EUA-Irã: Opção militar volta aos debates

Washington, 13/06/2007 – O pedido do senador norte-americano Joseph Lieberman, do Partido Democrata, para que o governo do presidente George W. Bush ataque o Irã parece ser o ponto culminante de uma campanha iniciada pelos que vêem a guerra como única opção para resolver o conflito com Teerã. Porém, a pregação “bombardeiem o Irã” está prejudicando o diálogo iniciado entre os dois países para colaborar com os esforços de estabilização do Iraque. Lieberman se mostrou mais “falcão” – a ala mais belicista do governo – do que o próprio Bush no domingo no programa jornalístico Face the Nation, quando pediu “uma agressiva ação militar contra os iranianos”.

O senador, ao retomar acusações praticamente abandonadas pelo governo Bush sobre a suposta cumplicidade iraniana na morte de soldados norte-americanos no Iraque, provocou uma tempestade na mídia. Subitamente, a opção militar contra o Irã voltou a ocupar o centro do debate. Na semana passada, o ministro de Comércio de Israel, Sahul Mofaz, um “falcão” que também foi ministro da Defesa, viajou a Washington para manter conversações sobre o programa nuclear iraniano. Segundo a imprensa, Mofaz insistiu para que o governo norte-americano fixasse o final deste ano com prazo limite para as negociações diplomáticas com Teerã. Vencido este prazo, a opção militar deveria ser colocada em prática.

“É preciso aplicar sanções suficientemente severas para forçar os iranianos a mudar sua política antes do fim do ano”, disse Mofaz à secretária de Estado norte-americana, Condoleeza Rice. Segundo o Canal 2 da televisão israelense, Mofaz acrescentou que Israel bombardearia as instalações nucleares iranianas depois dessa data caso a diplomacia e as sanções não forçassem Teerã a abandonar suas atividades de enriquecimento de urânio, passo prévio à construção de armas atômicas.

Uma semana antes da visita de Mofaz a Washington, Norman Podhoretz, editor da revista neoconservadora Commentary, publicou uma longa coluna de opinião no The Wall Street Journal, um dos mais prestigiados jornais de economia e finanças do mundo, com o título “As razões para bombardear o Irã”. Podhoretz comparou o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, com Adolf Hitler. Além disso, acusou Teerã de buscar “a substituição da atual ordem internacional por uma cultura político-religiosa de fascismo islâmico dominada pelo Irã”.

Em sua coluna, Podhoretz descartou o caminho das sanções e da diplomacia. Em sua opinião, “a verdade nua e crua é que, para evitar que o Irã desenvolva um arsenal nuclear, não há outra alternativa além do uso da força, bem como não havia outra alternativa para deter Hitler em 1938”. Nesse ano, na conferência de Munique, a Grã-Bretanha fez concessões ao expansionismo nazista com a intenção de evitar uma guerra para a qual Londres se sentia em desvantagem. A estratégia, obviamente, não funcionou. Os comentários de Lieberman, Mofaz e Podhoretz têm em comum um sentimento de frustração e desespero.

Esse sentimento tem várias causas. A crescente oposição da opinião pública contra novas aventuras militares no Oriente Médio e a saída de alguns “falcões” que tinham posições-chave no governo Bush são duas delas. Mas também se fundamenta na férrea oposição à guerra por parte do almirante William Fallon, novo chefe do Comando Central dos Estados Unidos, um dos 10 que existem na estrutura do Pentágono, encarregado da área do Oriente Médio e Golfo Pérsico. Na época da Guerra do Golfo em 1991 o chefe do Comando Central era o general Norman Schwarzkopf. Além disso, o Departamento de Estado prefere a diplomacia à guerra.

Para que a opção militar seja seriamente considerada por Washington, apesar de seus riscos imprevisíveis, antes o caminho das negociações deve ser classificado como um fracasso total. Mas se a diplomacia for capaz de produzir algum resultado positivo deixará de lado a opção de bombardear as instalações nucleares iranianas. No cenário mais pessimista, do ponto de vista dos que propõem a guerra, um êxito da diplomacia com o Irã a respeito da situação do Iraque pode levar Bush a chegar a um acordo com o Teerã sobre a questão nuclear. O entendimento permitiria ao Irã um programa limitado de enriquecimento de urânio, embora só uma rígida supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica.

Embora um programa limitado de enriquecimento de urânio apresente um risco apenas menor de proliferação atômica no curto prazo, a aquisição pelo Irã do conhecimento sobre manejo do ciclo de combustível supõe uma ameaça devastadora no longo prazo, afirmam alguns especialistas.

Dessa forma, a utilização da diplomacia com o Irã é vista com grande preocupação pelos partidários da guerra. Lieberman, por exemplo, afirmou: “mesmo existindo alguma esperança de que os iranianos aceitem viver de acordo com a lei internacional e suspendam seu programa de desenvolvimento de armas nucleares, nós não podemos conversar com eles”. A discussão sobre bombardear o Irã enfraquece o processo diplomático que constitui o maior obstáculo para que a opção militar se transforme em uma realidade.

Por outro lado, o debate indica aos que tomam as decisões em Teerã, sempre afeitos à paranóia, que sua cooperação com os Estados Unidos não farão Washington descartar um ataque no futuro. Ausente a possibilidade de um intercâmbio de garantias de segurança por cooperação em relação ao Iraque, os incentivos para que o Irã adote uma atitude conciliadora se reduzirão e a diplomacia fracassará. E isto, ao seu momento, abrirá a porta para que a opção militar seja colocada em prática. (IPS/Envolverde)

* Trita Parsi é autor de “Treacherous Alliance. The Secret Dealings of Israel, Iran and the United States”, (Alianças Traiçoeiras. Os diálogos secretos entre Israel, Irã e Estados Unidos), Yale University Press, 2007. Também é presidente do Conselho Nacional Iraniano-norte-americano.

Trita Parsi

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