entre 14 e 24 centímetros das águas, enquanto no severo o aumento ficaria entre 16 e 28 centímetros.

O IPCC, máximo organismo que atua no contexto da Organização das Nações Unidas e é formado por cientistas e representantes de 110 países, ratificou em fevereiro que a mudança climática é causada pela atividade humana, responsável pela emissão de gases que causam o efeito estufa, como dióxido de carbono, metano e óxido nitroso, os quais intensificam a retenção do calor do sol na atmosfera. A temperatura da Terra poderia súber até quatro graus até o final deste século, modificando o regime de chuvas e o nível do mar, o que intensificaria catástrofes climáticas como ondas de calor, inundações e secas. Da mesma forma, prosseguiria o derretimento das geleiras e a destruição da diversidade biológica, afirma o IPCC.

A chilena Estratégia Nacional estabelece que este é “um país social, econômica e ambientalmente vulnerável ao fenômeno, por possuir zonas costeiras baixas; zonas áridas e semi-áridas; áreas susceptíveis ao desmatamento ou erosão, aos desastres naturais, à seca e à desertificação; áreas urbanas altamente contaminadas e ecossistemas frágeis”. As conclusões do estudo serão incluídas na Segunda Comunicação nacional que o Chile deve fazer à Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, ratificada em 1994, e que já recebeu um primeiro relatório do país em 2000.

Segundo projeções do IPCC e o estudo da Conama, Carrasco acredita que o principal impacto do aquecimento global no território chileno será o progressivo retrocesso e desaparecimento das geleiras, principalmente na zona norte. Coincidentemente, Baquedano considera indispensável contar com uma lei de proteção das geleiras, já que cerca de 60% da água doce disponível no país provêm destas massas de gelo, afirmou.

O IEPE, o também não-governamental Programa Chile Sustentável e a sindical Sociedade Nacional de Agricultura apresentaram em janeiro ao governo de Bachelet uma proposta a respeito, que esperam seja acolhida e enviada ao parlamento para ser discutida, embora prevejam um forte debate com o setor de mineração público e privado, grande consumidor de água. A Conama estima que outros setores prioritários que podem ser afetados pela mudança climática são “agricultura, geração de energia e área florestal”. No caso da agricultura, será necessário estudar eventuais modificações nos períodos de plantio e colheita, bem como os produtos que serão potencializados de acordo com as condições do outono, disse Carrasco.

Enquanto é elaborado o plano de ação, o governo trabalha em uma estratégia nacional de proteção de bacias, informou a Conama. Baquedano acredita que este ano será fundamental na luta contra o aquecimento global. Por isso, decidiu trabalhar pela candidatura do ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, ao prêmio Nobel da Paz, concedido em outubro. Gore, que visitará o Chile em maio, é protagonista do documentário “Uma verdade incômoda”, baseado nas conferências que fez em todo o mundo alertando sobre os devastadores efeitos da mudança climática, e que acaba de receber o Oscar. (IPS/Envolverde)

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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