JOHANNESBURGO, 05/06/2007 – A escassez de professionais, técnicos e trabalhadores está a paralizar os sistemas sanitários de Lesotho, Malauí, Moçambique e África do Sul, e ameaça a vida de milhões de pessoas, particularmente nas zonas rurais, avisou Médicos Sem Fronteiras (MSF). Esta organização não governamental mundial, sedeada em Paris, disse que a África do Sul é o único país da África Austral que atinjiu o objetivo da Organização Mundial para a Saúde (OMS) de uma adecuada proporção de trabalhadores de saúde por cada habitante.
O requisito mínimo da OMS é de 20 médicos, 100 enfermieras e 228 trabalhadores médicos por cada 100.000 pessoas. A África do Sul superou estas proporções: com 74 médicos, 393 enfermeiras e 468 trabalhadores.
Contudo, a África do Sul sempre sofre da falta do pessoal para administrar e proporcionar os serviços essenciais como os antirretrovirais, para prolongar a vida dos portadores de VIH. Num estudo apresentado em Johannesburgo este mês, titulado “A Escassez de trabalhadores sanitários limita o acceso ao tratamento para o VIH/sida na África Austral”, mostrou que Lesotho, Moçambique e Malauí estão numa situação desesperada.
“No Lesotho há apenas 89 médicos, e 80 porcento deles são estrangeiros”, disse a Pheelo Lethola, um médico de MSF no Lesotho, falando com jornalistas em Johannesburgo.
A escassez também toca as enfermeiras. “Há apenas 1.123 enfermeiras para cerca de 1,8 milhões pessoas. Só seis dos 171 centros de saúde no país têm o mínimo do pessoal requerido”, indicou a Lethola.
Malauí “tem apenas 10 porcento dos médicos e 40 porcento das enfermeiras recomendados pela OMS. Cerca de metade dos 165 médicos que trabalham no Malauí estão nos hospitais centrais, deixando uma escassez severa nas zonas rurais”.
“A falta de enfermeiras nas zonas rurais está a 60 porcento”, explicou a Verónica Chikafa, uma enfermeira malauiana, falando com a imprensa.
Por isso os trabalhadores medicais malauianos ficam sob muita pressão. “Por exemplo, uma enfermeira cuida de 100 pacientes. Um assistente médico deve ver 100 pacientes por dia. As vezes, os pacientes ficam a espera um dia inteiro antes de ver o médico”, disse a Chikafa.
Segundo MSF, a Moçambique está na mesma situação porque tem apenas 26 médicos, 20 enfermeiras e 34 trabalhadores sanitários por cada 100.000 pessoas.
“Cerca de metade dos 608 médicos ativos em Moçambique trabalham no capital, Maputo, resultando numa deficiência nos centros de saúde nas zonas rurais”, disse o David Nhantumbo, um técnico médico de MSF em Moçambique.
As outras subregiões africanas experimentam o mesmo problema. Ao celebrar o Dia Mundial da Saúde no ano passado, a OMS indicou que a África subsaariana é a região enfrentada pelos maiores desafios.
“Enquanto que tem 11 porcento da população mundial e 24 porcento da carga global de doênças, a região conta com apenas três porcento dos trabalhadores médicos no mundo”, indicou MSF.
“Geralmente, um de cada quatro médicos e uma de cada 20 enfermeiras formadas na África trabalha nos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económicos (OCDE)”, destacou a OMS.
“Alguns países foram mais tocados de que os outros. Por exemplo, 29 porcento dos médicos da Ghana trabalham fora, como é o caso com 34 porcento das enfermeiras zimbabueanas”, indicou a OMS.
A OMS disse que 57 países, a maioría dosqauis estão na África e na Asia, enfrentam uma crise severa com o seu pessoal sanitário.
“Ao menos 2,4 milhões dos trabalhadores médicos e 1,9 milhões de trabalhadores de apoio administrativo, ou um total de 4,25 milhões, são necessários para superar a deficiência. Sem a ação rápida, a escassez piorará”, acrescentou a OMS.
A maioria dos trabalhadores médicos da África Austral emigram a Canadá, Nova Zelândia, Grande Bretanha e os Estados Unidos. Por exemplo, os médicos e as enfermeiras de Lesotho saiem para emigrar a África do Sul e a Grande Bretanha para melhores salários e condições de trabalho, disse a Lethola. Cada dia sem ação alguém morre.No ano passado o governo sulafricano anunciou algumas medidas para deter a “caça” de professionais de saúde. Estas medidas foram criticadas pelos ativistas como a Mignonne Breier, a investigadora do Conselho de Investigações nas Ciências Humanas.
“Os planos políticos são particularmente dificeis a compreender quando se considera que a África do Sul tem menos de sete médicos por cada 10.000 habitantes, enquanto que a Grande Bretanha tem cerca de 21, os Estados Unidos 24 e os países europeios mais de 30”, escreveu Breier no sítio web do Conselho.
“Os nossos próprios médicos emigram em quantidades significativas (150 por ano) e, dos que ficam, mais de 60 porcento trabalham no sector privado, onde atendem a menos de 20 porcento da população”, enfatizou a Breier.
“Parece que a África do Sul pode superar a escassez rápidamente com um aumento nos graduados que saiem das suas escolas médicas. O seu objetivo é de dobrar a quanidade de graduados de 1.200 a 2.400 pelo ano 2014”, indicou ela.
O MSF na África do Sul acredita que a fuga de cerebros pode ser revertida. Por isso, deveria se tomar medidas como criar as perspectivas professionais boas para as enfermeiras através da promoção e a capacitação.

