Zimbábue: Oposição pede ajuda na ONU contra repressão

Nações Unidas, 27/04/2007 – Ativistas, advogados, jornalistas e dirigentes de oposição do Zimbábue acusaram na Organização das Nações Unidas, na última quarta-feira, o regime de Robert Mugabe pelo recrudescimento da repressão desde o mês passado. “A policia antimotins ordenou que deixássemos nossos telefones celulares no chão e em seguida começaram a nos bater”, disse à imprensa a subsecretária de Relações Internacionais do opositor Movimento para a Mudança Democrática (MDC), Grace Kwinjeh. A dirigente se referia à repressão ocorrida por ocasião da jornada de oração convocada pela Aliança Cristã, uma coalizão de igrejas do Zimbábue, no dia 11 de março.

“Os policiais apontavam especificamente contra algumas pessoas. As chamavam pelo nome”, acrescentou Kwinjeh, entre elas o líder de seu partido. “Morgan Tsvangirai, como está?”, perguntaram, antes de espancá-lo. Setenta e duas horas depois, o Supremo Tribunal ordenou a libertação dos ativistas ou que fossem acusados pelas autoridades. Um manifestante morreu em razão dos disparos recebidos. Mas, desde então, foram seqüestrados mais 600 opositores, assegurou Kwinjeh.

O ataque da policia é parte de uma campanha repressiva do governo Mugabe contra seus críticos, que ganha impulso no mesmo ritmo que as dificuldades econômicas. O governo proibiu os atos e manifestações em Harae, e o presidente permitiu à policia usar a força contra os opositores que participarem deles. O líder de 83 anos, no poder desde 1980, felicitou a policia por reprimir as “tendências criminosas” do MDC no Dia da Independência, na semana passada. A Associação de Médicos pelos Direitos Humanos expressou sua preocupação pela crescente quantidade de ativistas tratados por ferimentos causados pelos policiais.

Na semana passada o regime expulso do país a Agência para o Desenvolvimento Internacional (Usaid, dos Estados Unidos) e impôs restrições às organizações não-governamentais que operam no Zimbábue, o que cria mais obstáculos à entrada de ajuda humanitária. Os zimbabuenses lutam pela subsistência em um país onde a inflação supera os 2000% ao ano, o desemprego é generalizado e os alimentos e outros produtos básicos escasseiam, o que é atribuído pela maioria dos observadores à má atuação do governo.

A Comissão Econômica das Nações Unidas para a África (ECA) indicou em seu último informe que o Zimbábue foi o único país onde se registrou um crescimento negativo em 2006. “Procuramos nos reunir com tantas delegações quanto nos seja possível enquanto estivermos em Nova York”, disse o diretor da Advogados do Zimbábue pelos Direitos Humanos, Otto Saki. Até agora, acertaram reuniões com as representações do Senegal e de Ruanda. Ao ser consultado sobre a possibilidade de reuniões com delegados da China e África do Sul, países que apóiam Mugabe nos fóruns internacionais, Saki disse à IPS que “não estão disponíveis”.

A União Européia impôs sanções ao Zimbábue em 2002 e os Estados Unidos em 2003 em resposta a violações de direitos humanos e acusações de fraude nas eleições de 2000 e 2002. Saki e Kwinjeh concentraram suas visitas às delegações africanas, pois as sanções européias e norte-americanas enfraqueceram o apoio dentro da região. A cúpula da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral reafirmou, no final de maio, a solidariedade dos 14 países com Mugabe. O bloco pediu o fim das sanções.

Mugabe acusa inimigos econômicos do Zimbábue no Ocidente de prejudicar seu país em represália por seu controvertido programa de reforma agrária, pelo qual foram confiscadas terras de proprietários brancos que foram distribuídas a membros da minoria negra. “Nossas instituições se converteram na maior ameaça para os direitos humanos: a policia, as agências que deveriam garantir a lei e a ordem, os organismos de inteligência se dedicam a bater, mutilar, matar, torturar e seqüestrar”, disse Saki.

“A tortura continua depois de 11 de março”, acrescentou Tawanda Mutasah, diretora-executiva da Iniciativa Sociedade Aberta para a África Austral, patrocinada pela organização norte-americana Open Society Institute. Mutasah aplaudiu as gestões de presidentes africanos que começam a questionar o regime de Mugab, como John Agyekum Kufuor, de Gana; Festus Mogae e Levy Mwanawasa, de Zâmbia, que comparou o Zimbábue ao Titanic. Depois da prisão e dos ataques contra altos dirigentes do MDC, o embaixador da Grã-Bretanha na ONU, Emyr Jones Parry, pediu que fosse considerada a situação do Zimbábue no Conselho de Segurança.

O embaixador sul-africano, Kumisani Kumalo, na qualidade de presidente de turno do Conselho, disse que não admitiria tal debate porque a crise política e econômica do Zimbábue “não ameaça a paz e a segurança internacionais”. Porém, no final de março, concordou, ainda que maneira reticente, a convocar uma sessão para examinar a situação humanitária nesse país africano. (IPS/Envolverde)

Mithre J. Sandrasagra

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