Cooperação: As ONGs como atalho ou como obstáculo

Glasgow, Escócia, 28/05/2007 – Os governos e outros doadores do Norte rico começarem a financiar a sociedade civil do Sul pobre diretamente, sem canalizar o dinheiro através de organizações não-governamentais, pode se converter em um atalho mais freqüente. A Noruega, um dos principais doadores de ajuda ao desenvolvimento, considera seriamente concretizar essa mudança. Jan-Petter Holtedahl, do Departamento de Sociedade Civil da Agência Noruguesa de Cooperação para o Desenvolvimento, disse na sétima Assembléia Mundial da Civicus, em Glasgow (Escócia), que estuda praticar o “apoio direto”.

Vários estudos desse departamento indicam que grandes quantias destinadas à assistência são canalizadas através de ONGs do Norte. A economia de dinheiro, e talvez de tempo, que suporia uma mudança ficaria evidente imediatamente. Importantes agências como Oxfam e ActionAid habitualmente consideram necessário gastar 15% dos fundos arrecadados para sua própria manutenção, entre outras coisas para arrecadar mais dinheiro e destiná-lo às causas que defendem. Evitar as ONGs do Norte reduz esse custo, mas, também pode eliminar as possibilidades de arrecadação de fundos.

O mundo da coleta de dinheiro é muito complexo para saber se os doadores darão esse dinheiro sem uma intermediação do Norte, ou se a sociedade civil do Sul poderá encontrar os meios necessários para convencer os doadores diretamente. Além disso, outras mudanças nas modalidades de assistência são evidentes. “Queremos maior coordenação, com fundações multidoadoras, que potencializam a cooperação e a colaboração, embora esses fundos reflitam uma fração do apoio total a um determinado país. São, também, um mecanismo para compartilhar riscos. O ruim é que freqüentemente resulta muito lento”, disse Hotedahl.

Entretanto, a criação de fundações multidoadoras aumenta as possibilidades de organizações da sociedade civil do Sul poderem aproximar-se delas diretamente, pulando as equações que as organizações não-governamentais do Norte formam, os governos e instituições multilaterais com a Organização das Nações Unidas e o Banco Mundial.

“A inclusão implica ter todos à mesa onde se toma as decisões, e não somente em Londres ou Washington criando um projeto sobre alguém que está na África”, afirmou Abiola Tilley-Gyado, diretora de Desenvolvimento Internacional do Plano Internacional, uma agência de promoção da infância. “Alguem que faça viagem de um mês ao Zimbábue se torna especialista em África que decide quais fundos deverão ir para onde. Precisamos averiguar quais são os problemas das pessoas através delas próprias”, explicou. “Não queremos que alguém fale de escassez alimentar e que chame o Programa Mundial de Alimentos para enviar trigo para pessoas que não sabem como comer trigo”, acrescentou a ativista.

Mas, ainda persiste a pergunta sobre quem deveria dar os primeiros passos no Norte rico: se as ONGs ou os doadores. No mundo da sociedade civil a resposta a está pergunta é chaves. “Boa parte da assistência financeira do governo de um país doador se dirige às organizações não-governamentais desse país”, disse à IPS Aruna Rao, presidente da Civicus. “Na Noruega, o enorme orçamento oficial dirigido a ONGs de desenvolvimento é destinado a organizações não-governamentais norueguesas, que trabalham em países do Sul ou financiam ONGs do Sul”, explicou. “Seria útil criar novos mecanismos para que as ONGs internacionais, regionais e do Sul tenham acesso ao financiamento desses governos”, disse Rao.

Porém, Sylvia Borren, diretora da Oxfam-Novib na Holanda, disse que pode ser muito cedo para isso, porque – segundo ela – são as ONGs do Norte que arrecada o dinheiro. “Gostaria que no futuro os países do Sul tivessem uma elite e uma classe média que desenvolvessem uma apropriada arrecadação de fundos para causas sociais em seus próprios países. Embora alguma coisa desse tipo esteja ocorrendo, mais por parte dos magnatas do que da classe média, ainda não chega à arrecadação que conseguimos na Holanda, por exemplo”, acrescentou. Borren. “O que me preocupa é os governos do Norte serem capazes de controlar a sociedade civil do Sul mais do que podem controlar as suas próprias”, alertou a ativista.

“Às vezes, isto despolitiza os movimentos sociais e as próprias organizações não-governamentais. Assim, parte da coordenação multifundos significa que as ONGs do Sul estão mais acostumadas a fornecer serviços do que a estrutura ativista ou a outras tarefas desse tipo”, afirmou Borren. “Me preocupa que nós, como sociedade civil, sejamos postos, globalmente, uns contra os outros, como habitantes do Norte e do Sul. Vemos algumas organizações não-governamentais do Sul tomarem fundos da União Européia deste modo, e ficar pelo caminho porque a responsabilidade é árdua, complicada e terrível. E acabaram sendo subcontratadas da UE, em lutar de ser uma sociedade civil boa, forte, autônoma e critica”, acrescentou.

Agora existe uma tendência à integração, como ocorre com os fundos multidoadores, disse Borren. “Penso que isso tem uma boa parte, porque o sócio não deve ter 17 informes diferentes para escrever. O ruim pode ser que algumas das ONGs menores da sociedade civil fiquem de fora, porque são as organizações não-governamentais maiores e estabelecidas as que podem enfrentar esse tipo de financiamento”, destacou a ativista. (IPS/Envolverde)

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

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