Bogotá, 07/03/2007 – O governo da Colômbia espera para o próximo domingo a visita do presidente George W. Bush com a pretensão de que Washington restabeleça sua ajuda militar, porém, um legislador de oposição dos Estados Unidos rechaça essa possibilidade propondo uma radical mudança de prioridades. “Quero um Plano Colômbia para as vítimas”, disse o representante James McGovern, do Partido Democrata, que visitou este país por 60 horas para atender o clamor dos que sofrem as conseqüências da guerra financiada por Washington através dessa operação antidrogas e antiguerrilheiros.
O membro da Câmara de Representantes afirmou que Bush, que estará na Colômbia durante cinco horas, não deverá nessa oportunidade falar apenas de “sua admiração para com o presidente Álvaro Uribe”. Segundo McGovern, Bush também deverá aplaudir “aqueles que na Colômbia estão procurando falar dos direitos humanos, dos direitos das vítimas e de suas famílias e da necessidade de saber a verdade” sobre os crimes na longa guerra. “Este não é o momento para dar certificado no campo dos direitos humanos à Colômbia”, acrescentou, devido “às preocupações com as revelações de infiltração paramilitar”, os grupos de ultradireita a serviço do narcotráfico, no Estado e na bancada oficialista. Vinte e cinco por cento da ajuda norte-americana está congelada devido a violações de direitos humanos.
Tão logo desceu do avião na sexta-feira, McGovern se dirigiu ao lançamento na capital colombiana da Comissão Ética Internacional, que propõe acompanhar durante 10 anos o Movimento Nacional de Vítimas de Crimes de Estado (MNVCE) em sua busca da verdade, justiça e reparação. O ativista argentino Adolfo Pérez Esquivel, prêmio Nobel da Paz, integra a Comissão, mas não esteve no lançamento por razões de saúde. Na agenda do representante norte-americano constaram praticamente todas as principais organizações não-governamentais de direitos humanos da Colômbia, bem como familiares de soldados e policiais nas mãos das Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia (Farc), que pretende trocá-los por guerrilheiros presos.
Também se encontrou com o senador Gustavo Petro e outros líderes do esquerdista Pólo Democrático Alternativo (PDA), segunda força nas eleições presidenciais de maio de 2006 nas quais Uribe foi reeleito por ampla margem. O presidente fez fortes ataques verbais contra seus opositores nas últimas semanas, os quais consideraram uma tentativa de desviar a atenção do crescente escândalo do “paragate”. “Meu coração ficou em pedaços” ao visitar no domingo pela manhã as comunidades de refugiados em Cacuzá, ao sul de Bogotá, disse McGovern, “porque já estive lá há quatro anos e essencialmente a situação continua a mesma”.
Nessa local “as pessoas continuam vivendo na pobreza absoluta, fugindo dos piores tipos de violência. Paga arrendamento, impostos, altas tarifas de água e de outros serviços. Não há nem escolas para as crianças, e as poucas que existem cobram para ensinar. Isso é ridículo”, ressaltou o legislador norte-americano. Por isso, propôs “um Plano Colômbia para as vítimas”, que inclua aumentar “bastante o investimento para os refugiados e condicionar essa ajuda para que realmente chegue ao destino certo”, acrescentou.
Os refugiados colombianos somam 3,8 milhões de pessoas, segundo a não-governamental Conselheira para os Direitos Humanos e Refugiados (Codhes). Cerca de 4,8 milhões de hectares do que eram suas terras estão em mãos de narcotraficantes e seus testas-de-ferro, segundo a Conferência Episcopal da Colômbia. O governo de Uribe não reconhece como refugiados os que abandonam suas casas após as fumigações em plantações de drogas com o herbicida Glifosato, um dos principais programas do Plano Colômbia.
Cerca de 45% de refugiados não recebem ajuda oficial; 60% carecem de qualquer acesso aos serviços de saúde e 70% das crianças refugiadas abandonam a escola, disse à IPS o diretor da Codhes, Jorge Rojas. “Em lugar de investir tanto em guerra, fumigações, talvez fosse melhor investir no fortalecimento das instituições, no desenvolvimento comunitário e econômico, no emprego, na alimentação básica, na saúde e educação e na defesa das vítimas e nos defensores dos direitos humanos”, disse o legislador norte-americano.
