Ucrânia: Adesão à Otan tem rejeição popular

Budapeste, 20/03/2007 – Os políticos pró-ocidentais da Ucrânia insistem na incorporação de seu país à Organização do Tratado do Atlântico Norte, apesar da forte rejeição popular. “A opinião pública está mais contra a Otan, e nos últimos quatro a cinco anos a situação piorou para os partidários dessa organização”, disse à IPS o analista Eleksey Tolpygo, do ucraniano Centro de Estudos Políticos e de Conflito. A aliança militar ocidental e Kiev já cooperaram em várias ocasiões, e no ano passado realizaram um “intenso diálogo” para explorar as possibilidades de ingresso da Ucrânia no grupo.

Os Estados Unidos são a favor da incorporação, mas a Rússia, o aliado mais importante em matéria econômica e energética de Kiev, é firmemente contra. Consciente disso, o primeiro-ministro ucraniano, Viktor Yanukovich, cujo eleitorado é em sua maioria de origem russa, está numa encruzilhkada. “Por um lado, Yanukovich quer agradar seus eleitores, mas, também os Estados Unidos e as nações ocidentais, e, por outro, a Rússia”, disse Tolpygo à IPS. Por sua vez, o presidente Viktor Yushchenko rejeita “uma política de incerteza” e se inclina ao diálogo com o Ocidente para ampliar os programas de capacitação militar e civil de ucranianos em instituições da Otan e dos Estados Unidos.

Porém, reconheceu a importância de considerar as preocupações de Moscou. “Entendemos que a decisão da Ucrânia de integrar-se ao bloco militar requer clareza nas relações com a Rússia”, disse à imprensa. Funcionários ucranianos de diferentes áreas não deram importância aos últimos atritos entre Washington e Moscou pela possível construção de um sistema anti-míssil norte-americano na Europa oriental, e descartaram um ressurgimento do clima de guerra fria. Mas Yushchenko está convencido de que a segurança da Ucrânia, segundo sua nova posição geopolítica, só pode ser garantida pela Otan.

O presidente também considera que só com a ajuda da aliança seu país poderá modernizar seu exército e reduzir o gasto militar. O ministro da Defesa, Anatoliy Hrytsenko, nomeado pelo presidente, também declarou seu apoio aos esforços para alinhar seu exército com os padrões da Otan, e previu que a incorporação da Ucrânia poderá se concretizar em 2009. Mas nos últimos meses houve um aperta e afrouxa entre o presidente e o primeiro-ministro, este último com a palavra final sobre política externa. Ambos se apararam em sua própria interpretação da Constituição.

A última reforma constitucional tirou poderes do presidente, mas ainda assim Yushchenko conserva o direito de veto. Enquanto o presidente está totalmente a favor da incorporação da Ucrânia à Otan, o primeiro-ministro se inclina para uma relação de cooperação limitada e por submeter a um referendo a idéia de uma integração plena. “Yanukovich afirmou que não é o momento ideal para um referendo, pois o resultado seria bastante óbvio. As últimas pesquisas indicam que 64% dos consultados são contra a entrada na Otan, enquanto apenas 19% apóiam a idéia”, disse Tolpygo à IPS.

Por sua vez, o Partido Comunista, integrante da coalizão de governo, ameaça se retirar se a administração de Yanukovich não cumprir suas promessas eleitorais, entre elas a de organizar um referendo sobre o ingresso na Otan. Este partido afirma que a incorporação a associações entre Estados é um assunto que deve ser decidido por meio de consulta popular, mas, somente o presidente tem o poder de convocá-la. Os comunistas, junto com organizações ortodoxas e pró-russas, prevêem organizar uma consulta não oficial no próximo dia 25 em Kiev.

Uma situação semelhante foi vivida na Criméia, província ucraniana que goza de grande autonomia, onde 99% dos entrevistados rechaçaram a aliança militar do Ocidente. Apesar de tudo, o primeiro-ministro tenta demonstrar certa flexibilidade com os pró-ocidentais. Já lançou uma campanha de informação pública sobre as vantagens e desvantagens de ingressar na Otan, cujo orçamento chega a US$ 1 milhão. Mesmo antes da Revolução Laranja, revolta popular ocorrida entre novembro de 2004 e janeiro de 2005, o então presidente Leonid Kuchma procurou um equilíbrio entre Estados Unidos e Rússia.

Em 2004, quando as relações com Moscou estavam em seu melhor momento, Kiev enviou dois mil soldados ao Iraque, o quinto maior contingente na guerra liderada pelos Estados Unidos. Essa situação se equilibrou com a presença militar russa na península da Criméia, tal como ficou estipulado por um acordo multilateral que permite a Moscou manter uma frota na Ucrânia até 2017. O governo ucraniano garante que essa presença gera benefícios econômicos ao país. Há alguns meses, vários funcionários sugeriram, inclusive, a possibilidade de ampliar esse acordo.

Porém, enquanto o ministro da Defesa sustenta que a base russa não constitui um obstáculo para a incorporação da Ucrânia à Otan, outros políticos de sua mesma linha ideológica pressionam para que Moscou retire seus soldados definitivamente em 2017. Rússia e Ucrânia não puderam resolver várias disputas sobre o status dessa base militar por divergências na interpretação do acordo. Está situação não impede que os dois países realizem exercícios conjuntos esporádicos. (IPS/Envolverde)

Zoltán Dujisin

Zoltán Dujisin is presently based in Prague and covers the post-communist transformation of the Czech Republic, Hungary, Slovakia, Poland and Ukraine for IPS. Zoltán introduced himself to IPS in 2004 when he was based in Kiev, Ukraine, covering the country’s “Orange Revolution”. Since then he has gradually expanded the region’s coverage, working two years in Budapest, Hungary, and travelling extensively in the region. A political science graduate from the Technical University in Lisbon, Portugal, his studies brought him to the Czech Republic, Belgium and the Ukraine. He recently concluded a master’s degree in nationalism studies at the Central European University in Budapest, Hungary.

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