Buenos Aires, 04/06/2007 – Após a frustração deixada pelo modelo neoliberal, a América Latina oferece um leque de opções progressistas que os especialistas procuram classificar. Nesse debate, a categoria mais controvertida é o populismo. Para o filósofo argentino Ernesto Laclau, radicado em Londres, o populismo é uma forma de construção política legítima “desacreditada por um discurso direitista que rejeita a mobilização popular”. Para Laclau, “não é um conceito pejorativo e não deve ser comparado à demagogia”, esclareceu à IPS durante sua última visita à Argentina deste professor da Universidade de Essex e autor de “A razão populista”.
“O populismo não é bom nem ruim, é um processo que resulta de um conjunto de demandas sociais insatisfeitas, interpretadas por um líder que simboliza essas reclamações”, acrescentou Laclau. Neste sentido, pode adquirir formas direitistas como é o caso do presidente Álvaro Uribe, da Colômbia, que unificou demandas de ordem. Ou de esquerda, como ocorre na Venezuela com Hugo Chávez, ressaltou o filósofo argentino.
“Porém, não é um perigo para a democracia. O perigo para as democracias na região estão no neoliberalismo”, acrescentou Laclau. O debate em torno das novas formas políticas que surgem na região concentrou a atenção também de outros especialistas latino-americanos, que expuseram no seminário “Esquerda, populismo e democracia na Argentina e Ibero-américa”, organizado na capital argentina pelo Programa de História Política da Universidade de Buenos Aires.
O sociólogo argentino Marcos Novaro, professor da Universidade de Buenos Aires, considerou nesse âmbito que na região existem dois modelos de esquerda definidos. O de Chávez, que é populista, antiliberal, estatista e anti-Estados Unidos, e o mais moderado do modelo chileno encarnado hoje na presidente Michelle Bachelet. No meio se encontra o governo argentino de Néstor Kirchner, proveniente da ala centro-esquerda do Partido Justicialista (peronista), que se mostra eqüidistante destes dois modelos, embora “com traços populistas”, disse à IPS.
Novaro rejeita a desqualificação do populismo e atribui este desprezo a setores econômicos que questionam certo intervencionismo e desvios da ortodoxia neoliberal. Para este especialista, o populismo pode ser uma ferramenta apta para gerar consenso, incluir e organizar setores excluídos. Mas também alerta que “pode ter conseqüências negativas”, pois seus líderes desprezam as mediações institucionais e isso dá lugar a certa manipulação da vontade dos cidadãos.
Nesse encontro em Buenos Aires o especialista político Jorge Lanzaro, da estatal Universidade de la República, definiu o momento histórico como uma “terceira onda” de esquerda latino-americana com modelos que vão do populismo à social-democracia e um terceiro modelo progressista baseado em partidos de tradição nacional e popular. Esta nova tendência na região obriga a renovar a discussão teórica, reelaborar conceitos e propor uma nova tipologia, desafiou. “O novo ciclo da América Latina está marcado por um giro à esquerda que abre um leque de manifestações e se compõe, pela primeira vez na história, com uma série importante de governos que se situam entre as formas renovadas do populismo e a estréia da social-democracia crioula”, acrescentou.
O mal-estar pelo fiasco neoliberal foi capitalizado em alguns países pela esquerda que canalizou as demandas. É o caso do Uruguai, onde desde março de 2005 governa a coalizão Frente Ampla, composta por setores procedentes das mais variadas correntes desse pensamento, ou do Brasil, com Partido dos Trabalhadores, e do Chile, administrado por um acordo entre socialistas e democrata-cristãos. Mas nos países onde não havia uma tradição de partidos progressistas ou naqueles onde essas agrupações entraram em colapso ou ficaram ultrapassadas pela onda neoliberal, teve mais possibilidades de prosperar a liderança populista, disse Lanzaro.
Convidado pela Universidade Nacional de San Martín, que o nomeou diretor honorário de seu Centro de Estudos do Discurso e das Identidades Sócio-políticas, Laclau admitiu que “o populismo tem imprensa ruim” na região e atribuiu esse descrédito ao discurso direitista que teme a politização das demandas. Para este acadêmico, após a frustração causada pelo neoliberalismo, a mobilização social contribuiu para o surgimento de populismos de esquerda na Venezuela, Bolívia e no Equador, que representam uma ruptura com o estabelecido e que podem ser a base de uma nova inserção latino-americana no mundo.
“É difícil pensar em um populismo sem uma fase de personalização do poder, porque para liderar um processo de ruptura é preciso centralizar”, afirmou o filosofo diante das críticas por está tendência adquirida pelo modelo. “Naturalmente, se depois não há uma institucionalização o fenômeno se esgota”, ressaltou. Por outro lado, vê em Argentina, Brasil, Chile, Peru e Uruguai emergirem estruturas distintas.
Na Argentina, depois do colapso econômico e político de 2001, houve uma enorme expansão do protesto social que, apesar de conter uma forte rejeição em relação à classe política tradicional, se resolveu no contexto de partidos existentes, explicou Laclau. Para este filósofo, Kirchner, eleito no começo de 2003, encontrou a maneira de canalizar as demandas sociais. Mas as duas matrizes políticas fundamentais, o Partido Justicialista e a União Cívica Radical, “estão chegando ao seu fim e é preciso recompor o imaginário em torno de novas opções”, alertou.
Ao lado do populismo, que se baseia na mobilização contra setores tradicionais, Laclau observa “formas social-democratas desviadas” no Chile, Peru e Uruguai. O caso do Brasil ele deixa à parte. Embora o governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja “centrista”, evitou entrar na hoje paralisada Área de Livre Comércio das Américas defendida por Washington. Entre o populismo e estas formas de social-democracia estão hoje as opções dos governos latino-americanos diante do fim da hegemonia sem questionamento dos Estados Unidos, afirmou. “China e Índia são novas potências, a União Européia é outro fator, e neste cenário multipolar a América Latina deve integrar-se com base em governos acompanhados por uma forte mobilização popular como condição para qualquer avanço histórico”, destacou. (IPS/Envolverde)

