Cidadania: O apartheid econômico mundial

Johannesburgo, 15/05/2007 – A sétima assembléia internacional da Aliança Mundial para a Participação Cidadã (Civicus) acontecerá entre os dias 23 e 27 próximos em Glasgow, na Escócia, novamente sob o lema “Atuar juntos por um mundo justo”. A Civicus, com sede em Johannesburgo, África do Sul, realizou no ano passado sua assembléia também em Glasgow, que também será a sede em 2008. A IPS conversou com Kumi Naidoo, secretário-geral da Aliança.

IPS: A que se deve a decisão de manter o lema da conferência, que é o mesmo do ano passado e também será o de 2008?

Naiddo: Neste momento, o mundo está se fragmentando, em lugar de se unir. Surgem novas brechas. Se fortalecem as divisões Norte-Sul e as regionais, e, infelizmente, também os conflitos internos. Assim, o lema “Atuar juntos por um mundo justo” é relevante e eterno.

IPS: Quantas organizações o senhor espera ver representadas na Escócia? Serão as mesmas que participaram da última assembléia?

Naidoo: Penso que retornarão, pelo menos, 50%. Mas, não necessariamente uma organização presente no ano passado será representada pela mesma pessoa. É bom que isso corra. Do nosso ponto de vista tampouco é ruim ter pessoas diferentes, para que possamos construir relações mais amplas. Esperamos que participem, mais ou menos, a mesma quantidade de pessoas do ano passado, que chegaram a cerca de 600 representantes de 110 países.

IPS: A assembléia acontecerá antes da cúpula do Grupo dos Oito países mais poderosos, na Alemanha, em junho. O senhor espera que a conferência emita uma mensagem dirigida aos líderes do G-8? E, nesse caso, sobre quais temas?

Naidoo: Cancelamento da dívida, melhorias na qualidade e na quantidade da assistência, justiça comercial, igualdade de gênero, luta contra a corrupção e governabilidade. Há apenas dois anos, na própria Escócia, em Gleneagles, os líderes do G-8 assumiram todo tipo de belos compromissos. Cancelaram a dívida de 14 países africanos e de quatro latino-americanos. Queríamos que 56 nações se beneficiassem desse acordo.

O G-8 estendeu as negociações comerciais. Seus países se concentraram sem seus próprios interesses egoístas. Os agricultores europeus, por exemplo, comercializam frango de maneira desleal em Gana. Os agricultores ganeses são prejudicados em seu próprio mercado nacional, onde os europeus vendem seus frangos por quase nada. Vivemos em um mundo de apartheid econômico global. Este é o tipo de mensagem que enviaremos ao G-8.

IPS: Quais são os assuntos principais programados para a assembléia?

Naidoo: Como na última, nos concentraremos em ativistas da sociedade civil que estão na prisão. Escolhemos 20 com base na diversidade regional. Queremos que se saiba que isto ocorre em todo o mundo. Como fizemos em 2006, abriremos a assembléia mundial reclamando pela situação dos colegas etíopes Daniel Bekele e Netsanet Demissie, que estão há mais de 18 meses na prisão.

Temos feito campanha por sua libertação. Nos reunimos com o primeiro-ministro da Etiópia, Meles Zenawi, há apenas um ano para suplicar-lhe por eles. Estávamos otimistas. Acreditávamos, por algumas coisas que Zenawi nos havia dito, que Bekele e Demissie teriam um julgamento rápido.

IPS: Afirma-se que a guerra contra o terrorismo debilitou a sociedade civil. Quais efeitos o senhor notou a este respeito?

Naidoo: A guerra contra o terrorismo tem um impacto devastado sobre a democracia em geral, e sobre o espaço da sociedade civil, em particular. Através de suas ações, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha enviaram uma mensagem segundo a qual se um país percebe uma ameaça à sua segurança, pode deter legalmente pessoas sem submetê-las a julgamento, e, inclusive, recorrer à tortura. (IPS/Envolverde)

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Moyiga Nduru

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