Lisboa, 07/03/2007 – A violência continua ocupando o centro da cena em Timor Leste, a pequena república insular do sudeste asiático onde um terço da população foi vítima de genocídio nas mãos do exército da vizinha Indonésia no último quarto do século XX. Os mais de quatro séculos de arcaico colonialismo português e mais 25 anos de feroz ocupação indonésia são agora seguidos por uma onda de violência cuja solução política não se vislumbra a curto prazo, segundo observadores e analistas em Dili, a capital desse martirizado país.
Em uma mensagem dirigida à nação ao anoitecer em Dili e com transmissão direta da Rádio Televisão Portuguesa (RTP) ao meio-dia desta segunda-feira em Lisboa, o presidente de Timor Leste, José Alexandre Xanana Gusmão, ameaçou decretar o estado de sítio, “caso as medidas normais não sejam suficientes para aliviar a pressão criminosa atualmente existente”. Gusmão, o legendário comandante guerrilheiro que poro 20 anos combateu o exército indonésio na densa selva de Timor, considerou que seu país assiste “a uma certa anarquia e a uma falta de vontade de alguns segmentos da sociedade para contribuir com a estabilização”.
Segundo Gusmão, o Estado “vai utilizar todos os mecanismos legais disponíveis, incluindo o uso da força quando necessário, para por fim à violência, à destruição de bens e à perda de vidas, e restabelecerá rapidamente a ordem pública”. O auge dos incidentes foi registrado entre a noite do sábado e a madrugada do domingo numa reação a operações militares australianas, que atuam sob controle da Organização das Nações Unidas, para a captura do major rebelde Alfredo Reinado, ex-comandante da Policia Nacional timorense, foragido desde junho, acompanhado do ex-tenente do exército Gastão Salsinha e cerca de 20 rebeldes.
No dia 27 de abril de 2006 foi desatada uma vasta crise político-militar devido à decisão do governo do então primeiro-ministro Mari Alkatiri (2002-2006) de dissolver a Policia Nacional, o que causou divisões entre os militares, em sua maioria ex-guerrilheiros que combateram os indonésios. As manifestações de protesto se prolongaram até junho, quando a situação passou ao nível de enfrentamentos diretos, com o saldo de 40 mortos, centenas de feridos e a deserção do major Reinado e do tenente Salsinha, que no dia 3 de maio haviam abandonado a cadeia de comando das Forças Armadas e enfrentado soldados leais a Alkatiri.
No final desse mesmo mês, Gusmão pediu a renúncia de Alkatiri e de Roque Rodrigues, ministro da Defesa, nomeando para os dois cargos o então chanceler José Manuel Ramos-Horta, ganhador em 1996 do prêmio Nobel da Paz junto com seu compatriota o bispo católico Carlos Felipe Ximenes Belo. Entre os condimentos do complicado caldo da violência aparecem as supostas discriminações étnicas contra os lromunus, habitantes da parte ocidental do país, por parte dos lorosae, que ocupam o setor oriental e controlam as Forças Armadas e a Policia Nacional.
Entretanto, analistas australianos, neozelandeses e portugueses concordam, em comentários divulgados pela imprensa dos três países nos últimos oito meses, que no fundo duplo da verdade estão as ricas reservas de petróleo e gás natural existentes sob o leito marinho deste país de 15.007 quilômetros quadrados e 880 mil habitantes. A crônica instabilidade de Timor Leste, uma das nações mais pobres e frágeis do mundo mas rica em combustíveis fósseis não renováveis, poderia ser explicada com o selo do controle destes recursos e a resposta a está pergunta poderia ser encontrada principalmente em Canberra, Lisboa e nas sedes das grandes multinacionais do petróleo nos Estados Unidos, na Holanda e Grã-Bretanha, disse a IPS o especialista em política José de Albuquerque e Castro.
O especialista acrescenta que a surda batalha de influências, nunca reconhecida publicamente, entre Austrália e Portugal, já haviam começado antes da independência formal de Timor Leste, no dia 22 de maio de 2002, em pleno período de protetorado da ONU, estabelecido no final de 1999 após a retirada forçada da Indonésia. Canberra, Londres e Washington exerceram fortes pressões para que o nascente país adotasse o inglês como segunda língua e idioma oficial, mas Lisboa usou de sua influencia afetiva e histórica diante da diáspora timorense, agora dirigentes, em sua maioria educados em universidades portuguesas, para conseguir que o português se impusesse, concluiu Castro.
