Clima: Brasil atrás da liderança perdida

Rio de Janeiro, 22/05/2007 – O Brasil está no caminho de deixar de aproveitar uma boa oportunidade para firmar-se como potência ambiental nas negociações para controlar o ameaçador aquecimento da Terra, segundo ambientalistas e analistas. Apontado como um dos cinco países de maior produção de gases causadores do efeito estufa, o Brasil apresenta uma singularidade: três quartos de suas emissões se devem ao desmatamento. A redução drástica dessa prática depende apenas da execução séria do que já é uma política oficial: conter o avanço de atividades agrícolas e extrativistas, quase sempre ilegais, nas florestas amazônicas.

Porém, o governo brasileiro nega-se ser incluído no grupo de 35 países industrializados que assumiram compromissos para reduzir a emissão de gases de efeito estufa. Primeiro quer consolidar o princípio da “responsabilidade compartilhada, mas diferenciada”, que impõe metas obrigatórias apenas aos países que, por sua industrialização anterior, acumularam na atmosfera o grosso dos gases, que levam séculos ou décadas para se dissiparem. A respeito das florestas, o Brasil teve duas posições.

Inicialmente, não concordou em incluí-los nos mecanismos criados pelo Protocolo de Kyoto, assinado nessa cidade japonesa em 1997 e em vigor desde 2005, que permitem às nações industrializadas cumprir suas metas em outros países, adquirindo os chamados créditos de carbono. Desde o ano passado, Brasília propõe a criação de um fundo, com contribuições voluntárias, para compensar o esforço dos países em desenvolvimento que reduzirem o desmatamento em relação a uma média histórica e que seriam remunerados segundo a emissão evitada.

É “um avanço”, incluir as florestas nativas na negociação, mas “não ajuda a criar um mecanismo forte, jurídico e econômico”, já que o Brasil defende o fundo voluntário e não uma fórmula que amplie o regime internacional de mudança climática, com certificados válidos no mercado de carbono, disse à IPS Mark Lutes, especialista da organização não-governamental brasileira Vitae Civilis. Hoje em dia faltam ao Brasil negociadores criativos, não ligados à chancelaria para que o País volte a assumir um papel de liderança nas questões ambientais, afirmou.

Nao década passada, o Brasil se destacou como sede da Conferência Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento, ou Cúpula da Terra, em 1992, e nas negociações do Protocolo de Kyoto. O brasileiro Luiz Gylvan Meira foi decisivo na aprovação do princípio de responsabilidade diferenciada e uma proposta brasileira resultou no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, pelo qual projetos que reduzem a emissão de gases em países em desenvolvimento geram certificados que podem ser vendidos no mercado de carbono.

Agora, a estratégia diplomática do Brasil, que prioriza o comércio e a obtenção de um lugar permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, trava iniciativas ambientais, segundo Lutes. O ativista recordou que a questão da mudança climática não é manejada pelo Ministério do Meio Ambiente, mas pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e pela chancelaria. Dessa forma, a aliança estratégica com China, Índia e outros países do Sul, estreitada especialmente nas negociações da Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio, impede o Brasil de atuar segundo suas especificidades em mudança climática e avançar em propostas que poderiam impulsionar acordos mais ambicioso, explicou Lutes

Porém, a proposta brasileira para as florestas “não é uma posição fechada”, mas uma idéia a ser discutida por todos e que, provavelmente, avançará para um resultado final “diferente do proposto pelo Brasil”, afirmou João Paulo Capobianco, secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente. O Brasil não terá problemas em assumir metas, “se o princípio de responsabilidade comum, mas diferenciada, for respeitado”, isto é, “os responsáveis históricos intensificam sua contribuição” para minimizar o aquecimento global, disse à IPS

O último informe do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), divulgado no dia 4 de maio, estimula um debate favorável ao Brasil, ao destacar dois pontos em que o País pode oferecer maior contribuição nessa redução, evitar o desmatamento e a bioenergia. O Brasil não tem de cumprir metas obrigatórias, mas a Convenção do Clima “não exime nenhum país de atitudes responsáveis” na questão, e o País poderia adotar “metas domesticas espontâneas”, fortalecendo-se nas negociações para uma segunda fase do Protocolo de Kyoto, com metas a serem cumpridas a partir de 2012, disse Luis Piva, coordenador da campanha climática do Greenpeace no Brasil.

O Brasil ainda carece de uma política nacional de mudança climática, para a qual “imprescindível eliminar o desmatamento” e corrigir o rumo da matriz energética, que “tende a ser mais suja nos próximos anos”, ao ampliar a participação de combustíveis fósseis, especialmente o gás natural, acrescentou Piva à IPS. Além disso, o País aparece como provável grande exportador de etanol é “vulnerável sua capacidade institucional” de impedir que o aumento da produção de biocombustíveis aumente o desmatamento, ressaltou.

O Brasil tem tudo para ser uma potência ambiental, com suas florestas tropicais, água e biodiversidade abundantes, mas é “incapaz de assumir a liderança moral e ativa” nas negociações”, disse , em um artigo público no jornal Folha de S. Paulo, Rubens Ricupero, ex-secretário-geral da conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. Além disso, “adotou uma política de crescimento econômico, ignorando que não haverá desenvolvimento em um “planeta tórrido e semi-deserto”, concluiu. (IPS/Envolverde)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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