Belém, 26/06/2007 – “Me sinto como Prometeu”, afirma Lúcio Flávio Pinto, jornalista que mantém um exemplo radical de meio de comunicação alternativo em Belém, capital do Pará e principal porta de entrada para a Amazônia. Trinta e dois processos judiciais, ameaças de morte e agressões físicas são o resultado de suas denúncias no Jornal Pessoal, que publica quinzenalmente desde 1987. Seus principais alvos são a corrupção, as fraudes para conseguir terras e os abusos de poder do maior grupo local de mídia em um Estado conhecido pela quantidade de assassinatos de ativistas políticos e sociais.
Responder a 18 ações judiciais ainda pendentes ocupa “80% de meu tempo”, afirma Lúcio Flávio. Seus inimigos – afirma – procuram enredá-lo, obrigando-o a defender-se em muitos processos, o que aumenta o perigo de algum deslize formal na defesa. Além disso, lhe tiram tempo para escrever. Esse cerco judicial o impediu de deixar Belém para receber um prêmio nos Estados Unidos em 2005, pois temia perder prazos e audiências e arriscar-se a uma condenação. Esse tipo de prisão lhe lembra Prometeu, o herói da mitologia grega que roubou o fogo divino dos deuses para dá-lo aos seres humanos e, como castigo, foi acorrentado a uma rocha visitada por um abutre que devorava suas entranhas.
O Jornal Pessoal, produto de um esforço exclusivamente individual, tem a missão de divulgar fatos e assuntos omitidos pela grande imprensa devido a interesses econômicos ou políticos de seus proprietários. São apenas dois mil exemplares vendidos em bancas e para “dar ao cidadão a informação necessária para suas decisões e para lutar com os poderosos em condições de igualdade”. Sem publicidade ou outra fonte de renda além da venda direta aos leitores, Lúcio Flávio enfrenta dificuldades para cumprir solitariamente a missão que assumiu: ser “uma pedra no sapato” dos poderosos. Não aceita apoios financeiros porque a credibilidade é sua principal arma e exige total independência. Além de sua modesta casa, tem apenas um velho automóvel.
O Jornal Pessoal é “uma prisão, de ouro, mas uma prisão”. Para defender-se por conta própria, com uma pequena ajuda de amigos advogados, teve de estudar direito e se tornou especialista na Lei de Imprensa. Para descobrir fraudes empresariais aprendeu a analisar os balanços, as “minúcias” contábeis que lhe permitiram denunciar muitos negócios ilegais ou prejudiciais para a população. O jornalista escolheu esta vida espinhosa por falta de alternativas profissionais, em 41 anos de carreira iniciada aos 16 anos de idade, acumulou reconhecimentos, dois deles internacionais: a italiana Pomba de Ouro pela Paz, em 1997, e o prêmio à Liberdade de Imprensa concedido em 2005 pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas, com sede em Nova York. Além disso, escreveu 10 livros sobre a Amazônia.
Lúcio Flávio já havia se destacado como um grande conhecedor da Amazônia e escrito em dois importantes jornais quando publicou, em setembro de 1987, o primeiro número do Jornal Pessoal, inspirado em uma iniciativa semelhante do norte-americano Isidor Feinstein Stone, cujo I. F. Stone’s Weekly, publicado em Washington entre 1953 e 1971, teve grande repercussão. O Jornal Pessoal nasceu porque o jornal O Liberal, de Belém, se negou a publicar uma reportagem investigativa na qual Lúcio Flávio expunha vínculos de dois grandes empresários com o assassinato do ex-deputado Paulo Fonteles, advogado de camponeses envolvidos em conflitos de terras no Pará. Os donos do jornal temiam perder publicidade.
Muitos fatos e histórias locais são contados apenas com a limitada divulgação do Jornal Pessoal, por envolver pessoas ou empresas poderosas. Assim, por suas páginas desfilam desde escândalos financeiros e fraudes empresariais até a misteriosa morte de um membro da elite de Belém, ocorrida em 1991, e que, segundo o jornal, foi um assassinato ligado à lavagem de dinheiro do narcotráfico. Os jornais, que inicialmente mantiveram silêncio a respeito, meses depois aceitaram a versão do suicídio apresentada pela viúva, embora fosse “inverossímil”, lembra o jornalista. O disparo foi feito de uma distância de três metros, explica Lúcio Flávio. Depois, a Polícia Federal confiscou quase uma tonelada de cocaína perto de Belém, de pessoas ligadas à vítima. Este episódio causou “o momento mais triste da minha carreira”, acrescentou.
Após uma entrevista coletiva com policiais, Lúcio Flávio anunciou que teria uma conversa em “off” (em particular) com o delegado encarregado do caso. Outros repórteres quiseram participar, mas quando o jornalista exigiu em troca que publicassem o conteúdo da conversa em seus jornais “todos foram embora”. Lúcio Flávio sempre menciona este fato para deixar explícito o “domesticado” jornalismo atual, “um leão sem dentes”, “travado por interesses”. As novas gerações “não sabem identificar fatos”, preferem ser editorialistas ou apresentadores de noticiários, e muitos evitam divulgar informações para utilizá-las em consultorias, lamentou.
Suas críticas mais agudas se dirigem ao grupo Maiorana, que domina a comunicação no Pará, com um jornal, televisão e emissoras de rádio. Lúcio Flávio trabalhou em órgãos do grupo nos anos 80 e rompeu por discordâncias inconciliáveis. Sua batalha mais ampla, entretanto, é contra a “colonização” da Amazônia, vítima de decisões tomadas fora da região, que não se destinam ao bem-estar da população amazônica, mas a abastecer mercados externos. O Pará é o exemplo mais evidente. Suas grandes mineradoras de ferro, bauxita, manganês e outras matérias-primas, bem como a central hidrelétrica de Tucuruí, a segunda maior do Brasil e a quarta do mundo, são projetos estrangeiros, já que beneficiam principalmente outros mercados.
A energia de Tucuruí, vendida a preços subsidiados, reduz os custos da produção local de alumínio que abastece 15% do consumo do Japão, destacou o jornalista. Durante a década de 70, Lúcio Flávio acompanhou de perto o processo de substituição dos Estados Unidos pelo Japão como potência mais influente na Amazônia. Nesse período participou das mais extensas e premiadas reportagens sobre a região, vivendo em São Paulo (onde também se formou em sociologia) e depois de voltar a Belém, em 1974, como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, que deixou em 1989.
Lúcio Flávio Pinto é “um banco de dados vivo da História e das histórias da Amazônia”, um exemplo de “jornalista rigorosamente independente” e de “afirmação da cidadania levada ao extremo”, sintetiza Roberto Smeraldi, coordenador da organização ambientalista Amigos da Terra-Amazônia Brasileira. Seria muito útil “colocar seu conhecimento e experiência a serviço de iniciativas interessantes” para o desenvolvimento amazônico, mas ele escolheu como prioridade absoluta sua “luta pessoal” e jornalística, assumindo uma “solidão declarada”, acrescenta.
Seu talento poderia ter maior repercussão em aliança com movimentos ou instituições que lhe são afins, concorda Marcos Ximenes Ponte, diretor-executivo do não-governamental Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia e ex-reitor a Universidade Federal do Pará, onde Lúcio Flávio foi professor durante sete anos. (IPS/Envolverde)
(*) enviado especial

