Londres, 03/04/2007 – O acordo alcançado pelos grupos em luta na Irlanda do Norte pode servir como modelo para conflitos em outras partes do mundo, segundo líderes unionistas e republicanos. Os fotógrafos metralharam com seus flashs Ian Paislay, líder do Partido Democrático Unionista (DOP), e Gerry Adams, do partido secesionista Sin Fein, quando assinaram na semana passada um novo acordo para divisão do poder na Irlanda do Norte. Foi uma reunião histórica entre líderes de campos opostos, cujas diferenças assolaram a Irlanda do Norte durante décadas.
Mas o acordo pode significar algo mais para esta problemática região das Ilhas Britânicas, disseram à IPS os dois prêmios Nobel da Paz que deram o pontapé inicial à divisão de poder há vários anos, o unionista David Trimble e o republicano John Hume. O novo acordo se baseia sobre princípios sobre matéria de resolução de conflitos que poderiam funcionar em outros focos de enfrentamento de todo o mundo, como, por exemplo, o Iraque. A Irlanda do Norte é um território britânico na ilha da Irlanda, composto pelos seis condados da outrora província do Ulster.
Esta região permaneceu unida à Grã-Bretanha depois que os outros 26 condados ficaram independentes da Grã-Bretanha, em 1921, para compor a República da Irlanda, que ocupa a maior parte do território da ilha, no sul. A maioria dos quatro milhões de habitantes da República da Irlanda é católica, bem como a maioria da população da Inglaterra é protestante. Mais de um milhão dos 60 milhões de habitantes da Grã-Bretanha vivem na Irlanda do norte, e a maioria é protestante.
Boa parte da população católica da Irlanda do norte, os chamados republicanos, desejam que o território se una à República da Irlanda. Boa parte da população protestante quer mantê-la unida à Grã-Bretanha, e por essa razão são chamados unionistas. Essa é a razão da divisão política entre os dois lados. O DUP é a voz mais radical dos unionistas, e o Sinn Fein, é o principal partido republicano. No começo da década de 70, a violência causou três mil mortes e muitos feridos.
O Exército Republicano Irlandês (Ira) era a ala armada dos republicanos. Os combatentes ligados aos unionistas eram chamados de paramilitares. A instância pela qual Paisley e Adams sentaram-se à mesa para conversar sobre divisão de poder em um novo governo é, necessariamente histórica. Se eles puderam, também poderão fazê-lo os grupos em conflito em outras partes do mundo. “Os princípios e as chaves da resolução de nosso conflito podem contribuir na resolução dos que ocorrem em outros países”, disse o republicano Hume, que em 1998 recebeu o prêmio Nobel da Paz, junto com o unionista Trimble.
Foram, precisamente, esses dois dirigentes que iniciaram o processo de paz que hoje avança, embora com muitos obstáculos. “No final, todos os conflitos são sobre o mesmo assunto: as diferenças. Há diferenças de raça, religião e nacionalidade. E como esses tipos de diferenças são acidentes de nascimento que não podem ser eliminados, devem ser respeitados”, explicou Hume. “O segundo princípio é que haja instituições que respeitem as diferenças: uma assembléia proporcional e um governo proporcional”, acrescentou. Este é o único caminho democrático para avançar em uma situação de conflito, afirmou.
“Um sistema de maioria simples só conseguirá uma verdadeira democracia em uma sociedade uniforme. Mas se há diversidade, a verdadeira democracia é um sistema que inclui representantes de todos os setores, e é nisso que estamos trabalhando”, concluiu. A democracia é, em si mesma, essencial para qualquer solução, disse Trimble à IPS. “Cabe aos povos que vivem no território em disputa decidir do que querem ser partícipes. E deve haver acordos especiais para garantir plenas oportunidades de envolvimento das pessoas, para que não sejam excluídas nem discriminadas”, acrescentou.
Mas esta forma de democracia só pode ser uma solução temporária, acrescentou. “Isto não é a democracia como a maioria das pessoas a entende. Aqui existe uma coalizão compulsiva de todos os grandes partidos. Não é, nem de perto, um acordo normal. É necessária para esta situação, e será, talvez, necessária por algum tempo”, afirmou Trimble. “Quero pensar que não está muito longe o dia em que haverá suficiente confiança em toda a sociedade para avançar rumo a um acordo norma”, acrescentou. O caminho desde 1998 não foi fácil. Os acordos falidos levaram a suspender por quatro vezes as sessões da Assembléia do Norte (parlamento local). O novo acordo marca uma esperança renovada, mas não certezas. (IPS/Envolverde)

