Mineração-Peru: Montes, rios e vidas correm perigo em Piura

Londres, 29/03/2007 – O projeto de mineração Rio Blanco, na localidade andina peruana de Piura, pode acabar em sua primeira fase com muito mais do que um monte, como prevê em seus informes públicos a subsidiária da companhia britânica encarregada da exploração. A organização independente Peru Support Group (Grupo de Apoio Peru – PSG) alertou que, tal como foi divulgado o projeto “à comunidade investidora britânica, é um local potencialmente muito maior”, disse à IPS Anthony Bebbington, da Escola de Meio Ambiente e Desenvolvimento da Universidade de Manchester.

Na primeira fase, a companhia Majaz, subsidiária da britânica Monterrico Metals, previa demolir um monte para instalar uma mina a céu aberto. Mas segundo a informação entregue a investidores em Londres, os montes a serem afetados serão vários. Um informe elaborado pelo PSG, do qual Bebbington é um dos cinco co-autores, chama a atenção para as conseqüências sociais, ambientais e de direitos humanos do projeto. A propriedade dos montes ameaçados é reivindicada por duas comunidades agrícolas e de pastoreio, que se enfrentaram, freqüentemente de maneira violenta e com vários mortos, com representantes da companhia.

O informe adverte para vários perigos ambientais que ameaçam a bacia do Rio Amazonas e uma vasta área andina. As operações de mineração implicam a busca de depósitos de metal dispersos em um amplo território, com grandes quantidades de resíduos de rocha. “Isso pode levar a drenagens ácidas, através da formação de correntes de água de chuva que fluem com metais”, explicou Bebbington. As fossas que por fim a mina terá estarão abaixo do nível do mar, e os autores do informe prevêem que ficarão cheias de água contaminada. “O manejo da água é outra dúvida”, afirmou.

O PSG tentou envolver vários legisladores britânicos em sua campanha, depois da apresentação do informe no parlamento, na terça-feira. Em março do ano passado, o grupo patrocinou uma reunião na sede da Câmara dos Comuns “para demonstrar os significativos acordos entre Majaz e organizações locais de cidadãos sobre a dinâmica do meio ambiente e o desenvolvimento nas atividades de exploração da companhia”, diz um comunicado do PSG. Porém, Monterrico Metals recebeu uma oferta para compra da Majaz por parte de um consórcio de Hong Kong. Portanto, surgem preocupações pelo cumprimento dos compromissos assumidos pela subsidiária caso mude de dono.

O prazo para que os acionistas da Monterrico respondam à oferta chinesa vence em 13 de abril. “Este caso é emblemático de um panorama mais amplo nas relações entre mineração, sociedade e desenvolvimento, relevante para as operações de outras mineradoras britânicas no Peru”, ressaltou o PSG. O Peru tem uma longa tradição mineira, que remonta aos tempos da colonização espanhola. Os investimentos no setor aumentaram rapidamente desde o começo dos anos 90, como conseqüência direta da política de reformas liberais empreendidas pelo ex-presidente Alberto Fujimori, hoje preso no Chile e requerido pela justiça peruana.

Os investimentos em exploração mineira em todo o mundo aumentaram 90% entre 1990 e 1997. Já na América Latina quadruplicaram. Em 2003, a mineração concentrou 57% das exportações peruanas, e entre 2001 e 2003 recebeu 37% do investimento estrangeiro direto feito a esse país. “Devido aos grandes lucros do setor em tempos de importante aumento dos preços, e à luz da muito limitada evidência sobre a contribuição desta atividade para o desenvolvimento sustentável local peruana, esta expansão territorial fez elevar os conflitos sociais”, diz o informe.

“A violência e os distúrbios são ameaçadores se não se melhorar o vínculo entre os moradores locais e a empresa Monterrico Metals”, alertou o PSG. “E se os critérios de engenharia não forem cumpridos neste projeto de mineração, corres-se o risco de uma contaminação do Rio Amazonas que poderá durar séculos”, acrescenta o informe, que tem 48 mil palavras. A oposição a numerosas modalidades de mineração cresce em todo o Peru na medida em que seus habitantes percebem poucos benefícios tangíveis de projetos que coloquem em risco o fornecimento de água, bem como a vida animal e a agricultura, segundo o estudo.

O informe alerta que há “falta de confiança e espaço limitado para um debate racional” sobre o projeto Rio Blanco, e adverte que, segundo a estatal Defensoria do Povo, a presença da mineradora Majaz em terras comunitárias não tem abrigo nas leis peruanas. “As liberdades e a segurança humana estarão em questionamento” se a companhia não agir com responsabilidade e inteligência, segundo o estudo, preparado por uma delegação de cinco pessoas que visitaram o local da mina em outubro. (IPS/Envolverde)

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

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