Belgrado, 27/04/2007 – Na capital sérvia continua-se falando dos vínculos amigáveis entre Rússia e Sérvia, “aliados de longa data”. Mas a interpretação da história depende do ponto de vista pelo qual é visto. A questão ressurgiu na semana passada quando o chanceler russo, Sergey Lavrov, visitou Belgrado com vistas à próxima resolução que a Organização das Nações Unidas deve tomar sobre a separação da província sérvia de Kosovo, hoje administrada pela ONU. As autoridades não evitaram declarar que a independência de Kosovo seria evitada graças “à tradicional amizade com Moscou”. A Sérvia espera que a Rússia vete essa resolução.
Entretanto, analistas não acreditam que haja lugar para tantas esperanças. “Na história recente, e não tão recente, a Rússia apoiou a Sérvia quando atendia aos seus interesses e, quando não foi assim, não o fez”, disse à IPS o analista Bosko Jaksic. “E mais, os vínculos entre os dois países estiveram bastante distanciados, tensos e foram quase conflitivos em uma época não muito distante”, recordou. Quando a antiga Iugoslávia se desintegrou nas guerras da década de 90, Moscou manteve uma distância prudente. Todas as sanções adotadas pela ONU contra a Sérvia foram aprovadas sem objeções de seus representantes.
O ex-presidente russo Boris Yeltsin, que faleceu na segunda-feira, enviou Victor Chernomyrdin à Sérvia junto com o enviado da União Européia, Martti Ahtisaaria, em junho de 1990. A missão dos enviados era convencer o então presidente, o já falecido Slobodan Milosevic (1946-2006) de que seu país seria arrasado pelo bombardeio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) se não concordasse com a proposta da comunidade internacional de permitir que a ONU assumisse o controle da província autônoma de Kosovo. E Milosevic, que governou entre 1989 e 2000, concordou.
Ahtisaari é o negociador das Nações Unidas que este ano esboçou um plano para outorgar maior autonomia a essa província, considerada um dos enclaves originais da nacionalidade sérvia, com vistas à sua posterior independência. Muitos dirigentes russos nunca tiveram uma postura favorável a este país. Esse foi o caso de Yeltsin após os elogios de Milosevic ao fracassado golpe de Estado contra Mikhail Gobachov em 1991, quando o então presidente da Federação Russa o salvou da derrocada.
A Rússia negou-se a ajudar a Sérvia em 1999, quando Belgrado solicitou equipamentos antiaéreos e ajuda militar diante do iminente bombardeio da Otan, que durou 11 semanas e deixou Kosovo sob controle das Nações Unidas. “A derrota de Milosevic em 2000 não fez com que o país fosse mais amigo da Rússia”, escreveu o historiador Bosko Jovanovic na publicação mensal Novo Pensamento Político Sérvio. “Os investimentos russos na era pós-Milosevic são escassas e não bem-vendas por muitas razões, que se resumiriam no fato de este país quase sempre ter oscilado entre russofobia e a russofilia”, acrescentou.
Antes, a cooperação era bem mais econômica. “A dissolvida União Soviética e a antiga Iugoslávia mantiveram vínculos até que ambas se desintegraram em 1991”, disse à IPS o economista Misa Brkic, que afirmou que no momento da dissolução do bloco soviético Moscou devia à Sérvia quase US$ 2 bilhões em bens e serviços. A última parte dessa dívida terminará de ser paga no final desta semana. A cooperação econômica entre as duas nações obedeceu aos laços nesse âmbito que tinha então a antiga Iugoslávia com as nações ocidentais.
Essa foi a conseqüência da firme negociação do histórico líder iugoslavo Josip Broz Tito em 1948 de unir-se ao bloco oriental de países socialistas. A decisão de Tito ficou conhecida como o “Não histórico”. A Iugoslávia defendeu uma política “nem oriental nem ocidental” durante décadas. Quando da invasão soviética a então Checoslováquia em 1968, Belgrado, nesse momento capital da federação, apoiou Praga temendo que lhe ocorresse o mesmo.
No período entre as duas guerras mundiais, a antiga Iugoslávia era um reino que não tinha relações diplomáticas com Moscou. Inclusive, estava proibido de viajar a URSS. Nessa época o reinado vigente ofereceu asilo a mais de 20 mil russos anticomunistas. A maioria deles, engenheiros e arquitetos, participou dos trabalhos de construção em toda a região, especialmente na Sérvia. Sérvios e russos, em sua maioria, professam a religião católica ortodoxa e utilizam um alfabeto cirílico quase idêntico, sendo que tudo isso ajudo a integração daqueles asilados. (IPS/Envolverde)

