Damasco, 10/04/2007 – O iraquiano Salim Hamad vê oportunidade nos edifícios que se multiplicam rapidamente no acampamento de refugiados de Yarmouk, nos arredores da capital síria. Hamad, de 33 anos, instalou ali um pequeno salão de chá. “Tive que deixar tudo. Não tenho idéia do que aconteceu com minha casa”, contou à IPS. Salim, ex-trabalhador ferroviária de Bagdá, vendeu seu carro e os moveis para trazer a esposa e os três filhos para Damasco, há cinco meses. Tinha de ir para a Síria porque a Jordânia não admitia refugiados homens de sua idade. Agora tem um comércio. É um refugiado iraquiano com mais sorte.
Yarmouk abrigou por muito tempo mais de cem mil refugiados palestinos. O acampamento conta com edifícios altos separados por pequenos becos e esta repleto de comércios. É um dos melhores centros para refugiados. A maioria de seus moradores tem água, eletricidade e outros serviços básicos. Dezenas de milhares de iraquianos inundaram o acampamento, mas não se sabe o número exato. Os iraquianos também se instalaram nos acampamentos de Jaramana e Sayada Zainab, além de outros muito menores onde vivem em pequenos grupos.
A leis os proíbe de trabalhar. A maioria se vê obrigada a subsistir com suas economias e estão desesperados por ajuda. “Deixei Bagdá para manter minha família viva”, contou à IPS Qasim Jubouri, um ex-empregado bancário. “Obviamente, tivemos de deixar todos nossos pertences”. Quando acabar suas economias, não tem idéia de como irá alimentar sua família, além da comida que o acampamento oferece. “Peço a todos os países, especialmente os Estados Unidos, que façam todo o possível para nos ajudar. O governo norte-americano é responsável por tudo isto. Não deveriam, agora, também assumir as conseqüências?”, perguntou.
Até agora, o governo de George W. Bush ofereceu apenas 466 vistos a iraquianos para entrarem nos Estados Unidos após a invasão iniciada em 20 de março de 2003. o deslocamento de iraquianos devido à guerra constitui “a crise de mais rápido crescimento do mundo”, alertou no dia 22 de março a organização não-governamental Refugees International, que também destacou o enorme movimento de refugiados internos. Por sua vez, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) prevê que 12% dos 25 milhões de iraquianos serão refugiados até o final deste ano.
Essa agência da ONU calculou que 1,5 milhão de iraquianos se dirigiram à Síria e outros dois milhões a outros países, na maioria para Egito, Jordânia, Irã, Líbano, Síria, Turquia e Iêmen. Mais de 1,5 milhão fugiram somente para território sírio. A maioria chegou ao destino sem nada, a não ser o pouco que puderam carregar. “Em Bagdá trabalhava como administrador de sete empresas, mas tive que deixar minha casa, meu carro e tudo mais”, contou Ali Ahmd, de 32 anos. Após sofrer um atentado em seu automóvel no outrora rico distrito de Mansoor, na capital iraquiana, Ali fugiu para a Jordânia. Depois, regressou, mas seu carro foi novamente atacado por insurgentes.
Nessa oportunidade morreram seis companheiros de trabalhos. Mas, isso não foi tudo. “O Exército Mehdi (milícia xiita do clérigo Muqtada al-Sadr) deteve 11 engenheiros de uma das empresas. Nunca mais soubemos deles. Naquele momento soube que tinha que deixar tudo e fugir para salvar minha vida”, contou. Ali não acredita que voltará logo. “Não creio que voltarei em menos de 15 ou 20 anos. Abandonei tudo e agora só tenho um pequeno comércio de alimento aqui. Mas não é suficiente. Nem a ONU nem nenhum governo, o iraquiano menos de todos, fazem algo para nos ajudar”, lamentou.
Sem dinheiro nem pessoal suficiente, a Acnur não pode dar assistência adequada aos refugiados iraquianos. Nem mesmo conta com recursos para processar a documentação necessária para a passagem de fronteiras. O orçamento da agência em 2006 para ajudar os iraquianos na Síria foi de US$ 700 mil, equivalente a menos de um dólar por pessoa. Além disso, é a única agência da ONU que dá assistência aos que fugiram para a Jordânia e o Líbano. A maioria dos refugiados iraquianos em situação desesperada recebe alimento, mas, não há dinheiro para distribuir. (IPS/Envolverde)

