Terá, 11/04/2007 – Uma semana depois de o presidente o Irã, Mahmoud Ahmadinejad, ordenar a libertação dos 15 fuzileiros britânicos acusados de ingressarem em águas iranianas sem autorização não está claro se tirou algum beneficio deste incidente que poderia muito bem ter desatado uma nova guerra no Oriente Médio. No domingo, o presidente da Assembléia Consultiva Islâmica, Gholam-Ali Haddad Adel, disse à IPS que a libertação dos militares da Real Marinha Britânica, presos no dia 23 de março pela elite da Guarda Revolucionaria Iraniana (IRGC), foi “apropriada e correta”.
Porém, alguns comentários de leitores publicados no site de notícias Baztab, vinculado a Mohsen Rezaiee, ex-comandante-em-chefe da IRGC e agora secretário do poderoso Conselho de Conveniência (órgão consultivo), questionaram a forma como a crise foi manejada. “Se eles (os britânicos) de fato transgrediram águas iranianas, então não deveriam ter sido libertados. Se não o fizeram, então não deveriam ter sido detidos. Foi errado de todo modo”, dizia um comentário no site.
“Para que todo esse barulho, com os britânicos pedindo perdão ou reconhecendo a violação do território iraniano, se queriam libertá-los? Seria melhor ter mostrado clemência islâmica desde o começo e depois os libertasse”, afirmava outro comentário. “Meu Deus, fiquei envergonhado, senhor presidente! O presidente, o chanceler e o assessor presidencial se despedindo dos agressores! Fomos humilhados diante dos olhos do mundo”, dizia outro. O site Baztab foi censurado na última quinta-feira por ordem judicial.
“A libertação dos britânicos desta forma foi preparada como uma espécie de publicidade para Ahmadinejad, que conseguiu uma nova oportunidade de aparecer diante das câmeras como um herói, perdoando os britânicos e os mandando para casa como um presente para o povo britânico”, disse à IPS um observador em Teerã que pediu para não ser identificado. A entrega dos fuzileiros foi anunciada às vésperas do aniversario de nascimento do profeta Maomé e da Páscoa.
Em tudo isso deve ter pesado a pressão interna contra Ahmadinejad, que aumentou depois que o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas aprovou uma resolução, dia 24 de março, com sanções contra Teerã por se negar a suspender seu programa nuclear. Os iranianos estão preocupados pelo impacto dessas sanções. Muitos acreditam que os militares britânicos foram presos para desviar a atenção internacional da questão nuclear. Também houve especulações de que o governo tentava trocar os fuzileiros pelos cinco diplomatas iranianos detidos dia 11 de janeiro pelas forças dos Estados Unidos na cidade iraquiana de Erbil.
Mas, o chanceler iraniano acabou com essas teorias quando pediu ao Conselho de Segurança que interviesse no caso. Segundo um comunicado de imprensa da chancelaria, Mottaki pediu a esse órgão da ONU que evitasse uma “dupla moral”. Apesar das “repetidas demandas dos governos do Irã e do Iraque pela liberdade dos cinco diplomatas, estes continuam sob guarda de forças estrangeiras em território iraquiano”, disse o chanceler. “Lamentavelmente, o Conselho não deu atenção às demandas para que examinasse a violação das leis internacionais e dos princípios que regem os assuntos diplomáticos e consulares”, acrescentou.
Segundo o exército norte-americano, os detidos não são diplomatas, mas membros da IRGC envolvidos no tráfico de armas para rebeldes xiitas iraquianos. “Ahmadinejad não poderia tomar sozinho a decisão de libertar os britânicos, mas terá de pagar o custo de ter sido forçado a justificá-la perante o público iraniano, que já demonstra sinais de descontentamento”, disse o observador. Por sua vez, jornais de linha dura iranianos elogiaram Ahmadinejad. O periódico Iran, porta-voz do governo, qualificou a decisão de “diplomacia total”. Mas, líderes reformistas criticaram o governo durante toda a crise de 12 dias, isto é, dentro do que foi permitido pela censura.
Embora reconhecessem o direito do país em defender seu território e aplaudissem a libertação dos reféns, os reformistas em geral afirmaram que a crise se agravou desnecessariamente e poderia ter sido evitada ou manejada com mais elegância e menos custos para o país. Se os fuzileiros seriam perdoados, isso poderia ter ocorrido antes ou poucos dias depois das ameaças a Teerã do primeiro-ministro da Grã-Bretanha,Tony Blair, afirmou em seu editorial o jornal reformista moderado Aftab-eYazd.
“Uma resposta apropriada à ameaçadora declaração de Balir, evitando qualquer ação que pudesse prejudicar o orgulho nacional iraniano, parecia ser o mais adequado”, afirmou o jornal, acrescentando que “a libertação 24 horas depois da ameaça de Blair não supôs nenhum orgulho para nossos cidadãos”. Ali Akbar Velayati, principal assessor de assuntos exteriores do líder espiritual supremo iraniano, o aiatolá Khamenei, disse à televisão estatal que a Grã-Bretanha havia pedido desculpas pelo incidente em uma carta enviada a Teerã um dia antes da libertação. Entretanto, Londres nega veementemente essa versão.
Após o regresso dos fuzileiros a Londres e de um atentado terrorista na cidade iraquiana de Basra que matou quatro soldados britânicos e um intérprete iraquiano, Blair voltou a acusar o Irã, dizendo que “há elementos do regime iraniano que apóiam, financiam e armam o terrorismo no Iraque”. Observadores disseram que os esforços da televisão oficial iraniana para mostrar imagens dos detidos em boa saúde e de bom humor foi um tiro pela culatra para Ahmadinejad. O canal árabe Al Alam mostrou no final de semana imagens dos britânicos relaxados, comendo ou jogando tênis de mesa. “Essas imagens contradizem o que eles disseram quando chegaram ao seu país”, afirmou um apresentador da emissora. (IPS/Envolverde)

