Genebra, 02/07/2007 – Há os críticos radicais, os que aplaudem cada passo e os impacientes diante da urgência da indigência. Os representantes da sociedade civil, diversos em opiniões e origem, avaliam os resultados do Fórum de Desenvolvimento 2007 concluído no sábado nesta cidade suíça. Quando as pessoas falam de pobreza, falam de tudo ou de qualquer coisa, e assim surge a dispersão e, com ela, a ineficácia, este é o comentário feito nos corredores por um jovem europeu. A contagem regressiva para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio já começou e é preciso pressionar os Estados, alerta um asiático em meio à sua exposição, enquanto a decepção se instala entre os latino-americanos.
“Não temos desculpas para não nos organizarmos contra o massacre da fome, que, por outro lado, não é nenhuma fatalidade, mas uma situação reversível se existir vontade dos governos”, disse sem meias-palavras ao iniciar os debates o acadêmico suíço Jean Ziegler, relator especial da Organização das Nações Unidas sobre o direito à alimentação. E para ele, o sistema da ONU é o fórum adequado. “Os governos do mundo devem reagir de uma vez. Por isso é preciso passar à ação”, acrescentou no Fórum de Genebra, que reuniu meio milhar de representantes da Conferência de Organizações Não-Governamentais em Relação Consultiva com as Nações Unidas (Congo). Mas essa ação parece ter faltado na reunião.
“Há muito pouco dinamismo, pouco compromisso. Não se observa uma ação pró-ativa e, assim, não parece que as recomendações, que foram muitas e muito boas (surgidas durante a conferência), serão concretizadas”, alertou a ativista mexicana María Eugenia Villareal. “É necessário injetar sangue novo, renovar as próprias organizações da sociedade civil, sair da inércia burocrática que impregna todo o sistema da ONU, e fazer um acompanhamento e controle dos governos para que cumpram o que foi recomendado”, disse as IPS Villareal, integrante da filial guatemalteca da Associação contra a Exploração Sexual de Meninos, Meninas e Adolescentes (ECPAT).
O Conselho Econômico e Social (Ecosoc) da ONU, que em sua reunião desta semana receberá as recomendações apresentadas neste fórum de desenvolvimento, “deve criar esses mecanismos de controle e monitoramento” para que se concretizem as sugestões feitas, acrescentou Villareal. Outros, entretanto, criticam um aspecto conceitual. É o caso do argentino Arturo Prins, diretor-executivo da Fundação Sales, dedicada ao incentivo da ciência, tecnologia e cultura, que entende existir um bloqueio atribuível à intenção de reduzir a fome apenas através da cooperação dos países do Norte e sem contrapartida.
“Deve-se mirar para a economia do conhecimento, da produção de valor agregado. Além disso, as organizações não-governamentais devem ser mais ativas na execução de programas a partir de financiamento próprio e não dos governos doadores”, afirmou Prins. Entretanto, não deixa de ser otimista em relação aos resultados do Fórum de Desenvolvimento 2007. São passos adiante, disse à IPS.
Com o mesmo teor, embora mais cauteloso, Ramesh Singh, diretor da organização humanitária ActionAid, disse que as mudanças positivas são vistas desde 2005 no Ecosoc, perito em que também foram criados os Conselho da Paz e o Conselho de Direitos Humanos. “Mas ainda resta muito a ser feito. Alguns acreditam, inclusive, que não se conseguirá nada até que seja criado um sistema de responsabilidade. Por isso, é muito importante que a sociedade civil esteja nesses meios, pressionando e fazendo lobby para que o sistema funcione”, afirmou à IPS.
Por outro lado, para a educadora brasileira Marilise Soege Esteves, presidente da organização BPW Cuiabá, os resultados dos debates foram de importância e marcam um avanço na incidência da sociedade civil nos meios de decisão das Nações Unidas. Por isso que estes tipos de fóruns devem crescer para serem ouvidos pelos governos, como ocorre com o Brasil, cujo governo começou a escutar a sociedade civil no momento de implementar suas políticas de desenvolvimento, disse Esteves à IPS. Mas tudo é urgente, com lembrou Ziegler.
“Sessenta e seis crianças morrem de fome no mundo, seja na Guatemala, no altiplano boliviano ou na África, enquanto falamos e discutimos uma hora aqui em Genebra, precisamente em um país só conta com montanhas e tem a terceira moeda mais forte do mundo”, afirmou. “E não me perguntem por que isto ocorre com a Suíça, porque aqui não posso falar do sistema de corrupção mundial, por exemplo”, comentou com ironia. Os subsídios agrícolas dos países ricos matam os produtores africanos enquanto a Rodada de Doha de negociações multilaterais de comércio permanece bloqueada e nada oferece, uma vez que as “oligarquias que dominam o sistema financeiro mundial giram US$ 1 bilhão por dia em especulação, um dinheiro virtual contra a morte real de pessoas”, acrescentou Ziegler sem contemplações.
Para mudar esta situação extrema é que se requer e incentiva a sociedade civil a pressionar os governos locais e nos cenários internacionais. Pelo menos enquanto se permitir aos delgados chegarem até aos locais de reunião em tempos de “perseguição insana” no contexto da luta contra o terrorismo, como disse em sua exposição Kumi Naidoo, secretário-geral da Civicus. “Há pessoas que por seu perfil religioso, ou porque usam barba, não recebem passaporte nem vistos para viajarem e participarem das reuniões internacionais” como este Fórum de Desenvolvimento 2007 de Genebra, denunciou Naidoo. (IPS/Envolverde)

