Afeganistão: O assassinato de um jornalista

Roma, 10/04/2007 – O movimento islâmico afegão Talibã justificou a execução do jovem jornalista Ajmal Nawshbandi pela negativa do governo de Hamid Karzai em negociar diretamente com seu líder, mula Mohammad Dadullah. Naqshbandi, de 25 anos, foi assassinado no domingo, às 9 horas (horário de Brasília) pelo grupo comandado por Dadullah, segundo seu porta-voz, Shahbuddin Atal, que acrescentou que o corpo estava na área de Loya Wala do distrito Hazarjusft, na província de Helmand, informou a agência independente Pajhwok Afghan News (PAN). “O porta-voz não soube dar nenhuma explicação sobre a morte do jornalista ter ocorrido 48 horas antes de expirar o prazo” dado ao governo afegão para iniciar as negociações, acrescentou a agência.

Naqshbandi foi detido no sul do Afeganistão no dia 5 de março junto com seu colega italiano com que trabalhava como intérprete, Daniele Mastrogiacomo, do jornal La Repubblica, e seu motorista, SAyed Agha. Dadullah informou que os três haviam sido “presos por entrarem em nosso território sem autorização e para serem interrogados” sob suspeita de serem espiões a serviços das forças militares britânicas, empenhadas em uma ofensiva contra o movimento islâmico, que controla a província de Helmand, no sul do país.

Com essa linguagem, o Talibã, que governou a maior parte do Afeganistão entre 1996 e 2001, se apresentava novamente como um poder político e militar com o qual negociar diretamente. Isso introduziu um elemento novo desde que o governo deste grupo foi derrubado depois da invasão das forças lideradas pelos Estados Unidos, lançada dois meses depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 m Nova York e Washington. A invasão foi decidida pelo governo do presidente George W. Bush com a desculpa de capturar Osama bin Laden, líder da organização acusada do atentado, a Al Qaeda, que morava no Afeganistão.

A posterior insurgência talibã se afirmou no ano passado, combinando no sul do país a guerra de guerrilha contra os 40 mil soldados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) estacionados no Afeganistão, a ocupação de território e a atividade terrorista em várias cidades. Agha foi decapitado no dia 13 de março e Mastrogiacomo libertado seis dias depois em troca da liberdade de cinco altos dirigentes do Talibã que estavam detidos em Cabul, mas o comandante do grupo seqüestrador decidiu manter Naqshbandi, reclamando posteriormente que o governo libertasse outros três rebeldes.

No último dia 2, Dadullah deu um ultimato de uma semana, que terminaria nesta terça-feira. Na quarta-feira passada, os jornalistas afegãos e italianos enviaram uma petição conjunta “ao Talibã e, em particular, ao comandante Dadullha, que retém nosso jovem colega”, para que o libertasse “imediatamente” porque Naqshbandi “não é um prisioneiro de guerra”, acrescentando que “nossa missão é informar objetivamente sobre o processo afegão”.

na manhã do dia seguinte, o porta-voz Atal se comunicou com a agência PAN para dizer que a petição fora recebida positivamente, que Dadullah divulgaria uma mensagem gravada e que depois libertaria o jornalista, segundo disse à IPS o diretor dessa agência, Danish Karokhel. Pouco depois, Atal voltou a se comunicar com a PAN para transmitir uma mensagem que contradizia a anterior, dizendo que o comandante Dadullah ainda iria decidir o que fazer com Naqshbandi. Mastrogiacomo dirigira na véspera uma mensagem pessoal a Dadulla, divulgada através da BBC de Londres.

“Em nome de Deus sobre o qual tanto se discute, apelo à sua sensibilidade de muçulmano e lhe peço que deixe com vida meu amigo Ajm”, disse o jornalista segundo o texto publicado pelo jornal italiano La Repubblica. “Fomos presos, feitos prisioneiros e mantidos em suas terras como reféns sem termos feito nada de mau”, acrescentou Mastrogiacomo, respeitando a linguagem política utilizada pelo comandante talibã.

“Quando nos despedimos vocês me disseram que seriamos libertados os dois”, afirmou o jornalista italiano em sua mensagem, referindo-se a Naqshbandi e sugerindo que Dadullah não cumpriu sua palavra. Mastrogiacomo foi libertado depois que as negociações iniciadas pelo governo italiano do primeiro-ministro Romano Prodi levaram Karzai a aceitar libertar os dirigentes talibã reclamados por Dadullah.

A gestão foi facilitada por intermediação de Gino Strada, presidente da organização italiana Emergency, que tem três hospitais e dezenas de clinicas no Afeganistão, e por Rahmatullah Hanefi, responsável pelo hospital em Lashkargah, perto de Kandahar. Hanefi foi detido pelo serviço de inteligência afegão na madrugada de 20 de março, um dia depois da libertação de Mastrogiacomo, e desde então nem mesmo seus familiares puderam vê-lo.

Strada também se dirigiu no sábado a Dadullah. “Emergency e eu pessoalmente apelamos para sua humanidade e seus profundos sentimentos religiosos para pedir que poupe a vida de Ajmal Naqshbandi. Sua libertação seria um importante gesto de humanidade e compaixão”, disse o médico, segundo texto publicado domingo no La Repubblica. A libertação dos dirigentes do Talibã foi imediatamente criticada por políticos e parlamentares locais, bem como pelo governo dos Estados Unidos, embora ninguém o fizesse enquanto a negociação estava em andamento.

Na semana passada, perguntado a respeito o ministro das Relações Exteriores do Afeganistão, Rangin Spanta, disse que ele “jamais teria aceito negociar com o Talibã para soltar terroristas presos”. No sábado passado, membros da Câmara afegã criticaram o governo por sua “indiferença” em assegurar a libertação com vida de Naqshbandi.

Um observador em Cabul que pediu para não ser identificado disse à IPS que a decisão de Dadullah “confirma que não é confiável e não está à altura da linguagem política que decidiu utilizar” e interprete que “mandar assassinar um jornalista afegão prejudicará a imagem do Talibã” e criará problemas internos ao próprio Dadullah, “vítima de seu afã de protagonismo e de conquistar liderança dentro do Talibã”. Ao condenar “sem atenuantes este assassinato sem sentido”, o representante do secrtário-geral da Organização das Nações Unidas no país, Tom Koenigs, disse que Naqshbandi “representa o melhor do Afeganistão de hoje”. (IPS/Envolverde)

Ricardo Grassi

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