México, 16/05/2007 – “Fui embora porque estava insuportável, esses narcotraficantes nos ameaçavam e agora não sei se voltarei. Não quero que me matem”, diz com angustia um camponês do Estado de Michoacán que desde novembro está na capital mexicana. “Não escreva meu nome, por favor, vai que esses canijos (desgraçados) me encontrem aqui. São maus”, disse à IPS. Este camponês originário do sudeste do país é um, talvez entre centenas já, dos que tiveram de abandonar suas casas e terras por causa da crescente violência atribuída ao narcotráfico. Trata-se de um fenômeno que apenas estaria se manifestando.
A guerra entre militares, policiais e narcotraficantes no México deixou desde janeiro um saldo histórico de mais de mil mortos. Também meia centena de denúncias contra uniformizados por violações dos direitos humanos, com detenções arbitrárias e golpes injustificados. Se os militares não estão preparados para lutar contra o narcotráfico e ao mesmo tempo respeitar os direitos humanos, é melhor que voltem para os quartéis, disse nesta terça-feira o presidente da estatal, e não independente, Comissão Nacional dos Direitos Humanos, José Luis Soberanes. O funcionário disse que recebeu 52 queixas contra uniformizados encarregados do combate ao tráfico de drogas.
Uma delas diz respeito a um caso de suposta violação sexual contra uma jovem de 17 anos, e várias por detenções arbitrárias. Não existem dados sobre esses refugiados, mas, segundo alguns observadores, já seriam centenas. Além disso, o fenômeno pode ser confundido com os processos de abandono do campo rumo à cidade ou com a constante emigração para os Estados Unidos. “Não duvido de que há muitos refugiados por causa da violência do narcotráfico. Mas que não se use como mais um argumento para justificar a militarização do país e a cadeia de violações que isto traz”, disse à IPS o diretor da não-governamental Comissão Mexicana de Defesa e Promoção de Direitos Humanos, Fabián Sánchez.
“O governo usará qualquer argumento para dizer que esta militarização é válida e que é o que as pessoas querem e precisam, quando, na realidade, ocorre é que há zonas de ocupação militar onde os direitos humanos deixaram de existir, pois são feitas detenções sem ordem judicial”, denunciou Sánchez. As máfias responderam com uma agressividade incomum a ordem do presidente Felipe Calderón para que fossem enviados milhares de soldados a diversos Estados com o propósito de recuperar territórios arrebatados pelo narcotráfico e deter a violência.
O conservador Calderón apelou para as Forças Armadas, um mês depois de assumir a presidência do México em dezembro, com base no que estabelece a Constituição para problemas graves de segurança interna e na resolução da Suprema Corte de Justiça de março de 1996, quando estabeleceu jurisprudência ao indicar que os militares podiam atuar em apoio à policia. No contexto da guerra do narcotráfico, um grupo armado executou na segunda-feira, na capital do México, José Nemesio, responsável pelo Centro Nacional de Planejamento, Análise e Informação para o Combate da Criminalidade. Trata-se de um dos mais altos comandantes da polícia assassinado desde que Calderón chegou ao governo.
Nemesio era um especialista em trabalho de inteligência e não estava vinculado a ações operacionais. Seu caso se soma ao de dezenas de policiais e membros das Forças Armadas que foram executados por criminosos. “O narcotráfico desafiou o Estado em níveis intoleráveis, assim, a única resposta possível era usar uma força equivalente ao seu poder de ataque, que são as Forças Armadas”, afirmou à IPS Guillermo Garduño, especialista em segurança e Forças Armadas da Universidade Autônoma do México.
Garduño assegura que há muitos refugiados por causa das ameaças do narcotráfico e se queixa de que isso não aparece na imprensa. O fenômeno indica que há territórios arrebatados ao Estado, o que requer uma intervenção decidida do governo, justificou.
O camponês entrevistado pela IPS, que não quis se identificar, desde criança viveu em Michoacán, onde 143 pessoas morreram neste ano em ações ligadas ao narcotráfico. Agora, junto com sua mulher, e depois de vender sua terra (menos de 15 hectares) trabalha na capital e pede que não se revele em que nem onde. “Andavam por ai, no campo, todos armados, muitos jovens, mas bem agressivos. Nos diziam que com a plantação de maconha faríamos bom dinheiro, mas que, se não concordássemos deveríamos agüentar as conseqüências. Assim, foi melhor sairmos”, disse.
Calderón afirmou que se trava uma guerra contra o narcotráfico que será “longa e dolorosa”, e convoca a unidade nacional para enfrentá-la. Mas opositores, organizações humanitárias e especialistas respondem que não pode haver unidade nacional diante de uma estratégia que consideram equivocada, pois, a seu ver, não dá ênfase a trabalhos de inteligência e abusa das Forças Armadas, quando é a policia que deve estar no comando. Denise Dresser, especialista em política e acadêmica do Instituto Tecnológico Autônomo do México, acredita que alguns dirigentes políticos que criticam a estratégia de Calderón buscam apenas tirar proveito e golpear o governo.
Espera-se que a luta contra o narcotráfico não se transforme também em uma batalha política. Entretanto, Sánchez disse que a sociedade e os políticos “não podem cruzar os braços quando o governo sozinho aposta na força e usa os militares”. O problema “é que nada está sendo feito para melhorar a institucionalidade das policias, para limpá-las para que sejam elas a lutarem contra o narcotráfico, para fazer reformas em matéria de justiça e melhorar a situação social de milhões de pessoas”, acrescentou o diretor da Comissão Mexicana de Defesa e Promoção de Direitos Humanos.
O governo de Calderón afirma que trabalha em todas essas frentes, mas, argumenta em sua defesa que muitas tomarão mais tempo. Enquanto entende que não se pode renunciar ao controle de territórios nem ceder espaços e nem negociar com as máfias. Com esse argumento, criou por decreto no último dia 9 um novo grupo de segurança. Trata-se do Corpo de Forças de Apoio Federal, integrado por 3.500 militares de elite que serão treinados para “lidar com situações críticas de perturbação ou alteração da paz social e da segurança pública”, diz o decreto.
Os narcotraficantes mexicanos, que atuam m coordenação com seus colegas colombianos e de outros países produtores de drogas, são responsáveis pelo transporte de grande parte dos estupefacientes consumidos nos Estados Unidos, principal mercado mundial. Os observadores vêem na violência mexicana dos últimos anos o reflexo de uma guerra interna pelo controle das rotas de acesso aos Estados Unidos, mas, também pelos mercados locais, cada vez com maior demanda. “Com sua estratégia equivocada, Calderón está comprometendo e arriscando a sociedade, que agora deve se preocupar não só dos narcotraficantes, mas também dos militares que podem deter qualquer pessoa sem nenhuma ordem e violar seus direitos”, advertiu o diretor da Comissão Mexicana de Defesa e Promoção de Direitos Humanos. (IPS/Envolverde)

