Grupo dos Oito: O tabu dos subsídios agrícolas

Berlim, 01/06/2007 – A ajuda para a África lidera a agenda da cúpula do Grupo dos Oito países mais poderosos do mundo, que acontecerá de 6 a 8 de junho na cidade alemã de Heiligendamm, no mar Báltico. Porém, se evitará introduzir os subsídios agrícolas no debate. A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, assegurou em reiteradas oportunidades que os países do G-8 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia) cumprirão seu compromisso de duplicar a ajuda ao desenvolvimento da África até 2010.

Merkel e outros funcionários alemães insistem em que o investimento do G-8 na África deve aumentar para melhorar as oportunidades econômicas que o continente oferece ao setor privado. O mesmo dizem numerosos ativistas, desde a estrela do rock Bob Geldof a diretores de importantes organizações de fomento ao desenvolvimento. Mas poucos mencionam a que, talvez, seja a questão-chave para o desenvolvimento da África: a necessidade de uma redução dos subsídios e tarifas alfandegárias com que a maioria dos países do G-8 cercam seus mercados para proteger seus agricultores.

Numerosos estudos alertem que essas barreiras contribuíram em grande parte nas últimas décadas para prejudicar o desenvolvimento africano e de outras regiões pobres do planeta. Não se trata de um assunto desconhecido para políticos e analistas radicados nos países do G-8. Já em 2005, o Informe de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) tinha como título “Cooperação Internacional na encruzilhada: Assistência, comércio e segurança em um mundo desigual”.

“O problema básico que devem ser atendidos pelas negociações agrícolas da Organização Mundial do Comércio podem ser resumidas em quatro palavras: subsídios dos países ricos”, dizia o informe. “Na última rodada de negociações comerciais multilaterais (lançadas em Doha, no Qatar, em 2001), os países ricos prometeram cortar os subsídios agrícolas”, mas segundo destacava o documento, esses subsídios cresceram constantemente. As nações mais ricas gastaram em 2005 US$ 1 bilhão em assistência à agricultura nos países pobres, enquanto destinavam a mesma quantia, mas a cada dia, para várias formas de subsídios à produção agrícola interna.

“É difícil imaginar uma ordem de prioridades menos adequada”, dizia o informe do Pnud. A situação não mudou muito desde então. A esta “ordem de prioridades” representada pelas barreiras comerciais da União Européia, dos Estados Unidos, do Canadá e Japão à produção agrícola de países pobres da África, Ásia e América Latina somam-se alguns elementos da ajuda ao desenvolvimento e de emergência a essas mesmas regiões. Nesse sentido, cabe destacar a ajuda financeira norte-americana ao Programa Mundial de Alimentos (PMA).

Washington é o principal doador desta agência da Organização das Nações Unidas, com US$ 1,2 bilhão por ano. Mas a ajuda está condicionada: com esse dinheiro deve ser comprado alimento produzido nos eu, por isso constitui um subsidio oculto aos agricultores norte-americanos e uma barreira insuperável para os produtores do Sul pobre, inclusive em períodos de emergência.

“A boa prática em casos de emergência é fornecer apoio em dinheiro ao PMA, para que possa comprar cereais a um preço adequado”, disse Alice Wynn Wilson, da organização não-governamental ActionAid. “Enviar grandes volumes de alimento para uma região onde há áreas com superávit pode conduzir a uma situação de escassez em algumas zonas de um determinado país e comida produzida localmente apodrecendo em outras”, disse Wilson.

Os países europeus também exportam para a África, e a preços de dumping, seus grandes superávits agrícolas, apoiados pelo Estado. Os mercados africanos são inundados por produtos comercializados mais barato do que os locais, o que condena os agricultores dessas nações. Os países da União Européia exportaram 1.150 toneladas de leiete em pó para Burkina Faso em 2005. “Isso condenou à ruína os produtores lácteos locais e levou o país por uma via rápida à violência política”, disse à IPS Wilhelm Thees, colaborador da organização católica alemã Misereor. “Se os produtores de desse país pudessem vender seu leite, viveriam de seu próprio trabalho e o país desfrutaria de paz e estabilidade política”, acrescentou.

Por toda a África ouve-se queixas semelhantes. No Senegal, uma democracia bastante sólida em um continente repleto de ditadores corruptos e guerras brutais, os produtores de tomate e outros alimentos sofreram por mais de uma década as conseqüências de relações comerciais injustas com o mundo rico. O mercado senegalês está saturado de produtos baratos e subsidiados do Norte rico: tomate da Itália, cebola da Holanda, arroz do Japão, algodão dos Estados Unidos e frango de toda a Europa.

Por outro lado, os senegaleses pagam o custo dos programas de ajuste internacional ditado por instituições financeiras multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Até 1984, os países mais pobres do mundo, a maioria deles na África subsaariana, desfrutou de um superávit comercial agrícola com o resto do mundo. Mas desde então, o fluxo mudou de direção: o déficit é crescente e constante e chegou a US$ 6 bilhões em 2005.

Nesse ano, segundo o Informe sobre Desenvolvimento Humano, a África subsaariana, com 689 milhões de habitantes, representa uma proporção menor das exportações mundiais do que a Bélgica, com 10 milhões. Se está região desfrutasse hoje da mesma porção das exportações mundiais que em 1980, seu ganho equivaleria a oito vezes a ajuda que recebeu em2003. (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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