Havana, 15/03/2007 – O presidente cubano, Fidel Castro, que convalesce de uma cirurgia do intestino desde julho, reiterou pela segunda vez em menos de um mês que está se recuperando, alimentando expectativas sobre sua possível aparição pública em um prazo não distante. Em uma nova conversa telefônica com seu colega da Venezuela, Hugo Chávez, na última segunda-feira e publicada na quarta-feira pelo jornal oficial Granma, Castro garantiu sentir-se “muito bem” e que recebeu a visita do escritor colombiano Gabriel García Márquez.
O prêmio Nobel de Literatura chegou à Havana na sexta-feira, no entanto, o mais completo silencio cercava sua visita à ilha depois de ter ido nesse mesmo dia à instituição cultural Casa das Américas, onde entregou uma condecoração ao músico Pablo Milanês. Castro mantém estreita amizade com o escritor, e também com Chávez, que, além disso, é seu mais forte aliado político na América Latina para a criação e implementação de um ambicioso programa de integração regional.
Quando conversava com Castro, Chávez estava de visita ao Haiti, última escala de uma viagem latino-americana que incluiu Argentina, Bolívia, Nicarágua e Jamaica, que coincidiu com a visita à região do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. “Acompanhei tudo de perto”, disse Castro, acrescentando que também ficara sabendo dos discursos pronunciados nos atos realizados nesses países durante a visita de seu amigo venezuelano. Da conversa via telefone também participou o presidente do Haiti, René Préval.
Chávez e o vice-presidente cubano, Esteban Lazo, assinaram com Préval um acordo tripartite de cooperação com o Haiti no valor de US$ 20 milhões em matéria de saúde, educação, economia e energia. Segundo o mandatário venezuelano, o essencial dessa estratégia de colaboração é a incorporação do Haiti à Alternativa Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba), que integram Cuba, Bolívia e Venezuela e à qual acaba de aderir a Nicarágua. “Disse agora mesmo a René que é importante que se incorpore à Alba imediatamente, e faremos a cerimônia quando você estiver pronto, Fidel. Evo Morales (presidente da Bolívia) mandou dizer o seguinte: que ele quer que façamos o ato em abril para incorporar alguns caribenhos”, disse Chávez.
No dia 29 de abril completará um ano da reunião entre Castro, Chávez e Morales na capital cubana, quando foi oficializado o ingresso da Bolívia na Alba. Em meios diplomáticos não se descarta que a ocasião seja aproveitada para a aparição pública de Castro, afastado de suas funções desde 31 de julho devido a uma complexa cirurgia que sofreu. Outra data provável apontada é 1º de maio, Dia Internacional dos Trabalhadores, cujos preparativos em Cuba foram anunciados este ano como maior antecipação do que em ocasiões anteriores.
Nessa data acontecem “marchas do povo combatente” em todos os municípios do país. O desfile na capital terminará na Praça da Revolução. No passado, Castro encabeçou as marchas populares realizadas nesse dia. “Não creio que poderá participar, mas, talvez possa estar na praça”, disse o presidente de um Comitê de Defesa da Revolução (CDR), no bairro El Vedado, de Havana. O homem, que não quis se identificar, disse que está segunda conversa telefônica com Chávez lhe deu mais segurança a respeito da saúde de Castro, declarada pelo próprio governante um segredo de Estado. “Agora acredito que está se recuperando. Se vê que está trabalhando e sabendo do que acontece no mundo”, disse o diretor do CDR organização pró-governamental que reúne os moradores de um lugar a partir dos 16 anos de idade.
No dia 27 de fevereiro, Castro conversou por telefone com Chávez por mais de meia hora e assegurou que estava “ganhando terreno” em sua recuperação e que se sentia “com mais energia, mais força e mais tempo para estudar”. As declarações oficiais sobre o restabelecimento do mandatário se tornaram freqüentes ultimamente, mas nelas ainda se evita dar prazos para a reabilitação definitiva do governante, que passou temporariamente suas funções para seu irmão Raúl.
Em entrevista coletiva em Paris, o chanceler Felipe Pérez Roque disse, na segunda-feira, que há razões para o otimismo, pois Castro “se restabelece, faz exercícios físicos e está muito mais forte”. O chefe da diplomacia cubana acrescentou que o presidente mantém contato direto com os dirigentes do Partido Comunista e do governo, sendo consultado para diversos assuntos. “Ele nos dá orientações e cada vez participa mais das tarefas”, disse Roque, segundo a agência cubana de notícias Prensa Latina.
Em sua opinião, sucessivos governos norte-americanos criaram planos para derrubar Castro e invadir a ilha, até estratégias para quando não estivesse fisicamente presente. Mas, acrescentou, não previam que estivesse e não estivesse, ao mesmo tempo, e isto os deixa desorientados. Ainda na segunda-feira, o vice-presidente José Ramón Fernández anunciou, durante uma recepção oferecida pela embaixada da Espanha, que “há uma aceleração na recuperação” do presidente. “Todos estamos esperando que isso se complete rapidamente e seja possível vê-lo de perto”, acrescentou.
No entanto, o presidente em exercício, Raúl Castro realizou no fim de semana uma visita à Região Militar da Província de Pinar del Rio, e diante dos soldados disse que o restabelecimento de seu irmão Fidel “progride”. O mais novo dos irmãos Castro, ministro das Forças Armadas Revolucionarias, garantiu que seu país está disposto a pagar “o preço necessário” diante de uma possível agressão externa, mas, acrescentou que o custo maior seria do agressor. “Com nossa ideologia, a unidade nacional conseguida e a concepção estratégica da ‘guerra de todo o povo’, esta revolução será imbatível”, disse em Pinar del Rio. (IPS/Envolverde)

