Grupo dos Oito: EUA querem esfriar a cúpula

Berlim, 22/05/2007 – Os Estados Unidos pretendem esfriar a agenda da cúpula do Grupo dos Oito países mais poderosos do mundo, que acontecerá no próximo mês na Alemanha, despojando-a de assuntos importantes. Não interessa a Washington alcançar um consenso internacional sobre políticas ambientais para reverter o aquecimento global, nem parece disposto a fixar novas normas para controlar a especulação financeira. O governo norte-americano retirou o nome do secretário do Tesouro, Henry Paulson, da lista de participantes das reuniões dos ministros de finanças preparatórias da cúpula, realizadas sexta-feira e sábado em Potsdam, perto de Berlim.

A explicação oficial foi que Paulson deveria permanecer em Washington para preparar a conferência Diálogo Econômico Estratégico entre Estados Unidos e China, que acontece está semana. Mas, várias fontes em Berlim disseram que o verdadeiro motivo foi que os alemães tratariam de ajustar os controles sobre os chamados “fundos de salvaguarda” (manejados à margem das bolsas de comércio) e outros constituídos com fins especulativos. Em lugar de Paulson foi indicado o subsecretário do Tesouro, Robert Kimmit.

O ministro da Economia e Finanças da Alemanha, Petr Steinbrueck, expressou em março preocupação diante da possibilidade de os fundos de salvaguarda, que contam com enormes capitais, influam em decisões políticas ou causem instabilidade financeira. A cúpula de chefes de Estado e de governo das oito nações mais poderosas (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão, Rússia) acontecerá de 6 a 8 de junho na cidade de Heiligendamm, no mar Báltico. Também participarão representantes de Brasil, China, Índia, México e África do Sul.

Um dos assuntos-chave introduzidos pelo governo alemão na agenda oficial é “melhorar a estabilidade sistêmica e a transparência dos mercados financeiros”. O ministro do Trabalho da Alemanha, Franz Muentefering, comparou os fundos de salvaguarda e outros de caráter especulativo com as economias frágeis e os empreendimentos que prometem lucro em curto prazo. O governo norte-americano considera que os fundos financeiros são um instrumento necessário para canalizar o investimento privado em nível internacional.

Os mecanismos para reverter o aquecimento global é outro assunto que distancia os governos da Alemanha e dos Estados Unidos. Representantes desse país rejeitaram várias passagens de um rascunho elaborado pelos alemães. Os norte-americanos querem evitar pronunciar-se sobre o objetivo proposto de reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa m 50% até 2050. Também se negam a um compromisso com reduções do consumo de energia. Além disso, são contra a utilização da palavra “preocupação” para descrever as últimas avaliações do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climiatica (IPCC), da Organização das Nações Unidas. De fato, Washington conseguiu temperar as conclusões e advertências originais desses informes.

Porém, cientistas do IPCC deixaram bem claro que as emissões de gases causadores do efeito estufa pela atividade humana – especialmente pela queima de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás – são responsáveis pelo aquecimento do planeta que provoca a mudança climática e fenômenos como secas, derretimentos de glaciais do Pólo Norte e montanhosos, elevação do nível do mar, furacões e danos à biodiversidade.

O diretor do Instituto Alemão de Pesquisas sobre o Impacto Climático de Potsdam, Hans-Joachim Schellnhuber, disse à IPS que “o resultado ótimo da cúpula do G-8 seria que o rascunho original, tal qual como foi formulado pelo governo alemão, fosse aprovado por unanimidade”. Schellnhuber destacou que nos objetivos estabelecidos no rascunho original figura a redução do consumo de energia em 30% até 2030 e a criação de um mercado de direitos de emissões de dióxido de carbono, “que canalizaria investimentos para estratégias e políticas ambientais”.

O terceiro elemento importante é o compromisso de longo prazo para restringir a elevação da temperatura mundial em dois graus até 2050, em relação à registrada no início da Revolução Industrial, na segunda metade do século XVIII. “Se os governos do G-8 não chegarem a um acordo sobre essas acusações, a cúpula poderá ser considerada um fracasso”, afirmou Schellnhuber. Muitas organizações ambientalistas concordam. “Os países mais industrializados têm de pensar em redigir uma declaração final da cúpula sem levar em conta a opinião do governo dos Estados Unidos”, disse à IPS Karsten Smid, do Greenpeace Alemanha. “Não tem sentido aceitar compromissos em torno de um denominador comum. Essa retórica vazia das cúpulas já não ajuda ninguém”, ressaltou Smid.

Antje von Broock, da federação ambientalista alemã BUND, pediu urgência a Berlim para “empreender somente uma política ambiciosa contra o aquecimento do planeta. Se o governo alemão anunciasse uma redução unilateral de suas emissões de gases causadores do efeito estufa em 40% até 2020, estaria enviado um claro sinal às outras nações industrializadas e em desenvolvimento”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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