Grã-Bretanha: Diga-me com quem andas…

Londres, 14/05/2007 – A máxima de que as pessoas podem ser julgadas pela companhia que escolhem também se aplica aos líderes. É ai que o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, que deixará o cargo no próximo mês, apresenta sua principal falha: estar em estreita aproximação com o presidente norte-americano, George W. Bush. “Creio que ele perdeu por sua associação com Bush”, disse à IPS o analista Julian Le Grand, da Escola de Economia de Londres. “Não acredito que muitas pessoas aqui digam que tenha ganho com isso. Penso que esse será um dos fatores que em última instância derivará em uma queda de sua reputação”, acrescentou. “O problema no Iraque foi um grande fator, e a isso se soma seu vínculo com Bush como algo que não o ajudou a ganhar apreço dentro do país ou dentro do Partido Trabalhista”, ressaltou Le Grand.

Rodnye Barker, também da Escola de Economia, concorda com seu colega. A intervenção no Iraque foi seu maior erro, mas “não se vai por isso, mas por ser um homem que esteve no cargo por 10 anos e um homem cuja reputação foi arruinada por sua política externa (sua proximidade com Bush). Tudo isto significa que seu tempo terminou”, disse Baker à IPS. É tentador ler entre linhas e suspeitar que Blair de fato é consciente disso. Em um discurso na quinta-feira em seu distrito eleitoral da cidade de Sedgefield, onde anunciou que deixará o cargo no dia 27 de junho, Blair se esforçou para não citar o nome de Bush quando se referia aos Estados Unidos.

Os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington foram “completamente imprevistos e dramáticos, e eu decidi que estaríamos lado a lado com nosso mais antigo aliado. O fiz por convicção. Primeiro no Afeganistão e, em seguida, no Iraque. O último caso foi muito controvertido”, afirmou o primeiro-ministro. Mais adiante em seu discurso, Blair esteve muito perto de reconhecer seu erro. “Tirar Saddam e seus filhos do poder, bem como o (movimento islâmico afegão) Talibã, foi algo feito com relativa facilidade. Mas o efeito bumerangue gerado desde então, por parte do terrorismo mundial, se tornou feroz, implacável e muito custoso”, admitiu.

“Creio que devemos ver mais além. Os terroristas, que nos ameaçam aqui e no resto do mundo, nunca se renderão se nós nos rendermos. É uma prova para nossa vontade e convicções. E não podemos falhar’, acrescentou o primeiro-ministro. O termo-chave usado por Blair foi “efeito bumerangue”, pois sugere uma drástica mudança de sua postura mantida em público durante anos de que as ações terroristas – incluindo os atentados com bomba em Londres no dia 7 de julho, há dois anos – não tinham relação com a invasão e ocupação do Iraque. Blair manteve firmemente esta posição diante das crescentes evidências de que a invasão provocara mais atos de terrorismo, em lugar de reduzi-los.

O primeiro-ministro falou da necessidade de uma forte ação contra o terrorismo, mas depois de admitir que este pode ter aumentado por causa do “efeito bumerangue” da invasão do Iraque. E, talvez, tenha se se apressado ao minimizar a situação no Afeganistão em comparação com a do Iraque. O Talibã se fortaleceu nos últimos anos, e as operações britânicas no sul do território Afeganistão para contê-lo causaram consideráveis baixas civis. Se estas operações provocarão, ou não, mais atos terroristas só se saberá depois que Blair ter deixado o cargo. Em tudo isto, o primeiro-ministro não é visto como alguém que age sozinho, mas ligado às decisões de Bush.

Quando o presidente norte-americano e suas tropas se meteram em problemas, Blair se limitou a acompanhá-lo. Os maiores erros do mandatário britânico são os que tomou emprestado de Bush. E, para um líder, seguir o erro de outro pode ser pior do que cometer o seu próprio. A crise no Iraque empanou o êxito de Blair na Grã-Bretanha, que se converteu no país mais próspero da Europa. Grande parte desse sucesso foi alcançado nos 10 anos de sua administração. “O país é próspero, a inflação está baixa, a economia é forte”, afirmou Barker.

Além disso, Blair conseguiu um avanço na Irlanda do Norte, que agora tem um governo compartilhado após vários anos de paz. Esse território britânico em solo da Irlanda, dividido entre protestantes leais a Londres e republicanos católicos que desejam unir-se a Dublin, parecia um problema impossível de ser resolvido. No final das contas, o primeiro-ministro não foi pressionado a renunciar por seus erros, nem elogiado por seus êxitos, seu problema foi que, depois de 10 anos, o público se cansou.

“Existe um elemento de aborrecimento. Não apenas no partido, mas em todo o país. Isso aconteceu com Margaret Thatcher, que também esteve muitos anos no poder (1979-1990). Sem importar os sucessos, o público sente que é momento de outro assumir. O fator aborrecimento chegou sub-repticiamente”, afirmou Le Grand. “Qualquer povo se aborrece quando um líder fica longo tempo no cargo. E, paradoxalmente, se esse líder tem um governo bom e eficiente, rapidamente as pessoas esquecem as razões pelas quais votarem nele em primeiro lugar, que era o governo ineficiente de seu antecessor. A memória não dura muito em política”, disse, por sua vez, Barker. (IPS/Envolverde)

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

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