Ambiente: Chile caminha de um conflito a outro

Santiago, 04/06/2007 – Em uma decisão histórica, a Suprema Corte de Justiça do Chile determinou que o Estado indenize 356 moradores da cidade de Arica, norte do país, contaminados com metais tóxicos. Enquanto isso, o Ministério Público investiga um vazamento de petróleo ocorrido há cerca de uma semana no sul. “Infelizmente, tudo isto indica uma coisa muito concreta: no Chile se fala muito sobre meio ambiente, mas não existe uma intenção real de solucionar os problemas. As leis ambientais são cumpridas apenas na aparência e por razões comerciais”, disse à IPS Fernando Dougnac, presidente da não-governamental Fiscalização do Meio Ambiente (Fima).

Na quinta-feira passada soube-se que a Suprema Corte sentenciou o Serviço de Saúde da cidade de Arica, mais de dois mil quilômetros ao norte de Santiago, a pagar oito milhões de pesos (US$ 16 mil) a cada um dos 356 moradores de duas localidades afetadas por resíduos tóxicos, pois esse órgão não prestou os serviços sanitários e ambientais necessários, explicou Dougnac. O jurista calcula que o Estado deverá desembolsar perto de US$ 3,4 bilhões de pesos (US$ 7 milhões).

Há oito anos, a Fima apresentou uma demanda de restauração ambiental e indenização por anos contra a Sociedade Processadora de Metais (Promel) e o governo chileno, representando quase mil habitantes de Cerro Chuño e de Los Industrialis, em Arica. Apenas um terço deles foram beneficiados pela sentença, disse Dougnac. As casas destas pessoas, foram construídas em 1995 junto a um “monte negro” formado por 20.091 toneladas de materiais tóxicos, como chumbo, arsênico, cádmio, mercúrio, zinco e cobre, resíduos abandonados pelo desaparecimento da Promel.

“Estes resíduos entraram em seus organismos através da ingestão e respiração provocando desmaios, vômitos, diarréias, tonturas, dor de cabeça, erupção na pele e problemas mentais, situação que produziu um desprezo moral que deve ser compensado através da indenização”, diz a sentença. Além disso, o máximo tribunal chileno estabeleceu que neste caso o Serviço de Saúde de Arica não cumpriu suas obrigações estabelecidas no Código Sanitário, a Lei Base do Meio Ambinte e o Convênio de Basiléia sobre o Controle dos Movimentos Transfronteiriços de Resíduos Perigosos e sua Eliminação, em vigor desde 1992.

Em 1984, a Promel importou da Suécia resíduos da companhia Boliden Metall AB, supostamente para tratá-los. Mas isto nunca foi feito. Dougnac assegura que se trata de um caso de tráfico ilegal de substâncias tóxicas. Silvia Encina, representante de Los Industriales no processo, disse à IPS que até o não-governamental Serviço de Paz e Justiça aproximar-se do lugar em 1997 para pegar amostras dos dejetos, os moradores ignoravam o perigo ao qual estavam expostos. “O monte negro estava em frente da minha casa, atravessando a rua. As crianças brincavam ali todos os dias”, recordou Encina, de 57 anos.

Em 1998, os resíduos foram retirados pelas autoridades e colocados em outra área muito próxima das casas, contou Encina. No local desocupado foram construídas dois pequenos campos de futebol. No ano seguinte, os moradores decidiram iniciar o processo. A primeira sentença determinou que a Promel deveria assumir o saneamento local, mas não conseguiu indenizações. Mais tarde, um tribunal de apelações estabeleceu que deveriam ser compensadas economicamente cerca de 170 pessoas. Finalmente, a Suprema Corte ampliou esse número para 356.

“Apesar de tudo que o caso tem de negativo, para nós é um triunfo. No final tivemos de recorrer ao caminho mais longo, tedioso e caro. Mais do que dinheiro, a sentença representa um desagravo à população, um reconhecimento de sua dignidade”, afirmou Dougnac”. A decisão judicial “marca um precedente. É uma coisa muito importante para que nunca mais volte a acontecer algo assim. Não queremos que o deserto chileno seja usado como lixão”, acrescentou Encina. Entretanto, a quantia destinada é insuficiente para reparar o ocorrido, já que para controlar a intoxicação por chumbo são necessários exames muito caros, vários deles não realizados no Chile, lembrou Encina.

Parte da população continua apresentando vômitos, náuseas e dores de cabeça. Algumas crianças também têm problemas de aprendizagem e conduta “Não sabemos se está relacionado, mas são registrados muitos abortos espontâneos. Há pouco tempo minha filha de 27 anos perdeu o bebê de dois meses e três semanas”, contou a mulher. Até agora, cinco mil pessoas fizeram exames de sangue. Desse total, 150 tinham entre 15 e 20 microgramas de chumbo por decilitro (mg/dl) de sangue e cinco apresentavam concentrações superiores a 30 mg/dl. A Organização Mundial da Saúde estabelece como limite máximo admissível 10 mg/dl.

Dougnac acredita que os moradores deveriam ser retirados da área. Os afetados atribuem entre 15 e 20 mortes à contaminação. “Só estão sendo tratados cerca de 400 crianças intoxicadas com chumbo, que receberam sulfato ferroso e tiveram duplicada a ração de leite”, disse Encina. “Exigimos que as autoridades nos façam exames para sabermos como estamos, mas só o que nos oferecem são exames de sangue. Mas depois de tanto tempo para medir o chumbo precisamos de exames mais específicos, de cabelo, dos ossos”, acrescentou. O Serviço de Saúde de Arica garantiu que acatará a sentença.

Por outro lado, no sul do país, o Ministério Público iniciou uma investigação para determinar se houve delito e responsabilidades por um vazamento de petróleo ocorrido dia 25 de maio passado na baía de San Vicente, na região do Bío-Bío. Nesse dia vazaram para o mar 350 metros cúbicos de petróleo quando o navio-tanque “New Constallation” realizava trabalho de descarga do óleo em um terminal da estatal Empresa Nacional do Petróleo.

O motivo foi a rachadura em uma tubulação submarina. Apesar de imediatamente ser ativado o plano de contingência para limpar a área e minimizar o dano à fauna e flora, o vazamento já causou a morte de um lobo marinho e de várias aves e havia se deslocado para outros setores do mar. A mancha poderia chegar à península de Tumbes e ameaçar uma colônia de pingüins que a habitam. Os pescadores artesanais dão por perdidos os mariscos e moluscos que retiram da área. (IPS/Envolverde)

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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