Pena de morte-Irã: Apedrejamento suspenso por pressão da ONU

Nova York, 22/06/2007 – O apedrejamento público de uma mulher e um homem acusados de adultério previsto para ontem foi suspenso pelas autoridades do Irã após intensas pressões da Organização das Nações Unidas. A execução em uma praça da província de Qzvin foi suspensa talvez pela chuva de protestos em nível mundial e por uma intensa campanha pela Internet. “O direito internacional proíbe claramente o apedrejamento por ser um castigo cruel, desumano e degradante”, disse à IPS Farhan Haq, porta-voz da ONU.

Essa proibição figura no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos ratificado pela República Islâmica do Irã. Mas também “segundo o direito internacional, a pena de morte só pode ser aplicada aos crimes mais graves e existe o consenso de que esses são apenas aqueles que causam a morte de uma pessoa”, disse Haq. Ter um filho fora do casamento não entra nessa definição. Por outro lado, “é política da ONU promover a abolição da pena de morte em todo o mundo”, ressaltou.

O Conselho Municipal de Segurança de Qazvin havia anunciado que Mokarrameh Ebrahimi, de 43 anos, e o pai de seu filho de 11, que não foi identificado, seriam executados por apedrejamento, segundo informes da organização não-governamental Human Rights Watch. Ambos foram condenados à morte por um tribunal há 11 anos por terem um filho fora do casamento. “O governo iraniano vai matar uma mãe e um pai da forma mais brutal”, disse Joe Stork, subdiretor da divisão para o Oriente Médio da HRW, com sede em Nova York. A justiça deve agir de imediato para salvar a vida do casal e por fim a um castigo bárbaro como a morte por apedrejamento, insistiu. A organização se opõe à pena de morte em toda circunstância “por sua crueldade inerente”.

A organização de direitos humanos Anistia Internacional pediu urgência no ano passado ao governo do Irã para anular a sentença de apedrejamento contra nove mulheres condenadas à morte por adultério. “O apedrejamento em casos de adultério viola o compromisso desse país sob o artigo 6 (2) do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, pelo qual a pena máxima só deve ser aplicada para crimes mais graves”, alegou a Anistia, com sede em Londres. A HRW disse na quarta-feira que o aiatolá Mahmud Hashemi Shahrudi, presidente do Poder Judicial, ordenou em dezembro de 2002 a proibição do apedrejamento. “que continua sendo usado como forma de castigo e aplicado de maneira desproporcional às mulheres”, acrescenta o comunicado.

Para manter viva a proibição, organizações femininas e de direitos humanos lançaram a campanha “Stop Stoning Forever Campaign” (Acabar para sempre com o apedrejamento). “As execuções iminentes mostram que o governo não cumpre a proibição contra esse castigo nem age de acordo com suas obrigações internacionais”, ressaltou Stork. Além disso, diz que a justiça iraniana já não pode negar que incorre nessa prática. “As autoridades devem terminar rapidamente e de uma vez por todas com essa punição vergonhosa”, ressaltou.

Uma petição que circula por correio eletrônico e enviada aos legisladores iranianos diz que o simples ato de condenar pessoas à morte por apedrejamento é atualmente “um ato de brutalidade, desumano e inaceitável, que envergonha inclusive as autoridades que negam publicamente a existência dessa prática no Irã”. Apesar da negativa do governo, diz a petição, esse castigo faz parte do Código Penal Islâmico do Irã e é aplicado sem obstáculos legais.

A petição, que começou como uma parte da campanha “Stop Stoning Forever Campaign”, também diz que no ano passado foram apedrejados um homem, Abbas H., e uma mulher, Mahboubeh M., na cidade de Mashhad. Mas antes da execução, ambos foram tratados como se estivessem mortos. “Segundo a tradição islâmica, seus corpos foram lavados como se fossem cadáveres, envoltos em um pano branco e em seguida enterrados. Mahboubeh ficou coberto até os ombros e Abbas até a cintura”, diz a petição. Então, a multidão reunida, como prevê a lei, os apedrejou lentamente. Tudo aconteceu sem nenhuma menção ao fato na imprensa, diz o informe da campanha.

Atualmente, nove mulheres e dois homens esperam pela execução por apedrejamento. “Sua situação é grave. É possível que haja mais pessoas nas mesmas condições e não saibamos”, alerta a petição. A HRW também condenou na quarta-feira a aplicação da pena de morte a menores e disse que se sabe que o Irã executou pelo menos 17 desde o início de 2004, oito vezes mais do que qualquer outro país. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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