Clima: Tailândia está perdendo suas praias

Khun Samutchine, Tailândia, 07/05/2007 – O barulho das ondas incomoda o principal abade do templo budista de Khun Samutchine, uma aldeia de pescadores no golfo da Tailândia. É uma constante recordação do perigo que representa o mar que ameaça invadir o templo Wat Khun Samuttrawachine, construído em 1967. “Este templo sempre está sob ameaça do mar. Na época das monções é ainda pior”, explicou Phra Somnuk Atipabny com voz tranqüila. A paisagem inóspita desde a entrada do deteriorado templo confirma seus temores.

Filas de postes telefônicos e de eletricidade emergem das águas e desaparecem na distância ao longo da costa, como testemunhas de que alguma vez existiu ali um caminho que atravessou esta aldeia. O mar começou a dragá-la há mais de duas décadas. Para além dos postes de concreto, há outras relíquias de uma comunidade que outrora ocupou esse terreno plano. Entre elas, o tanque de água que abastecia uma escola primária com 300 crianças. Ali, agora as lanchas percorrem a área em busca de plâncton para prepara o “kapi”, popular pasta de camarões tradicional na Tailândia.

Nesta aldeia que fica ao sul de Bangcoc, a uma hora de automóvel desde a capital, o templo se converteu na última linha de defesa da guerra ambiental na qual o mar vem ganhando metro a metro. As casas de madeira dos pescadores, antes erguidas em cada lado do templo e em meio a escassos mangues, desapareceram. Pescadores como Prawit Inouam, de 37 anos, agora vivem mais de um quilômetro terra adentro. “Estamos vendo desaparecer nossa aldeia e nossa comunidade”, disse Prawit, que teve de se mudar em três ocasiões, cada vez mais distante do mar, para fugir da erosão. A primeira vez foi quando tinha 3 anos de idade. “Devemos proteger a área do impacto da erosão marinha”, disse.

O mesmo pensam as 105 famílias que continuam desafiando o mar e vivendo em khun Samutchine. Há duas décadas, a comunidade tinha cerca de 200 casas. Frear a perda de terras construindo uma barreira de pilares de concreto como quebra-ondas e uma muralha é uma perspectiva desanimadora. Também o é a esperança de pescadores como Suwan Buaphai, de restabelecer os mangues de proteção que antes cresciam por todo lado. “A erosão nesta área é a mais acelerada da Tailândia”, disse Tara Buakamsri, da filial do Greenpeace para o sudeste da Ásia. “São entre 25 e 30 metros por ano”, contou.

A luta contra o mar concentra a atenção da nova reunião do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC) da Organização das Nações Unidas, que começou em Bangcoc no dia 30 de abril e termina hoje. Os especialistas examinaram a difícil situação que atravessam as comunidades costeiras baixas de todo o mundo, que correm o risco de serem submersas. Os 2.666 quilômetros de costa da Tailândia, no golfo de mesmo nome a leste e no mar de Andaman a oeste, tem 30 “pontos quentes”, disse Thanawat Jarupongsakul, professor do Departamento de Geologia da Universidade Chulalongkorn,de Bangcoc.

“Vinte e dois desses pontos ficam no golfo da Tailândia. Khun Samutchine é a área mais atingida”, afirmou o especialista. “Quase 600 quilômetros da costa da Tailândia, cerca de 21%, se perderam pelo avanço do mar. A mudança climática é uma razão, pois gerou ondas mais intensas e mares mais agitados no período de monções”, disse o professor à IPS. Na monção nordeste, que começa em novembro e acaba em fevereiro, a altura média das ondas era no passado entre um e 1,5 metro. Mas agora aumentou para dois a quatro metros”, afirmou.

As áreas mais afetadas pela erosão perdem 25 metros de terra a cada ano, segundo um estudo divulgado no ano passado por uma equipe de especialistas tailandeses, entre os quais Thanawat. A maioria destas faixas litorâneas fica ao longo da metade superior do golfo da Tailândia, perto da província de Samut Prakan, onde fica Khun Samutchine. O Departamento Meteorológico deste país do sudeste asiático divulgou na terça-feira um alerta às comunidades da costa do golfo, confirmando os padrões climáticos cada vez mais erráticos. Uma ativa área de baixa pressão ganhou força no golfo para desatar a tempestade mais forte em quatro décadas, disse o chefe do Departamento, Supareuk Tansiratanawong, ao jornal The Nation.

A luta desta aldeia para subsistir se agravou por outros fatores, como o corte dos densos mangues que protegiam a costa, com a finalidade de criar espaço para o cultivo de camarões, e à falta de areia que fluía do rio Chão Phraya para a costa devido às grandes represas construídas corrente acima, disse Thanawat. “As represas reduziram os sedimentos em 70%”, ressaltou.

Entretanto, os ambientalista acreditam que medidas amigáveis com o meio ambiente podem proteger está aldeia. Essas medidas são criadas para enfrentar as tempestades que surgem durante a monção, e incluem um sistema de drenagem e bombeamento para “administrar a faixa da terra para estabilizar a margem do mar”. O templo Wat Khun Samuttrawatchine está na primeira linha deste desafio. “Queremos que o templo permaneça aqui”, afirmou Phra Somnuk. (IPS/Envolverde)

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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