Quito, 07/03/2007 – Mais de mil ativistas e especialistas de 30 países reunidos desde segunda-feira na capital equatoriana anunciaram a formação da Rede Mundial Não Bases, para coordenar estratégias de luta contra as instalações militares estrangeiras, que já chegam a um milhar no planeta. A educadora Lina Cahuasquí, da coalizão Não Base Equador, explicou à IPS que a rede será formada “como um espaço plural e democrático ligado às permanentes lutas de organizações sociais que defendem um sistema livre de militarismo e baseado no respeito, na igualdade e na justiça e uma cultura de paz”.
A Primeira Conferência Internacional pela Abolição das Bases Militares Estrangeiras, que acontece até sexta-feira próxima, analisa os impactos provocados pela presença de bases estrangeiras e as lutas locais contra esse tipo de instalações no mundo. No primeiro dia de sessões foram compartilhadas as experiências de cada país, a seguir se definirá o planejamento de estratégias conjuntas de luta, enquanto na quinta-feira, Dia Internacional da Mulher, a caravana Mulheres pela Paz sairá de Quito rumo ao porto de Manta, onde fica a maior base militar dos Estados Unidos na América do Sul.
Do encontro também participa a pacifista norte-americana Cindy Sheehan, mãe do soldado Casey Sheehan morto na guerra do Iraque, para contar sua experiência e somar-se à caravana. No encerramento da conferência serão realizados festivais culturais em Quito e Manta, nos quais será lançada uma campanha mundial de solidariedade em busca do fechamento definitivo dessa base.
Cahuasquí afirmou que há mais de mil bases militares estrangeiras em todo o mundo, a maioria pertencente aos Estados Unidos, que contam com 737 em diferentes nações, seguidos de Rússia, China, Grã-Bretanha e Itália. “Este número não inclui as bases secretas, como é o caso das quatro instaladas no Iraque”, ressaltou a educadora. “Mas os Estados Unidos não têm bases somente nos países subdesenvolvidos. Possuem 81 na Alemanha e 37 no Japão”, acrescentou. Na América Latina e no Caribe conta com 17 instalações militares distribuídas por Colômbia, Peru, El Salvador, Aruba, Curaçao, Honduras, Equador e na baía de Guantânamo de Cuba, lembrou Cahuasquí.
Wilbert van der Zeijden, do Transnacional Instituto da Holanda, espera que a conferência sirva para impulsionar “uma grande campanha global” contra as instalações e a presença militar estrangeira em todo o mundo. “Se não é possível fechar todas as bases, pelo menos pode-se enfraquecer esta rede mundial pertencente aos Estados Unidos, que ataca quando quer e onde quer”, afirmou.
Por sua vez, a filipina Corazón Fabros Valdez, do Comitê Organizador Internacional da Conferência, espera que a reunião do Equador consolide um apoio mundial ao movimento que luta contra a base de Manta e ajude a fortalecer a posição do governo desse país no sentido de não renovar o convênio em dezembro de 2009, data de seu vencimento. “Durante a luta contra as bases norte-americanas vimos a importância que tem a solidariedade internacional para se ter sucesso”, comentou. “As Filipinas tiveram bases militares dos Estados Unidos por mais de cem anos, instaladas para agredir o Vietnã e outros povos do mundo. Um dos efeitos mais graves foi a violação dos direitos humanos e da democracia”, acrescentou Valdez.
O novo presidente do Equador, Rafael Correa, já anunciou que não renovará o convênio sobre Manta após seu vencimento, como haviam sugerido porta-vozes do governo norte-americano, que pretendia estendê-lo até 2012. Manta é o principal porto do país no Pacífico, situado a 260 quilômetros de Quito. Por sua vez, Herbert Docena, pesquisador do Focus on the Global South das Filipinas, espera que seja enviada uma mensagem muito clara de que as pessoas em todo o mundo não querem bases militares estrangeiras.
“Além da declaração política queremos institucionalizar a Rede Não Bases em todo o mundo torná-la mais dinâmica, para empreender projetos a médio e longo prazo”, disse Docena à IPS. “Os Estados Unidos apoiaram Ferdinando Marcos (1965-1986) com quantias exorbitantes de dinheiro em troca da manutenção das bases, a ponto de que sem esse apoio não teria sido possível uma ditadura tão longa”, disse Docena. “Somente depois de fechadas as bases em 1992, constatamos o grau de contaminação que causaram”, acrescentou.
Cahuasquí recordou o ocorrido em Vieques, Porto Rico, como um exemplo das conseqüências negativas das bases militares. Essa zona “foi contaminada com metais pesados, produtos químicos e até com lixo nuclear como o urânio reduzido, com impacto na água, nos seres humanos e no ambiente em geral”, afirmou. Várias bases são apresentadas como lugares de cooperação e intercambio, mas esses locais mantêm equipamentos de comunicação e servem para espionagem, como ocorre na Nova Zelândia.
Os ativistas mencionaram dois êxitos obtidos em sua luta até o momento, como foi o caso da Itália, onde mais de cem mil pessoas foram às ruas pra dizer que não aceitarão mais a violação da soberania desse país. Outro exemplo apresentado foi o do povo porto-riquenho que se levantou de maneira ativa para conseguir fechar a base de Vieques, depois de 60 anos de presença militar norte-americana.
O Equador disse não a uma proposta de Washington para instalar outra base militar na ilha de Baltra, em Galápagos; o Panamá conseguiu a retirada da marinha de guerra dos Estados Unidos, enquanto Brasil, Uruguai e Argentina declararam nos últimos anos o fim das tradicionais manobras militares conjuntas com os norte-americanos. “A posição do governo equatoriano para fechar a base de Manta nos inspira, mas, também estamos preocupados pela pressão que os Estados Unidos exercem sobre este país para mantê-la”, alertou Cahuasquí.
A conferência também reúne ativistas; legisladores do Brasil, da Venezuela e de países da Europa; o secretário do Conselho Mundial pela Paz, o legislador do Parlamento Europeu Tobias Pflueger, e a pesquisadora mexicana Ana Esther Ceceña. Entre os palestrantes estão Kyle Kajihiro, comprometido com a defesa dos direitos humanso dos nativos do Hawai, a justiça ambiental e a desmilitarização, bem como Andres Thomas, integrante da organização norte-americana Democracy Now. (IPS/Envolverde)

