Beirute, 09/05/2007 – Enquanto se reinicia a reconstrução do distrito de Dahiyeh, na capital do Líbano, também se reorganiza a resistência contra o governo nacional, apoiado pelos Estados Unidos, e contra Israel, graças a um crescente apoio popular ao partido xiita pró-sírio Hezbolá (Partido de Deus). Dahiyeh foi bombardeado por Israel no ano passado por ser considerado um reduto do Hezbolá, organização considerada terrorista pelos Estados Unidos e pela União Européia. Pelo menos 15 mil casas ficaram destruídas pelos ataques. Muitos moradores acusam o governo libanês, apoiado por Washington, de se negar a colaborar na reconstrução em áreas favoráveis ao Hezbolá, como Dahiyeh.
Doadores estrangeiros prometeram mais de US$ 7 bilhões em ajuda e empréstimos, em uma reunião realizada em Paris em janeiro para reconstruir está nação de quatro milhos de habitantes. Os três maiores contribuintes foram Arábia Saudita, Estados Unidos e França, que a oposição considera partidários do primeiro-ministro, Fouad Siniora, e seus aliados Saad Harriri e o líder druso Walid Jumblatt. O ex-ministro da Informação Michel Samaha (1992-1995 e 2003-2004) disse à IPS que Siniora, Harriri e Jumblatt tentam se fortalecer “incorporando em sua agenda as prioridades dos Estados Unidos no Líbano, dos sionistas nos Estados Unidos e, em especial, dos neoconservadores no Oriente Médio”.
O descontentamento por estas políticas é obvio em todas as zonas xiitas. “Pedimos ajuda ao governo”, disse à IPS Mahmoud al-Khateib, de 45 anos, morador em Dahiyeh dono de uma loja de consertos eletrônicos atingida por uma bomba. “Vieram, inspecionaram os danos e prometeram que nos informariam sobre os próximos passos. Continuamos esperando”, contou. Muita gente afirma que o dinheiro para a reconstrução está indo para o outro lado. “Aos governantes só importa por dinheiro m seus bolsos. Não se preocupam com a gente. Veja está destruição, não estão fazendo nada pela gente”, disse à IPS Ali Mohammed, estudante de 18 anos.
Vários quarteirões onde havia prédios de apartamento de uns 10 andares foram destruídos durante o bombardeio. Só restam crateras. O Hezbolá, liderado por Sayed Hassan Nasrallah, liderou os esforços de reconstrução dos subúrbios através de sua organização não-governamental Jihad al-Binaa, que conta com importantes fundos e 1.500 engenheiros. Esta ONG, criada em 1988 durante a guerra civil libanesa (1975-1990), assumiu o papel de municipalidade para a comunidade xiita, diante da ausência de um governo efetivo.
Outras organizações administradas pelo Hezbolá fornecem serviços públicos, como cuidados médicos e educação. O Hezbolá diz qu a Jihad al-Binaa é financiada com doações religiosas caritativas como a zakat, o sistema de doações xiita pelo qual os fieis doam uma porcentagem dos seus ganhos. O partido xiita começou a atuar logo que acabou o bombardeio israelense, em agosto de 2006, entregando US$ 12 mil a cada família que havia perdido sua casa. Funcionários leais ao primeiro-ministro Siniora acusaram a organização de ser “um Estado dentro do Estado”.
Seus dirigentes responderam através do canal Al-Manar TV, propriedade do partido, denunciando “a ausência do Estado”. Duas semanas depois de decretado o cessar-fogo, o Hezbolá disse que os urbanistas do governo “ainda não tinham planos de contingência para a reconstrução do sul nem de Dahiyeh”, e que a situação continua a mesma desde então. Os moradores concordam, e cada vez mais apóiam o Hezbolá. Os israelenses tinham esperanças de que os ataques dizimassem o apoio a essa organização.
“O bombardeio acabou há oito meses e ainda não veio ninguém do governo nem mesmo inspecionar os danos em minha casa”, disse à IPS Jihad Brahim, membro do exército libanês, próximo a uma pilha de escombros sob um edifício parcialmente destruído. “Veja estes escombros. Gastariam 15 minutos para um trator os retirar, mas, continuam ali”, disse. “Todas as pessoas do meu prédio contam com apoio do Hezbolá e participam da reconstrução. Agora, é uma organização mais forte, e todos a respeitamos muito. Rezo para que Nasrallah viva muito tempo”, acrescentou Brahim.
“O governo não nos dá nada, enquanto o Hezbolá faz um grande trabalho”, disse à IPS Hussein Shara’a, eletricista de 22 anos. “Tem muito a ser feito, mas podemos viver com dificuldades porque o importante é que vencemos a guerra”, disse Brahim. O subúrbio tem uma infinidade de cartazes em verde e amarelo da Jihad al-Binaa, nos quais se lê: “Sigamos em frente. Juntos resistimos. Juntos reconstruímos”. Mahmoud Rahman dirige um táxi há 30 anos, e conseguiu comprar um apartamento com suas economias, mas ele foi quase todo destruído pelo bombardeio.
“Nunca tive problemas com os Estados Unidos, mas por culpa de seu apoio a Israel minha vida ficou destruída. Todos meus filhos odeiam esse país. Se essa é sua democracia, melhor não tê-la”, disse à IPS. Al-Fadl Shalaq, ex-presidente do Conselho para a Reconstrução e o Desenvolvimento, órgão criado pelo ex-ministro Rafki al-Hariri, assassinado em fevereiro de 2005, disse que os danos sofridos pelo Líbano durante o último ataque israelense superou os da guerra civil, entre grupos cristãos e muçulmanos extremistas. (IPS/Envolverde)

