Madri, 09/05/2007 – Os problemas da integração energética latino-americana e as reclamações das companhias espanholas que defendem seus interesses na região foram abordados no Fórum Perspectivas Energéticas para a América Latina, realizada ontem em Madri. Organizado pela Confederação Espanhola de Diretores e Executivos, o fórum teve como convidado de honra o presidente da Corporação Andina de Fomento (Caf, braço financeiro da Comunidade Andina de Nações), o boliviano Enrique García, e representantes das empresas espanholas Iberdrola, Repsol-YPF e Gás Natural, todas com fortes investimentos na América Latina.
“A América Latina vive um momento econômico muito bom, que permite adotar medidas que aprofundem o desenvolvimento das microempresas e da sociedade, o que deve redundar também em beneficio para os setores sociais mais desfavorecidos”, disse García à IPS ao termino do encontro. Deve-se enfatizar a integração regional, “Mas esta deve superar a fase comercial, potencializar os fatores estruturais e concretizar ações, pois se fala muito e há declarações muito atraentes, mas que exigem ser concretizadas”, afirmou.
Para superar a fase comercial, “a integração energética é um fator-chave, pois envolveria todos os países, cada um com suas características especiais, mas beneficiando a todos”, afirmou. Alberto Núñez, diretor estratégico da Gás Natural, disse que as reservas de gás da América Latina diminuírem, “uma baixa muito notável no México e na Argentina”, por falta de investimento. Além disso, os fluxos energéticos entre os países dessa região são escassos, acrescentou.
Para que esses fluxos aumentem, não apenas entre as nações da região, mas com o resto do mundo, deve-se caminhar para o respeito dos preços do mercado internacional e não tanto os dos acordos bilaterais entre países, afirmou. Em sua exposição, García destacou que o grande desenvolvimento econômico de China e Índia tem um efeito positivo na América Latina. Deve-se tomar seguir o exemplo da China, “que não precisa de investimentos, pois tem excedentes, bem como os recebe e reclama porque estes são um fator estratégico catalítico”, disse.
Esse exemplo deve servir para que a América Latina “se conscientize de que se quer crescer deve considerar que os investimentos estrangeiros são um elemento catalítico fundamental”. A respeito das medidas de nacionalização e controle de preços adotados por governos como o da Bolívia, deve-se levar em conta que o gás é um negócio de longo prazo pelos investimentos que requer, disse Pedro Azagra, diretor de desenvolvimento corporativo do grupo Iberdrola, dedicado à geração elétrica e exploração e distribuição de gás. Toda empresa trabalha para recuperar seus investimentos e obter lucro, “que não têm motivo para serem abusivos e nem negados”, acrescentou.
García destacou que a América Latina não deve se contentar com um crescimento do produto interno bruto de 5% ao ano. A Espanha é um grande exemplo pelo que conseguiram as pequenas e medias empresas, “que não só impulsionaram o desenvolvimento econômico como, também, são benéficas para a democracia”, disse. Para esse desenvolvimento foi fundamental a integração. A União Européia de hoje é o resultado do acordo da Comunidade Econômica do Carvão e do Aço, assinado entre outros paises por França e Alemanha em 1951, depois da Segunda Guerra Mundial na qual estiveram em lados opostos, lembrou García.
Desse acordo se caminhou para a Comunidade Econômica Européia, com a incorporação de outros países, e, posteriormente, para a União Européia, formada hoje por 27 membros. Grande parte do desenvolvimento econômico e social da Espanha se deveu ao apoio econômico e financeiro recebido primeiro da CEE e depois da UE. Agora, na América Latina o debate é como conciliar as ações dos países mais avançados com os que de menor desenvolvimento, e nisso “o exemplo da Espanha vale. Essa integração deve ser concretizada nos próximos dois anos, em especial no Mercosul com sua ampliação como união sul-americana”, disse García à IPS.
O Mercosul é formado por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela, este último em processo de adesão ao regime alfandegário comum. À União de Nações Sul-americanas também pertencem Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Guiana e Suriname. É imperioso modernizar o contexto institucional ainda débil, “exceto no Chile, que o faz muito bem”, para aprofundar os mercados locais, disse García. Não se deve esquecer que um terço dos habitantes da região subsiste com média de US$ 2 por dia.
O empresário Núñez conclui sua intervenção dizendo que “a América Latina energética deve se globalizar”, tanto aproximando seus preços e demais aspectos comerciais ao mercado mundial quanto ampliando seu mercado global. Na região está se acelerando a demanda de energia devido ao crescimento da economia e à melhoria da renda dos cidadãos, “em especial no Brasil”, mas a oferta está diminuindo. Para que melhore é necessário maior investimento, afirmou.
O empresário reclamou mais transparência do setor energético no Brasil, solução de problemas com a Bolívia; no México, autorizar tarifas que permitam recuperar o investimento e na Colômbia eliminar obstáculos aos investimentos. No trecho final de perguntas e respostas, um dos participantes sugeriu a convocação de outro encontro com participação de representantes da sociedade civil e dos governos, pois “este, salvo as intervenções de García, apenas registrou a das grandes empresas”. (IPS/Envolverde)

