Berlim, 23/05/2007 – Nova evidencia científica confirma que a humanidade é responsável por acelerar a evolução e adaptação de espécies ameaçadas a novos ambientes. Atividades humanas como a busca de alimentos em grande escala e as emissões de gases causadores do efeito estufa dizimam a biodiversidade do planeta. A maioria dos cientistas atribui a atual fase de aquecimento global à emissão desses gases, como o dióxido de carbono, metano e óxido nitroso, em processos industriais e de transporte onde são queimados combustíveis fósseis como petróleo, gás e carvão. As conclusões às quais chegaram os cientistas foram objeto de comentários ontem, 22 de maio, Dia Internacional para a Diversidade Biológica.
Em duas décadas, o bacalhau adaptou seu comportamento sexual devido à causa da pesca, disse o biólogo austríaco Ulf Dieckmann, pesquisador do Instituto Internacional de Análises de Sistemas Aplicados (Ilasa), dos arredores de Viena. Antes, o bacalhau chegava à maturidade sexual aos 10 anos e somente quando média um metro ou mais. Agora, por causa da pesca em massa, o faz aos seis anos e com apenas 65 centímetros, explicou Dieckmann à IPS. “Algumas espécies de peixe têm a capacidade de se adaptar a novas condições de vida em um curto período de tempo. Como a pesca em grande escala aponta para os exemplares mais velhos e maiores, a sobrevivência da espécie depende dos jovens”, disse o cientista, especialista em comportamento do bacalhau.
“A pesca industrial dizimou a espécie, por isso no mar há mais alimento para menos peixes. Por isso os exemplares jovens crescem mais rapidamente a alcançam antes a maturidade sexual”, afirmou o Dieckmann. “Em termos simples, se um peixe espera muito para acasalar, pode ser muito tarde porque foi levado por uma rede ou porque se adiantou a competição jovem”, acrescentou. O biólogo David Reznick, da Universidade da Califórnia, concorda com seu colega austríaco. Reznick observou um processo evolutivo similar entre os guppy, um pequeno peixe de água doce, muito comum nos aquários. Se o guppy mais velho for separado de seu grupo, os mais jovens ocupam seu lugar sexual, explicou.
Como esse peixe cresce mais rápido do que o bacalhau, o processo de evolução ocorre em cinco anos, enquanto a adaptação deste último às novas condições de vida em sua própria população pode demorar cerca de 40 anos. A capacidade de adaptação das espécies é um elemento básico nas teorias da evolução. Quando não há alterações importantes como catástrofes climáticas, a evolução é um processo lento. Mas as mudanças causadas pelo homem no clima e no meio ambiente aceleram o processo de adaptação.
“Nenhuma espécie pode sobreviver se não é capaz de adaptar-se”, disse à IPS o biólogo Matthias Glaubrecht, professor da Universidade Humboldt, de Berlim. “O fator decisivo é constituído pela dimensão e velocidade da mudança de ambiente das espécies”, acrescentou o especialista, que também é diretor de pesquisa do Museu de História Natural da capital alemã. É possível que as espécies tenham a capacidade de adaptarem-se à mudanças muito rápidas de entorno. “Mas, em muitos casos é evidente que a ação humana é o acelerador da evolução”, ressaltou Glaubrecht.
Porém, nem todas as espécies podem adaptar-se a mudanças bruscas. Esse é o caso do galo negro que costuma viver em vastas régios da Europa central, especialmente em zonas pantanosas. Mas, devido à desnutrição de seu habitat pela exploração industrial, agora só é encontrado em algumas regiões do norte da Alemanha. Considera-se o galo negro um perdedor na batalha evolutiva no contexto ecológico criado pela ação humana, enquanto outra ave, a água de cauda branca, é considerada uma vitoriosa.
“Há até 15 anos, acreditávamos que essa água só poderia sobreviver nos amplos e tranqüilos bosques de árvores altas e velhas da Europa centra”, disse à IPS Rainer Kollmann, biólogo da Universidade de Kiel, 250 quilômetros a noroeste de Berlim. “Mas, tivemos de mudar de hipótese porque descobrimos que a águia de cauda branca pode adaptar-se de forma rápida a novos ambientes no norte da Alemanha, Polônia ainda na região escandinava”, ressaltou.
Kollmann disse que essa águia pode adaptar-se a certos habitat que, à primeira vista, pareceriam menos adequados. “Se a ave encontra alimento em meios às cidades, então pode escolher esse lugar para reproduzir”, acrescentou. Esse fenômeno incomum foi observado em várias cidades do norte da Alemanha e, inclusive, em autopistas, disse o biólogo. Também foram observadas mudanças evolutivas nas aves de grandes cidades, como novos cantos e atividade sexual precoce, em comparação com espécies similares da floresta. Entretanto, essas mudanças são a parte benigna da acelerada evolução propiciada pela humanidade.
Segundo o Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC), que funciona na órbita da Organização das Nações Unidas, o aquecimento global já dizimou a biodiversidade da Terra. Os especialistas que compõem o grupo atribuem a esse fenômeno o desaparecimento de 150 espécies por dia. “A mudança climática pode afetar a expansão florestal e a migração e aumentar o risco sobre a biodiversidade por causa da pressão populacional e da mudança da cobertura e do uso da terra na maior parte da Ásia. Os ecossistemas marinhos e costeiros desse continente também podem ser afetados pela elevação do nível do mar e pelo aumento da temperatura”, segundo o informe do IPCC divulgado em abril.
A insegurança alimentar e a falta de normas de sustento podem aprofundar-se pela perda de terras cultivadas e de criadouros de peixes devido à inundação e erosão costeira nas partes baixas da região tropical da Ásia. Situações semelhantes de destruição de habitat de numerosas espécies serão observadas em importantes zonas ricas do mundo, como a do rio Amazonas e na África central, acrescenta o informe. (IPS/Envolverde)

