Washington, 04/04/2007 – Com a entrada plena na União Européia em suspenso, a atenção mundial concentrada no Oriente Médio e com China e Índia em ascensão, a Turquia começou a voltar sua atenção para o leste. Em parte, mas, apenas em parte, esta reorientação é comercial e geopolítica: apenas 4% do território turco fica na Europa. A razão mais profunda tem relação com a vacilante identidade nacional e religiosa deste país. A Turquia tem uma pesada âncora no Ocidente. É um dos principais aliados militares dos Estados Unidos e um membro-chave da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), além de ser membro pleno do Conselho da Europa desde 1949 e estar associada, embora não plenamente, à UE.
Durante a Guerra Fria a Turquia teve uma posição estável no concerto internacional, explicou Suat Kiniklioglu, diretor-executivo do escritório em Ancara do Fundo Marshall alemão. “A Turquia, com a fronteira mais longa com a União Soviética, era vista como a defesa da esquina sudeste da Otan”, disse Kiniklioglu em uma conferência sobre a situação daquele país na Fundação Sasakawa para a Paz, em Washington, na semana passada. Após o colapso da União Soviética, acrescentou, a Turquia começou a rever os axiomas sobre os quais baseava sua política exterior.
Uma figura fundamental para compreender esta mudança de pensamento é Ahmet Davogoglu, principal assessor em matéria de relações internacionais do governo islâmico moderado formado em 2002 pelo Partido Justiça e Desenvolvimento. O livro de Davotoglu intitulado “Profundidade estratégica” já delineava uma política externa que fincava suas raízes na história até o Império Otomano e estendia sua visão para os domínios dessa época. Davotoglu “argumentava que a Turquia não podia mais ter uma política unidimensional, que deveria se reintegrar à região”, explicou Kiniklioglu. “Simplesmente, a política externa turca está se diversificando”, disse.
“Isso não significa que o país sacrifica seu vínculo com a Europa e com os Estados Unidos”, acrescentou o especialista. “Nossa geografia nos obriga a nos comprometermos e sermos parte daquelas regiões que deixamos de lado durante décadas”, disse Kiniklioglu. Este giro para o leste, com um fortalecimento das relações com Rússia, Irã, Ásia central e Síria, se baseia parcialmente no comércio. O intercâmbio da Turquia com Irã e Síria cresceu em 2005 e 2006, acrescentou. O gás natural e o petróleo da Rússia transformaram esse país no segundo sócio comercial de Ancara, depois da Alemanha. E dois milhões de turistas russos visitam a Turquia a cada ano.
A Turquia tem trabalhado de forma muito mais estreita com seus aliados muçulmanos, como seus sócios na Organização para a Cooperação Econômica, que criou em 1985 junto com Paquistão e Irã e que agora integram também Afeganistão e os países da Ásia central. Pela primeira vez, a Organização da Conferência Islâmica elegeu um secretário-geral de nacionalidade turca. E o fato de Ancara não ter aderido à guerra do Iraque melhorou sua imagem junto ao mundo árabe. A energia russa, os conflitos no Oriente Médio e as simpatias com o mundo islâmico empurram esse país para o leste. Menos clara é a influencia nesse sentido da indiferença e da falta de compreensão do Ocidente em relação à Turquia.
A percepção do Ocidente sobre as credenciais européias da Turquia são um motivo de irritação. “Trata-se da identidade”, afirmou Kiniklioglu. “Aos croatas nem mesmo se pergunta se são europeus, mas, não há dúvida de que a Turquia e o Império Otomano são parte da história eurpéia. Nos sentimos muito feridos quando o político de direita da França Nicolas Sarkozy diz que os turcos não são europeus e que não temos lugar na Europa”, exemplificou.
“O establishment turco ainda está muito descontente pelo fato de os Estados Unidos não terem atendido suas recomendações sobre o Iraque em 2002 e 2003. mas, cada vez é maior o reconhecimento de que precisamos olhar para frente a fim de estabilizar esta zona do mundo”, disse o especialista. “A Turquia se opõe a uma retirada apressada das tropas norte-americanas do Iraque. Esta posição é temperada pelo componente étnico curdo no norte do Iraque. A Turquia não quer um Curdistão independente, e acredita que a saída rápida criaria na região um caos de décadas”, acrescentou. O envolvimento ruço no Iraque é muito maior do que pintam as convenções, disse, por sua vez, Ian Lesser, pesquisador do Fundo Marshall da Alemanha.
“Para muitos no establishment da política externa dos Estados Unidos é desanimador a Turquia não abrir uma segunda frente” de combates, afirmou. “Ancara não fala muito sobre isso, mas, apesar dos desacordos, 70% do material (da coalizão ocupante) que se dirige ao Iraque passa por seu território, inclusive boa parte da ajuda para a reconstrução”, acrescentou Lessr. “A Turquia está muito mais envolvida do que, inclusive, advertem muitos turcos”, afirmou o especialista. Por outro lado – prosseguiu – uma retirada ou uma redução de tropas requer a cooperação ativa do governo turco.
Apesar da preocupação de Ancara pelo desenvolvimento nuclear do Irã, as autoridades deste país “não preferem uma operação militar” para sufocar o programa, disse Kiniklioglu. “A Turquia tem, economicamente, muito em jogo no Irã, por isso nem mesmo quer mais sanções”, acrescentou. De todo modo, segundo as pesquisas internacionais, os entrevistados turcos demonstram simpatia com o Irã em uma proporção que duplica a que recebe dos Estados Unidos. Outro fator de descontentamento é o pacote de medidas de estabilização econômica imposto pelo Fundo Monetário Internacional à Turquia depois da crise financeira de 2000 e 2001. “Nenhum país sob rígido controle do FMI tem boa opinião do Ocidente”, disse Pinar Bilgin, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Ancara. (IPS/Envolverde)

