Política-Ásia: Indonésia e Turquia na passarela democrática

Bruxelas, 22/06/2007 – Na Europa e nos Estados Unidos existe uma tendência em associar o Islã com imigrantes regimes autocráticos no Oriente Médio e violência. Mas se esquecem da Ásia. Há muitos muçulmanos em países democráticos asiáticos onde os acontecimentos são menos espetaculares e não figuram nos jornais, mas têm a mesma importância. “A transição pacífica na Indonésia é fenomenal e realmente precisamos que esta experiência democrática funcione”, disse Anwar Ibrahim, ex-vice-primeiro-ministro da Malásia, figura-chave da oposição de seu país e líder do Partido por Justiça Popular.

Na terça-feira, Ibrahim falou em um encontro dentro dos seminários Asian Voices in Europe (Vozes Asiáticas na Europa), organizados pelo Centro Europeu de Política e pela Fundação Sasakawa para a Paz, com sede no Japão. Desde os atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington, e mais ainda depois dos cometidos em Madri, em 11 de março de 2004, e em Londres, no dia 7 de julho de 2005, cresceu o interesse dos europeus pela política no mundo islâmico.

Porém, o interesse não chegou a incluir a região do sudeste da Ásia, apesar de em Bangladesh, Índia, Indonésia e Paquistão viverem mais muçulmanos do que em qualquer outro país do Oriente Médio. Essa falta impede que as pessoas do Norte rico tenham uma visão mais equilibrada e compreensível de que as sociedades muçulmanas também são democráticas. A Indonésia, onde a maioria de seus 240 milhões de habitantes são muçulmanos, é um país digno de ser observado em uma região que parece afastar-se da abertura e dos processos democráticos.

“Na maioria das outras nações vemos a fragilidade das chamadas democracias”, disse Anwar. “Nas Filipinas prolifera a pobreza e a corrupção, isto é, ou seja, é extremamente instável. A Tailândia, onde houve um golpe de Estado em setembro de 2006, é um exemplo de como se pode atentar contra a democracia. Na Malásia não temos nem um só jornal, rádio, televisão ou rede independente”, acrescentou. “A democratização da região do sudeste da Ásia não é nada animadora. Nos resta o Vietnã, que está se abrindo um pouco, e a Indonésia, que emergiu em 1998 após uma ditadura de 30 anos”, ressaltou.

Mas mesmo na Indonésia a democracia não se sustentará se não forem enfrentados os desafios que implica a pobreza e a corrupção”, afirmou Anwar. “Os países necessitam de instituições mais fortes, eleições livres e justas, liberdade de imprensa e uma justiça independente. Precisamos de tudo isso. Não creio em democracias fracas que respeitem os valores asiáticos”, acrescentou. O ex-vice-primeiro-ministro argumentou que a comunidade internacional deve colaborar com as reformas da Indonésia, enquanto esse país, que sofreu a ditadura de Suharto até sua queda pelas revoltas populares de 1998, terá de mudar drasticamente.

“Democracia sem macroeconomia sã e sem que os governantes sejam responsáveis é a receita do desastre. É tão necessário que esse importante experimento tenha sucesso tanto quanto é para a Europa que a Turquia seja um país democrático”, explicou Anwar, libertado em 2004, após ser acusado de corrupção, e com seus defensores alegando que as acusações foram fabricadas pelo governo do ex-primeiro-ministro Mahathir Mohamad.

Nos últimos anos, o governo turco do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, do conservador Partido pela Justiça e o Desenvolvimento (AKP), demonstrou que as agrupações islâmicas podem governar sem prejudicar a democracia. Mas Erdogan deve abster-se de motivar uma intervenção das Forças Armadas laicas.

A jornalista paquistanesa Shada Islam, radicada em Bruxelas, concorda que muitas nações asiáticas observam a Indonésia e a Turquia. “A Turquia é uma experiência na qual nem esse país nem a Europa podem fracassar. A Turquia se converteu em um exemplo para a zona islâmica da Ásia”. Como enfrentar o extremismo islâmico? O que a Europa pode fazer? Anwar disse que não é um homem transigente. “Temos de ser duros com os terroristas. Não se deve ceder nos princípios básicos da democracia. Sempre recordo os quatros objetivos do Islã: liberdade de consciência, liberdade de expressão, o sagrado da vida e o respeito à propriedade, que fazem parte da sharia (lei islâmica)”, afirmou.

Entretanto, Anwar também alertou o Ocidente contra o discurso duplo. “Antes de tudo, Europa e Estados Unidos têm de ser consistentes. Se aplicarem as mesmas normas com todos os países e eles próprios também as acatarem, estou certo de que os muçulmanos não rechaçarão suas sugestões”, ressaltou. (IPS/Envolverde)

Peter Dhondt

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