Washington, 28/05/2007 – Dois relatórios preparados pela elite da inteligência dos Estados Unidos e entregue a altos funcionários de Washington dois meses antes da invasão do Iraque alertavam para os problemas que converteriam essa guerra no pior desastre da política externa desse país desde a época do Vietnã. As análises do Conselho Nacional de Inteligência (NIC), divulgados na sexta-feira pelo Comitê de Inteligência do Senado, advertiam que a invasão, concretizada em março de 2003, e a posterior ocupação beneficiariam a rede extremista internacional Al Qaeda e expandiriam o islamismo político em toda a região do Oriente Médio. “Os setores internos (do Iraque) poderão se envolver em um violento conflito, a menos que a força ocupante os impeça”, diziam os documentos.
Além disso, o NIC previu o surgimento de uma insurgência composta por ex-membros do então governante Partido Baas, “que poderiam aliar-se com organizações terroristas ou agir de modo independente em uma guerra de guerrilhas contra o novo governo ou as forças da coalizão” invasora. “Lamentavelmente, a negativa do governo em ouvir estas advertências e, pior ainda, de utilizá-las, levou às trágicas conseqüências pelas quais nossa nação paga um preço terrível”, disse o presidente do Comitê do Senado, Jay Rockefeller, ao apresentar os dois relatórios, reunidos em um documento de 226 paginas.
Os textos tratam dos desafios do pós-guerra iraquiano e das conseqüências regionais da mudança de regime nesse país. Foram encomendados pelo Escritório de Planejamento Político do Departamento de Estado, dirigida por um dos principais assessores do então chanceler Colin Powell, Richard Haas, que renunciou ao cargo poços meses depois da invasão. Ex-funcionários do Departamento de Estado e da Agência Central de Inteligência (CIA) se queixavam na poça de que suas avaliações e recomendações foram ignoradas na preparação da guerra pela hegemonia que exerciam sobre a Casa Branca o vice-presidente, Dick Cheney, e o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, promotores entusiastas da invasão.
O relatório inclui uma lista com os nomes e cargos das pessoas às quais foram dirigidos os dois estudos que, entretanto, assumiram alguns cenários otimistas, como o de que o Iraque manteria sua integridade territorial e que o governo colocado pelos Estados Unidos conseguiria devolver por completo o controle do poder aos iraquianos no prazo de cinco anos, acompanhados por uma retirada progressiva das tropas estrangeiras nesse mesmo prazo. O documento sobre o pós-guerra expressava sérias dúvidas a respeito de uma democracia rapidamente enraizada na sociedade iraquiana.
“A construção da democracia no Iraque será um processo longo, difícil e turbulento, com potencial para regressar à tradição autoritária”, afirmava o texto, acrescentando que a oposição no exílio ao então ditador Saddam Hussein (1975-2003) carecia “de capacidade popular, política ou militar para ter um papel depois da partida de Saddam sem um significativo apoio econômico, político e militar externo”. Devido à necessidade de manter uma “autoridade firme e central” para evitar que a população se voltasse a líderes “tradicionais, regionais, tribais ou religiosos” em busca de guia, o informe recomendava manter funcionando o exército iraquiano, uma vez purgados seus altos comandos. Mas, o Departamento de Defesa decidiu pela quase imediata dissolução do exército iraquiano tão logo começou a ocupação.
O texto previa que a mudança de regime permitiria que o “Islã político lançasse raízes no Iraque do pós-guerra, sobretudo se a recuperação econômica for lenta e as tropas estrangeiras permanecerem por muito tempo”. Além disso, a Al Qaeda “provavelmente tentará explorar a transição repetindo suas táticas usadas no Afeganistão no ano passado (2002) para organizar operações contra o pessoal norte-americano”, dizia o relatório. No plano regional, a Al Qaeda e outros grupos similares também poderiam se beneficiar, previa a inteligência norte-americana. Está organização “tentaria aproveitar a atenção dos Estados Unidos no pós-guerra iraquiano para restabelecer sua presença no Afeganistão”, dizia o texto.
O estudo também colocava em dúvida as afirmações dos neoconservadores de que uma vitória norte-americana no Iraque persuadiria outros Estados da região a abandonar seus programas de armas de destruição em massa. Pelo contrário, a invasão levaria alguns países a “acelerar seus planos na esperança de desenvolver capacidade (bélica) dissuasória antes que seus programas fossem destruídos preventivamente”. Ainda segundo o informe, “quanto mais as forças norte-americanas permanecerem no Iraque, mais Teerã se convencerá de que os Estados Unidos querem cercar o Irã e de que pode ser alvo de operações militares”.
A Síria, por sua vez, manteria sua cooperação com Washington para combater a Al Qaeda, mas, também iria cooperar com o Irã para “influir nos acontecimentos dentro do Iraque e para manter Israel fora do Líbano, como uma recordação a Washington de que não abandona seus objetivos regionais, especialmente a devolução das Colinas de Golan”, ocupadas pelos israelenses, conclui o relatório. (IPS/Envolverde)