Apesar desta dimensão cultural, a distância geográfica com sua ex-colônia e a modéstia de seu poder econômico e militar em comparação com a vizinhança fronteiriça, a pujança da economia e a capacidade militar da Austrália levaram Portugal a defender a cooperação através das Nações Unidas, em lugar de apostar todas as cartas na bilateralidade. Apesar desta postura, o chanceler português, Luís Amado, disse na segunda-feira que tem a intenção de conversar com seu colega australiano, Alexander Downer, para avaliar a possibilidade de “uma intervenção conjunta” em Timor Leste.
Mas em seguida, descartou um reforço da Guarda Nacional Republicana (GNR) na ex-colônia asiática, porque “todo esse processo acontece sob coordenação da ONU e atuaremos com base nos prazos e calendários definidos pelo fórum mundial”. À simples vista, fica patente esta notória diferença entre os dois países. Os 130 soldados da GNR e os 15 agentes da Policia de Segurança Pública (PSP) portugueses que patrulham as ruas de Dili contrastam com os 1.300 soldados australianos transportados em blindados protegidos por helicópteros artilhados Blackhawk que cortam os céus.
Entretanto, toda essa movimentação de forças australianas, portuguesas e de outros países que compõem as Forças de Estabilização Internacionais (FEI) controladas pela ONU não conseguiram capturar Reinado, apesar de comandos especiais o terem cercado durante uma semana em Same, nas proximidades da capital. Tampouco conseguiu controlar centenas de jovens que apóiam o major e o tenente rebeldes e que continuam causando graves perturbações na capital, atirando pedras, levantando barricadas, interrompendo o tráfego nas ruas com a queima de pneus e assaltando residências de políticos e repartições do governo.
Algumas regiões de Dili, como Taibessi, Vila Verde, Colmera e Bairro do Pite, estão coberto por cartazes com fotos do oficial rebelde,afirma o despacho de um correspondente da agência portuguesa de notícias Lusa em Timor Leste, ao mesmo tempo em que informa que após vencer o cerco dos comandos australianos “o major Alfredo Reinado continua foragido”. Em Banana Road, uma das principais artérias que cortam a cidade, um grupo de jovens monta guarda diante de um grande retrato de Reinado. “Somos defensores do major, herói da justiça e estamos preparados para morrer para defendê-lo”, disse um deles citado pela agência.
Armando Rafael, analista do jornal Público, de Lisboa, afirmou que “a nova fuga de Reinado ameaça incendiar Dili”, por isso não se compreende o motivo de o comandante das forças australianas, brigadeiro-general Malcolm Rerden, ter dito que a operação de captura “foi um sucesso”, apesar de não conseguir explicar como o major fugiu nem a ação que terminou com quatro timorenses mortos. O fugitivo neste momento já não representa uma ameaça militar, mas, “é um fato que este major parece constituir um perigo político, sobretudo em um momento em que o país caminha para a realização de eleições, sem que a violência dê mostras de diminuir em sua capital”, disse Rafael. O especialista alertou que este fato “revela certa convergência entre Alfredo Reinado e alguns grupos de jovens”.
Em declarações aos correspondente portugueses na ilha, Benjamin Marty, gestor financeiro do Conselho Norueguês dos Refugiados em Timor Leste e que vive e trabalha no bairro de Vila Verde, se referiu em termos elogiosos à ação da GNR, que o resgatou durante um ataque ao seu escritório, ao mesmo tempo em que não poupou críticas à policia da ONU. “Estou admirado com o profissionalismo da GNR”, disse Marty, que também criticou os policiais da ONU, “cujos carros-patrulha estão sempre parados e os efetivos nada fazem”.
O clima de tensão poderá se agravar nos próximos dias, já que, segundo a agência de notícias indonésia Antara, citada pela Lusa, indica que após escapar do cerco australiano Reinado “está são e salvo em uma região montanhosa ao sul de Same, onde conta com grande apoio popular”. O chanceler Downer, que está em visita oficial à Indonésia, disse na segunda-feira à agência Antara que o ex-comandante da policia de Timor Leste “deve ser capturado vivo ou morto. Mais cedo, ou mais tarde, Reinado será capturado, embora não se renda”, acrescentou.
Ao que parece, segundo declarações do tenente Salsinha reproduzidas na segunda-feira pela imprensa portuguesa na Internet, os rebeldes não só rechaçam a rendição como, inclusive, optaram por montar guaritas nas montanhas e iniciar uma luta de guerrilha com “o apoio da juventude de Dili e da selva”. Paradoxalmente, o legendário comandante guerrilheiro Xanana Gusmão, que na década de 80 recebeu o apelido de “o Che Guevara da Ásia”, lembrando o líder guerrilheiro argentino-cubano, agora como chefe do Estado que conseguiu libertar pode ter de enfrentar uma guerra de guerrilhas. (IPS/Envolverde)

