Havana, 02/05/2007 – Ativistas de organizações de mulheres e indígenas reunidos em Havana reclamaram seu lugar nos movimentos sociais da América Latina, contra conceitos discriminatórios que subsistem. O machismo predominante, inclusive dentro de grupos considerados progressistas e de esquerda, coloca a população feminina em uma posição semelhante à dos povos originários, cuja singularidade se menospreza, afirmaram os ativistas. Ambos aparecem à margem de propostas qualificadas de alternativas, mas que perpetuam velhos cânones de dominação, afirmaram.
Para a argentina Diana Maffía, as feministas se comprometem “com outras emancipações sociais, mesmo quando não são aquelas que vão causar impacto direto em nossos corpos e em nossas vidas, porque o farão no tipo de sociedade na qual queremos nos incluir, sem subordinados e dominantes”. Maffía é ativista da organização Feministas Inconvenientes, que em seu “manifesto” de fundação adota o feminismo como “crítica radical a um sistema capitalista e patriarcal”, afirma que um mundo em que “a maioria das mulheres e outras minorias, oprimidas por sua opção sexual ou identidade de gênero, por sua cultura ou crenças diferentes da hegemônica”, sofrem impactos em sua autonomia e seus direitos.
“Queremos que as utopias do feminismo também sejam apropriadas como utopias de luta pessoal por outros movimentos sociais”, disse Maffía à IPS. A seu ver, os que lutam pelo meio ambiente, contra o trabalho escravo, a exclusão das diversidades sexuais e dos imigrantes devem incorporar “qual é a situação da opressão de gênero no mundo. Cremos que se não se incorporar esse tipo de opressão às lutas pela libertação, nossas vidas permanecerão iguais e teremos passado ao longo de outra revolução”, afirmou.
Doutora em filosofia da Universidade de Buenos Aires, Maffía disse que em suas palavras confluem as vozes de outros setores oprimidos. “Se eu não possa portar todas essas vozes, fica muito difícil meu discurso, mesmo sendo emancipador, conseguir inserir-se em uma mudança seletiva”, acrescenta. Em uma conferência durante o VII Encontro Internacional sobre Modelos Emancipatórios, que terminou segunda-feira na capital cubana, Maffía afirmou que o maior desafio ético para os movimentos sociais é “recuperar a polifonia das vozes”, com base na “escuta sensível da diversidade”.
A ativista destacou a exclusão das mulheres, que têm apenas 3% dos meios de produção, apesar de trabalharem, em média, seis horas a mais do que os homens e não receberem remuneração pelo trabalho doméstico. Do encontro participaram mais de 500 pessoas, a maioria de Cuba, e cerca de 200 representantes de organizações sociais, instituições acadêmicas, ecumênicas e religiosas, intelectuais e especialistas em teologia de outros 26 países, convocados pelo grupo América Latina: Filosofia Social e Axiologia, do Instituto de Filosófica de Cuba, e pelo não-governamental Centro Memorial Dr. Martin Luther King Jr.
O encontro incluiu depoimentos e debates em plenário e em vários espaços, para a reflexão coletiva sobre patriarcado e capitalismo, os movimentos sociais e a integração latino-americana, a civilização produtivista e depredadora do capital e as alternativas diante da cultura e da comunicação hegemônicas. Embora a chegada da esquerda latino-americana ao poder político em vários países tenha renovado as esperanças dos povos indígenas de sair do esquecimento em que estão desde tempos da colônia espanhola, o respeito à sua identidade como nações constitui uma reclamação ainda incompreendida, disseram participantes do encontro.
“Defendo a revolução, mas em conjunto, desde a plurinacionalidade, desde a diversidade”, disse à IPS Blanca Choncoso, líder da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie). “O problema é que até agora toda a vivencia e, talvez, os reclamos dos povos indígenas tenham sido considerados uma questão cultural, folclórica, e não como um ente político que também faz contribuições a partir do seu conhecimento”, afirmou. Chancoso lembrou que os povos indígenas na prática já vivem o socialismo, o comunitarismo e as economias solidárias, “um legado “que desde a invasão colonial européia se procurou pisar e ir esquecendo”.
“Não estou aqui apenas para que vejam as diferenças, mas porque também estamos contribuindo para a construção de alternativas”, disse a ativista de origem quéchua, que considerou necessário o reconhecimento da existência de “povos com história, que de alguma maneira têm sua própria governabilidade e suas normas”. Chancoso ressaltou que “não queremos ser vistos como os pobrezinhos, isolados, nem que nos confundam pelo número de pessoas, mas porque somos realmente povos. Tem de ser considerada essa alternativa, pois sem nós não haverá uma verdadeira revolução”.
Mais de um século depois de consumada a independência da maioria das antigas colônias européias na América Latina, alguns consideram que determinadas concepções do sistema colonial continuam pesando, inclusive nas idéias dos movimentos que proclamam a emancipação continental. “Nosso pensamento está colonizado em muitos níveis, não apenas no da vida diária, onde reproduzimos relações de opressão e exclusão que consideramos naturais, e as lógicas de quem coloniza o outro, mas também no âmbito do pensamento social, da filosofia”, afirmou Gerardo Cerdas, coordenador na América Latina do não-governamental Grito dos Excluídos.
Essa organização promove desde 1995 uma proposta de ação para os movimentos sociais que dê ênfase no protagonismo dos setores excluídos na transformação social, a necessidade de articulação das organizações populares e o reconhecimento de que todas as lutas respondem a uma mesma realidade de marginalização. Para Cerdas, “as situações de opressão são vividas pelas pessoas como sendo naturais”, por isso nem sempre compreendem o vínculo entre esquemas de dominação historicamente construídos e o não ter o que comer, onde morar ou fazê-lo de maneira precária. Apesar dessa persistência desses padrões em todas as esferas da vida na região, “também estamos em busca de novos horizontes, e creio que por isso é possível reverter uma situação de miséria e exclusão que vive o continente”, garantiu Cerdas. (IPS/Envolverde)

