Havana, 30/04/2007 – Cerca de 600 pessoas de diferentes organizações, redes, campanhas e movimentos da América Latina se reúnem na capital de Cuba para se conhecerem, trocar testemunhos de vida, mas, sobretudo, identificar as barreiras que impedem uma articulação de suas lutas contra estruturas de dominação e violência. A “construção de pontes para a articulação” aparecem entre os desafios identificados pela convocação para o VII Encontro Internacional sobre Modelos Emancipatórios, que começou sexta-feira e termina hoje no antigo Convento de Santa Clara, no centro histórico de Havana.
A “crise de legitimidade do neoliberalismo” abre espaços para maior participação e cria condições para que “a esquerda tome a iniciativa”, disse à IPS Gustavo Codas, representante da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Participando pela primeira vez em uma edição deste encontro, que acontece na capital de Cuba desde 1995, o brasileiro disse que a reunião ganha um significado especial pelo momento de “recomposição e rearticulação nos movimentos sociais e políticos de esquerda” na América Latina.
Para Codas, a região está diante de “outra esquerda”, que não tem os mesmos referenciais históricos do século XX e que deve aproveitar a atual para “produzir novas sínteses, convergências e alianças”. Uma alternativa “nesse sentido amplo, de diversidade de movimentos e opções”, afirmou.
Nem tudo se resolve automaticamente com a chegada ao poder de partidos com políticas progressistas, segundo vários participantes. “Continuamos marginalizados mesmo com governos de esquerda”, disse a equatoriana Blanca Chancoso, da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador. O governo de Rafael Correa “reconhece os indígenas como cidadãos individuais, mas, não como povo”, acrescentou. Os direitos dos povos indígenas e o reconhecimento de sua condição de nação e não de movimento social foram defendidos por Chancoso em sua exposição no plenário da reunião. “Devemos criar uma ponte de mão dupla que permita nos ligarmos, entendermos mutuamente e desenvolvermos juntos as alternativas”, afirmou.
Organizado pelo grupo América Latina: Filosofia Social e Axiologia do Instituto de Filosofia cubano e pelo não-governamental Centro Memorial Dr. Martin Luther King Jr., o encontro se afasta do esquema tradicional das conferências para priorizar os depoimentos e espaços de reflexão coletiva. Além dos intercâmbios no plenário, no antigo Convento de Santa Clara acontecem painéis sobre patriarcado e capitalismo, os movimentos sociais e a integração latino-americana, a civilização produtivista e depredadora do capital e as alternativas frente à cultura e a comunicação hegemônicas.
Do total de participantes, 400 são de Cuba e o restante representa organizações feministas, antibelicistas, sindicalistas, ambientalistas, de povos indígenas, minorias sexuais ou luta contra a dívida externa, o neoliberalismo e o livre comércio promovido pelos Estados Unidos. A lista inclui a Aliança Social Continental, Jubileu Sul/Américas, Via Camponesa, Campanha pela Desmitarização das Américas, Grito dos(as) Excluídos(as), Convergência dos Movimentos dos Povos das Américas, Diálogo Sul-Sul LGBT e Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-terra (MST).
Também enviaram representantes Red Latino-americana contra as Represas, pelos Rios, suas Comunidades e a Água; a Rede Mundial pela Abolição das Bases Militares e a Campanha Continental de Luta contra a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) e os TLC (Tratados de Livre Comércio).
A pretendida articulação passa não apenas pelos assuntos das diferentes campanhas e relações inter-setoriais, mas, também por saber levar o local ao regional e vincular as pressões desde as ruas com a capacidade de negociação com os governos e organismos internacionais, disseram alguns participantes. “Há uma presença da mulher na maioria dos movimentos, mas não conseguimos que os movimentos sociais tenham o feminismo como parte de sua filosofia”, disse à IPS a brasileira Miriam Nobre, uma das primeiras a dar seu depoimento no painel representanto a Marcha Mundial de Mulheres.
Para Miriam, que reconheceu ter “feito amigos e inimigos” por seu apelo feminista na primeira sessão do painel, “mudar a vida das mulheres é mudar o mundo”, e esse processo também deve incluir transformações nas relações de poder dentro dos diferentes movimentos sociais. O VII Encontro Internacional sobre Modelos Emancipatórios antecede o VI Encontro Hemisférico de Luta contra os TLC e pela Integração dos Povos, que acontece nesta semana em Havana, convocado pela Aliança Social Continental e seu capítulo cubano. (IPS/Envolverde)

