Maputo, 03/04/2007 – Meninos e meninas sobreviventes da explosão de um depósito de armas em Moçambique carregam severos traumas pelo ocorrido e estão convencidos de que a tragédia se repetirá cedo ou tarde. O arsenal ficava em uma zona da capital rodeada por 14 bairros muito pobres e densamente povoados. Ao explodir, há duas semanas, balas e mísseis foram disparados em todas as direções, matando cerca de cem pessoas e ferindo gravemente outras 500, algumas delas com amputação de seus membros. Em quase toda Maputo as explosões foram ouvidas, e as janelas de muitas casas viraram cacos.
Não é a primeira tragédia desse tipo, por isso Adolpho Amissi, de 13 anos, teme que volte a acontecer. O menino agora está em um abrigo transitório com outros 27 meninos e meninas que viviam nas ruas do subúrbio de Zimpeto, perto do de Malhazine, onde ficava o depósito de armas. O abrigo foi seriamente danificado. Os projéteis acertaram o teto da recepção, uma das casas onde dormem as crianças e deixaram enormes buracos no jardim.
“Estava jogando futebol quando tudo começou. Eu sabia o que acontecia porque já havia ocorrido outra vez este ano. Por isso, no começo, quando vimos os mísseis voarem sobre nossas cabeças e ouvimos as explosões, continuamos brincando porque pensamos que acabaria logo, como da última vez. Mas piorou e as explosões ficaram mais fortes”, contou Adolpho à IPS. “Então, um dos tios (trabalhadores sociais) nos colocou em um automóvel para fugirmos. No que eu estava éramos oito. Saímos rápido do centro e paramos no hospital, mas enquanto esperávamos houve outra explosão. Tivemos de fugir de novo”, acrescentou.
O hospital psiquiátrico tinha grandes buracos nas paredes por causa do impacto dos projéteis. “Quando paramos da segunda vez, um míssil caiu perto, por isso continuamos fugindo. As pessoas corriam para todos os lados. Alguns de nós choravam. Eu tive medo, pensei que ia morrer”, disse Adolpho, visivelmente angustiado. Por fim, as crianças chegaram a Marrequene, a cerca de 30 quilômetros do abrigo. “Foi uma fuga providencial para as 27 crianças, pois o retirou 30 explosivos do local”, disse o diretor do centro, Edgar Cossa.
As autoridades estão preocupadas com as crianças afetadas, muitas delas já carregam traumas. Aderta Manjate, que trabalha em uma organização não-governamental dedicada à criança em situação vulnerável, disse à IPS que quatro órfãos, Sandra de 16 anos, Anatercia de 13, Cidela de 10 e José de 6 viveram difíceis momentos de pânico. “Não tinham nenhum adulto para ajudar, por isso me aproximei correndo, estavam gritando que eram perseguidos por bandidos”, contou.
O companheiro de trabalho de Manjate, Atanásio Tamele, perdeu sete familiares na tragédia, incluindo seus três netos. Agora, está preocupado com sua sobrinha de 12 anos, Rosinha, em terapia intensiva. “Já perdeu seus país para a doença e foi viver com sua tia, que agora morreu nas explosões. Como ela vai vencer tanta tristeza?”, disse à IPS.
O governo prometeu trasladar as munições restantes para uma região afastada, e iniciará uma investigação sobre o ocorrido. Por outro lado, estuda com outros atores sociais a forma de coordenar a ajuda aos afetados. Uma das prioridades é que ONGs como a britânica Halo Trust assessorem as forças armadas sobre como ajudar. O exército já iniciou uma grande operação para se desfazer das munições que não explodiram.
As autoridades lançaram uma campanha para informar a população e instruir meninos e meninas a notificarem e não tocarem munições abandonadas. Os ministérios da Mulher e Ação Social, da Educação e da Saúde trabalham junto como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a ONG britânica Save the Children na capacitação de ativistas comunitários para que colaborem com os professores no sentido de ajudar as crianças a superarem o trauma.
“Os professores receberão treinamento sobre diferentes técnicas, como grupos de discussão, para ajudar meninos e meninas a expressarem seus medos sobre as explosões”, disse o diretor de programa da Save the Children, Chris McIvor. “Aprenderão a identificar sinais de trauma e nervosismo. Quando for possível, tratarão de ajudá-los eles mesmos, mas também informarão dos casos mais graves para que sejam assistidos por um psicólogo”, explicou. “Durante as explosões muitas crianças ficaram separadas de suas famílias, em certo momento havia 170 menores perdidos. A maioria já voltou para suas casas. Seis escolas foram danificadas e uma delas perdeu três alunos”, acrescentou.
O garoto Adolpho continua visivelmente afetado. Está preocupado com seu treinador de futebol, Osvaldo, de 15 anos. “Estava em sua casa e foi ferido na perna. Ainda está no hospital”, contou. Quando a IPS lhe perguntou se esta foi a experiência mais aterradora de sua vida, Adolpho respondeu: “Duas coisas me assustaram em minha vida: as explosões e quando vi um ladrão matar uma pessoa na minha frente, quando eu vivia na rua.” (IPS/Envolverde)

