Roma, 22/06/2007 – A grande razão para que a América Latina não alcance os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio propostos pela Organização das Nações Unidas está nas diversas formas de desigualdade que imperam nessa região, disse ontem à IPS Eveline Herfkens, ex-ministra holandesa de Cooperação para o Desenvolvimento. A América Latina é a região do mundo com maior brecha entre as rendas de ricos e pobres. Herfkens, coordenadora-executiva desde outubro de 2002 da Campanha do Milênio da ONU, está em Roma para participar da primeira conferência internacional de avaliação a meio caminho do cumprimento dos ODM, convocada pela organização internacional Cidades e Governos Locais Unidos (CGLU).
Este encontro, que acontece na capital italiana hoje e amanhã, reunirá prefeitos e outros representantes municipais de aproximadamente 80 cidades, que analisarão a contribuição dos governos locais para a concretização dos objetivos traçados por uma cúpula governamental de 2000 com metas fixadas para 2015. A conferência buscará fazer coincidir análises e iniciativas para potencializar o cumprimento dos objetivos desde os municípios, em uma interação com operadores de projetos urbanos, organizações da sociedade civil e meios de comunicação, para, assim, reunir os que considera atores relevantes neste esforço mundial.
Os ODM, traçados com base em indicadores registrados no começo dos anos 90 visam a reduzir drasticamente a proporção de indigência e fome e a mortalidade infantil, melhorar os índices de nutrição nos países em desenvolvimento e garantir a cobertura universal de educação básica, entre outras metas. As avaliações realizadas até agora pela coordenação encabeçada por Herfkens e várias agências regionais da ONU indicam que a maioria dos objetivos não será alcançada e que, portanto, prevalecerão graves problemas sociais, econômicos e humanitários, sobretudo nas áreas mais empobrecidas do planeta, como a África subsaariana e o sudoeste da Ásia. “A percepção das autoridades locais é que estão muito longe dos Objetivos do Milênio”, disse em um encontro com jornalistas Franco Latorre, coordenador desta conferência em representação ao município de Roma.
A agência internacional de notícias IPS (Inter Press Service) e a coordenação italiana de Entes Locais pela Paz e os Direitos Humanos cooperam com o encontro, organizado pelo município romano, CGLU, Campanha do Milênio da ONU “Vozes contra a pobreza”, e a Comissão Européia. O prefeito de Roma, Walter Veltroni; o ex-secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan; o economista norte-americano Jeffrey Sachs, e a ex-ministra Herfkens estão entre os principais expositores do encontro, junto com um dos três presidentes da CGLU, o sacerdote católico sul-africanao Smangaliso Mkhatshwa, ex-prefeito do município de Tshwane, ao qual pertence Pretória.
Latorre alertou que a ultima cúpula do Grupo dos Oito países mais poderosos do mundo, no começo deste mês na Alemanha, divulgou uma declaração retórica sobre promover ações para alcançar os ODM, mas na realidade essas nações seguem reticentes a se comprometerem com a meta de destinar 0,7% de seu produto interno bruto à cooperação para o desenvolvimento. O G-8 é formado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia.
A vice-chanceler da Itália, Patrizia Sentinelli, afirmou que seu país espera chegar em 2008 a uma relação de 0,33% de seu PIB em ajuda ao desenvolvimento, abaixo dos países nórdicos, cuja contribuição está em torno de 1%, mas acima da média de 0,22% que registra o G-8. Sentinelli disse à IPS que é viável a análise de novas formas de fornecer ajuda para o desenvolvimento para torná-la mais eficaz, com relações diretas, por exemplo, entre os governos doadores e organizações não-governamentais ou da sociedade civil nos países receptores como forma de evitar a corrupção.
A vice-prefeita de Montevidéu, Hyara Rodríguez, destacou os esforços que a prefeitura da capital uruguaia vem fazendo há 17 anos através da rede de serviços de saúde e educação em conjunto com organizações sociais. As tarefas que se concretizaram através dessas redes confluem hoje com os ODM, disse Rodríguez, acrescentando que ainda há muito a avançar para superar graves problemas sociais, como o fato de 53% das crianças que nascem em Montevidéu virem ao mundo em lares pobres.
Diante destes desafios, a vice-prefeita ressaltou que a integração dos governos locais constitui uma poderosa ferramenta na busca de soluções, potencializando tanto os recursos quanto a capacidade das próprias comunidades. Essa integração, acrescentou, tem uma expressão local no plano das próprias cidades, para em seguida articular-se em convergências regionais, como ocorre na organização Cidades do Mercosul (Mercocidades), que reúne 180 governos municipais de Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai, Uruguai e Venezuela.
Rodríguez ressaltou que a presença dos jornalistas neste processo é fundamental. “Se não comunicarmos o problema, estaremos mais longe de solucioná-los com o esforço de todos”, afirmou. Por sua vez, Maria Pia Garavaglia, vice-prefeita de Roma, aprofundou no papel que cabe aos poderes locais para impulsionar os ODM, enquanto constituem uma expressão democrática próxima das pessoas e com maior credibilidade do que os governos nacionais.
O diretor-geral da IPS, Mario Lubetkin, disse que esta agência se propõe como um propósito estratégico fazer com que os objetivos do milênio passem a integrar as agendas dos meios de comunicação. Nesse sentido, a IPS convidou para esta conferência internacional jornalistas da Ásia, África e América Latina que poderão conhecer em primeira mão os pontos de vista de protagonistas fundamentais dos processos de desenvolvimento e cooperação internacionais, destacou Lubetkin. (IPS/Envolverde)

