Montanhas de Qandil, Iraque, 21/03/2007 – Saria é uma brilhante e adorável jovem curda de 20 anos que encontrou a paz ao se tornar guerrilheira.Nesta cadeia montanhosa que se estende entre Irã, Iraque e Turquia também encontrou proteção “contra a opressão de uma sociedade machista”. Saria, cujo nome significa “mulher jinete”, uniu-se ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) quando tinha apenas 14 anos. Desde então participou de vários enfrentamentos contra soldados iranianos e turcos.
A população curda está dispersa no norte do Iraque, Irã e Turquia. Sendo minoria em todos os países, foi obrigada a lutar para defender seus direitos. Só no Iraque, após a queda de Saddam Hussein, se conseguiu criar a região autônoma do Curdistão. O PKK, considerado uma organização terrorista pelos Estados Unidos e pela União Européia, empreendeu há anos, especialmente na Turquia, uma guerra de guerrilhas em defesa dos direitos de seu povo.
Os guerrilheiros se assentaram nas montanhas de Qandil. Uma visita a um de seus acampamentos mostrou que os combatentes curdos não são o que se poderia imaginar. Na relativa calma da montanha, homens e mulheres jovens se sentam para conversar sobre suas “atividades cotidianas em igualdade de condições”. Vários deles disseram se sentir livres neste lugar. Saria não sente falta das comodidades urbanas. “Em nossas sociedades, as mulheres estão anuladas. O importante é que sejam donas de si mesmas e de sua personalidade. Nosso partido nos garante esse ambiente”, afirmou à IPS.
A jovem é originaria de uma zona pobre da região curda do sudeste turco. A opressao sofrida por seu povo a levou a pegar em armas, como muitas de suas colegas. “Quando se tem toda a pressão cultural e econômica e nem mesmo pode falar em seu idioma, é melhor não viver”, afirmou Saria, de compleição muito forte para sua idade. "As montanhas são as melhores amigas dos curdos”, diz um velho ditado ainda vigente para estes guerrilheiros. A guerrilha tem bases ao longo da cadeia de montanhas que se estende desde a fronteira turco-iraquiana até os limites com o Irã.
O grupo guerrilheiro iniciou seus combates em 1982 na Turquia para conseguir a criação de um Estado curdo independente. Mas agora limitou suas ambições e reclama apenas que Ancara respeite seus direitos como minoria e lhes permita manter sua própria cultura. Muitos curdos, especialmente os intelectuais, consideraram isto um retrocesso. O PKK não está integrado apenas por curdos. Tem uma ideologia revolucionária de esquerda que também atrai turcos, árabes, persas e até alguns poucos europeus. Os que se alistam na organização recebem de três a cinco meses de treinamento militar e instrução ideológica para combater.
“Este é um movimento humanitário e livre, no qual todos podem se expressar com liberdade, sem importar sua raça ou religião”, disse Yaser, um curdo de 30 anos que aos 15 entrou para a organização. Não é guerrilheiro por gostar de lutar. “Trata-se de uma situação que nos impuseram”, explicou. O Iraque é o país do Oriente Médio com a maior quantidade de mulheres no parlamento nos conselhos locais, às vezes com uma representação de até 25%. Mas no PKK a presença feminina é ainda maior. “Em nosso partido se respeita a igualdade de gênero”, destacou sua porta-voz, Heval Asad.
Oitenta por cento de seu conselho diretor é composto por igual quantidade de homens e mulheres, por isso elas sempre terão pelo menos 40% da liderança. Os 20% restantes são eleitos pelo voto, garantindo que as mulheres sempre tenham uma porcentagem considerável de representação. Os guerrilheiros de Qandil não se casam porque estão consagrados à luta. O casamento e a criação dos filhos são um obstáculo para a revolução, afirmam. “Mas tampouco nos consideramos irmãos e irmãs. Nos vemos como amigos com diferentes personalidades”, disse Asad.
As duras condições de vida na montanha e os ocasionais combates não impedem que os combatentes cuidem de sua aparência. Muitas jovens usam maquiagem e pintam as unhas, enquanto os homens têm o cabelo bem cortado e barba bem feita. Mas estão conscientes do que fazem aqui. “O importante é que estamos dispostos a morrer se for necessário para a causa que defendemos”, disse Saria. Está jovem quer ser jornalista, “depois que o Curdistão for livre e a revolução vencer”. Mas enquanto isso “continuaremos lutando”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