McGovern também dedicou tempo a expor às autoridades nacionais suas preocupações em matéria de direitos humanos. De fato, sua segunda reunião na sexta-feira foi com Uribe. E quando chegou na tarde de domingo a uma reunião com o Movimento Nacional de Vítimas de Crimes de Estado, vinha do Ministério da Defesa, onde se encontrou com o ministro Juan Manuel Santos. O encontro com o MNVCE parecia saído de alguma novela do prêmio Nobel colombiano Gabriel García Márquez, que nesta terça-feira completou 80 anos e cujo mundo literário, que transcorre no poeirento e isolado povoado de Macondo, é descrito como “real maravilhoso”.
A imaginação transbordante que se atribui a García Márquez, originalmente jornalista, é para muitos na Colômbia apenas o relato talentoso da realidade de seu país. O cenário foi a sede da Associação Sindical de Professores Universitários (ASPU) estatais, que nos últimos quatro anos contabilizou o assassinato de 29 mestres, 51 estudantes e cinco funcionários, aos quais se somam pessoas que abandonaram suas casas devido às ameaças de paramilitares de ultradireita.
O porta-voz da ASPU entregou a McGovern o mais recente comunicado de ameaças de morte feitas pelos paramilitares “Águias Negras” contra estudantes e professores das universidades dos departamentos de Valle e Cauca. Os ativistas colombianos com quem o legislador se entrevistou pediram uma audiência no Congresso de seu país com participação de vítimas.
Um dos integrantes da comitiva de McGovern, Adam isacson, pesquisador do Center for International Policy, considerado o principal analista norte-americana do Plano Colômbia, aproveitou um intervalo nas entrevistas para comer um hambúrguer com Coca-Cola sentado no chão. Era observado por um líder indígena kankuamo que mastigava folhas de coca, planta sagrada para todas as culturas aborígines e cuja presença na receita da Coca-Cola é mantida em segredo.
Oitenta por cento dos 352 assassinatos de kankuamos na guerra foram cometidos por paramilitares, disse o líder indígena, que atribuiu o restante à Força Pública e à guerrilha. Perto de kankuamo sentou-se o representante de uma cooperativa do povo nasa que prepara e comercializa produtos a partir da coca, com chá e refrigerante, e que acabam de ter suspensa pelo governo a permissão de vender fora do território indígena.
“Esta é uma reunião muito importante para mim”, disse McGovern em encontro com representantes do MNVCE, que atribui ao Estado a responsabilidade pelas violações generalizadas de direitos humanos por parte de – como se costuma dizer na Colômbia – “alguns membros” da Força Pública ou seus aliados paramilitares. O MNVCE está formado pro mais de 200 instituições, muitas antigas, como a Federação Nacional Sindical Agropecuária (Fensuagro), criada há 30 anos, e a Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC), que surgiu em 1982.
A organização mais nova da MNVCE é Filhas e Filhos pela Memória e contra a Impunidade, formada há um ano e integrada por órfãos de ativistas defensores dos direitos humanos, sindicalistas ou políticos de esquerda assassinados. Participaram da reunião com McGovern ativistas pelos direitos humanos, professores sindicalizados, trabalhadores judiciais e dirigentes da comunidade negra, camponeses refugiados e organizações femininas. “Vocês representam uma realidade neste país que deve ser discutida no Congresso norte-americano”, disse McGovern.
A primeira etapa do Plano Colômbia, iniciado em 2000, concluiu este ano e agora o Congresso em Washington analisa seus resultados. Bush pediu cerca de US$ 751,3 milhões para 2008, entre eles US% 611,8 milhões para a guerra, quantias semelhantes às dos últimos anos. “Os democratas que já dominam o Congresso terão que mudar isso. De fato, todos os congressistas que presidem as comissões que redigem o projeto de lei há anos criticam o Plano Colômbia’, disse Isacson à IPS. Ele e MacGovern não buscam uma redução geral na ajuda à Colômbia, um cenário improvável. “Queremos que haja mais ajuda para as vítimas e mais ajuda para o desenvolvimento nesse país”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

