Paquistão: Musharraf não apaga as chamas em Carachi

Carachi, Paquistão, 15/05/2007 – O presidente paquistanês, Pervez Musharraf, “deveria se desculpar perante a nação pelo ocorrido em Carachi”, disse o ancião Yusufali, de 81 anos, furioso pela violência étnica que deixou 45 mortos e mais de 150 feridos no final de semana. “Ninguém acredita no discurso (de Musharraf) de que chora sangue. Se estivesse tão condoído, teria suspendido uma manifestação oficialista realizada em sua homenagem em Islamabad e retornado a Carachi imediatamente para se inteirar do que aconteceu”, acrescentou. Estes sentimentos refletem a opinião de muitos paquistaneses.

“A insensível paralisia das autoridades diante da estendida violência pode ser explicada como incompetência ou cumplicidade. Em qualquer caso, este é um dia negro para as liberdades civis e políticas no Paquistão”, disse Ali Dayan Hassan, pesquisador da Human Rights Watch para a Ásia meridional. “Parecia que não havia governo, nem administração, nem existência social. Carachi parecia ser apenas um pedaço de terra onde se aplicava a lei da selva”, resumiu Syed Talat Hussain, chefe de notícias do canal privado Aaj TV. “Isto é apenas uma prévia do que está por vir. Apenas começou”, disse à IPS.

Hussain responsabilizou pelo ocorrido o Movimento Muttahida Qaumi (MQM), o partido político que governa a província de Sindh, cuja capital é Carachi. “Parece que os incidentes de Carachi criaram uma situação que coloca o MQM contra todos os demais partidos políticos. Um partido fascista como esse pode ser letal contra si mesmo, mas, quando está apoiado por Islamabad, é duplamente perigoso”, afirmou.

O MQM conta com o apoio dos mohajirs, colonos de dialto urdú que fugiram para Carachi desde o norte da Índia depois da independência da Grã-Bretanha em 1947. Há uma longa história de violentos conflitos entre os colonos e os pashtún, (patanes), leais ao Partido Nacional Awami. O MQM se opõe ao Partido Popular do Paquistão, liderado por Benazir Bhutto, atualmente no exílio. Como Bhutto, o líder do MQM, Altaf Hussein, está radicado na Grã-Bretanha.

Muitos viram na violência do final de semana uma lembrança dos sangrentos feudos étnicos que surgiram em Carachi em 1986 e fizeram a cidade arder por quase uma década. O último foco de violência foi algo em grande parte inesperado. Carachai entrou em chamas quando o suspenso chefe de justiça do Paquistão, Iftikhar Mohammad Chaudhry, chegou à cidade para participar de uma conferência de advogados na Alta Corte de Sindh. Observadores já haviam alertado para problemas quando o MQM, aliado de Musharraf desde 2002, decidiu realizar uma marcha no mesmo dia. Nenhuma parte cedeu e a violência explodiu.

A suspensão de Chaudhry como chefe de justiça por Musharraf, no dia 9 de março, foi seguida por protestos pacíficos de organizações da sociedade civil e de juristas. Mas, em meio à turbulência política do ano eleitoral, o caso de Chaudhry se converteu em bandeira de um movimento contra o regime militar de Musharraf. No último dia 5, Chaudhry discursou para uma multidão em Lahore, capital da província de Punjab. Mas em Carachi, não pôde deixar o aeroporto, pois todos os caminhos que levam à Alta Corte de Sindh haviam sido fechados na noite anterior.

Negando-se a aceitar a oferta do governo de ser levado ao tribunal de helicóptero, tomou um avião de regresso para Islamabad, deixando Carachi em meio a uma sangrenta luta nas ruas entre seus partidários e os de Mjusharraf. O presidente publicamente acusou Chaudrhy e a oposição de terem organizado reuniões em Carachi enquanto o MQM realizava sua marcha. O canal Aaj TV ficou em fogo cruzado quando explodiu a violência.

“Estávamos mostrando imagens ao vivo da batalha e da multidão furiosa quando começaram a nos atacar”, contou Hussain. A direção da emissora chamou a policia quando o edifício foi atingido por disparos e vários carros em seu estacionamento foram incendiados. “Mas, apesar de repetidamente afirmarem que viriam, os primeiros policiais chegaram apenas seis horas mais tarde”, acrescentou. Toda a nação testemunhou impotente o que ocorria nas ruas de Carachi, enquanto canais privados de televisão mostravam imagens de pessoas se escondendo debaixo de carros e feridos pedindo ajuda. Um dos canais mostrou um homem agonizando enquanto as ambulâncias não conseguiam chegar até ele.

Hordas de jovens portando armas sofisticadas invadiram as ruas apesar das advertências do governo reproduzidas pelas emissoras de televisão: “Não deixaremos que ninguém faça justiça pelas próprias mãos”. Muitos viram nestes fatos uma repetição da violência da década de 80, quando o então ditador Zia-ul-Haq usou o MQM para permanecer no poder. Agora, Musharraf é acusado de usar métodos semelhantes. (IPS/Envolverde)

Zofeen Ebrahim

Zofeen Ebrahim is a Karachi-based journalist who has been working independently since 2001, contributing to English dailies, including Dawn and The News, and current affairs monthly magazines, including Herald and Newsline, as well as the online paper Dawn.com. In between, Zofeen consults for various NGOs and INGOs. Prior to working as a freelance journalist, Zofeen worked for Pakistan’s widely circulated English daily, Dawn, as a feature writer. In all, Zofeen’s journalism career spans over 24 years and she has been commended nationwide and internationally for her work.

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