Nova Délhi, 02/07/2007 – Antes de ser devorada pelo Império Britânico, a Índia era uma potência mundial. Agora possui armas nucleares, sua economia cresce 9% ao ano e seu papel internacional é cada vez mais destacado. Mas é reconhecida apenas como “potência emergente”. O que ainda está por ver-se é a capacidade da Índia para manter este crescimento e evitar cair presa da instabilidade endêmica da Ásia meridional, bem como para manejar o equilíbrio diplomático com China e Estados Unidos. Tampouco está claro o que fará com seu poder se conseguir vencer estes desafios.
“A maior contribuição da Índia para os assuntos mundiais será como exemplo, mais do que como grande potência”, disse Pratap Bhanu Mehta, presidente do independente Centro de Pesquisas Políticas de Nova Délhi. “Um dos experimentos mais magníficos da história está em curso. Com mais de um bilhão de pessoas em um sistema democrático, a Índia tenta tirar milhões delas da pobreza, de um modo paliativo, mais do que revolucionário”, ressaltou. Mehta, que participou este mês em Washington do seminário “Vozes asiáticas”, com patrocínio da Fundação Sasakawa para a Paz, previu que a Índia seguirá seu curso de “moderação” em suas relações com o mundo exterior.
Apesar das disputas que surgem na fragmentada esfera política interna, este modesto pragmatismo deu origem a um amplo consenso, segundo o especialista. “A base do poder da Índia será uma integração maior e mais rápida à economia mundial. Há 10 anos, havia muita ansiedade sobre a abertura da economia da Índia, não apenas ao Ocidente, mas também em relação à China”, explicou Mehtara, essas ansiedades se calaram. A Índia sente que pode fazer frente à China”, acrescentou. Por outro lado, Washington vê com cautela as relações entre Pequim e Nova Délhi, que formaram uma “associação estratégica” em 2005. Há pouco acertaram realizar seu primeiro exercício militar conjunto para outubro deste ano.
Ao mesmo tempo, o vínculo entre os Estados Unidos e a Índia experimenta um incremento particularmente em torno da negociação do tratado bilateral de cooperação nuclear. “Mal interpretamos profundamente o interesse da Índia nos Estados Unidos como sócio global. Alguém ouve, no Pentágono e em círculos políticos conservadores, que a Índia vê os EUA como uma crua salvaguarda contra a China. Mas nada poderia estar mais longe da verdade”, afirmou Mehta. “Obviamente, Nova Délhi gostaria de ter boas relações com Washington. Mas o país com o qual a Índia mais procura estar bem é com a China, mais do que com os Estados Unidos”, acrescentou.
A experiência da Índia no Movimento dos Países Não-Alinhados a tornou alérgica a aliar-se com grupos em pugna em grandes conflitos ideológicos. “A Índia não aceitará ser eixo de conflitos definidos pelas principais potências. Não está interessada em alinhar-se incondicionalmente com nenhuma potência individual, mas em atuar como força de descontrução dos termos em que esses conflitos se expressam”, acrescentou Mehta. A Índia não apenas procurou manter um bom vínculo com Washington e Pequim. Ao mesmo tempo, se colocou a uma cuidadosa distância da divisão entre o Ocidente e o Islã radical.
A grande comunidade muçulmana da Índia a inibe de “adotar diretamente o ponto de vista norte-americano sobre o Oriente Médio. Nova Délhi não aceita os termos nos quais está articulado o discurso (dos EUA) sobre o terrorismo internacional”, continuou Mehta. A influência da integração econômica global e a histórica aversão em alinhar-se em grandes disputas ideológicas e levou a Índia a uma certa forma de “interdependência liberal”, acrescentou. A Índia se garantirá mantendo o aumento do gasto militar e pressionando para integrar-se ao Conselho de Segurança da ONU e, segundo Metha, em qualquer organismo político importante do mundo. Mas essencialmente se aterá ao status quo e não pressionará para conseguir nenhuma mudança significativa na arquitetura das instituições mundiais, acrescentou.
Por outro lado, a reticência dos Estados Unidos em frear a mudança climática deu permissão à Índia para reduzir suas próprias emissões de gases causadores do efeito estufa e acelerar seu processo industrial, afirmou o especialista. Ao mesmo tem, a sem sucesso desafiada legitimação internacional das armas atômicas abriu um vazio através do qual Nova Délhi pode desenvolver seu próprio programa nuclear. Satu Limaye, diretor do Centro Oriente-Ocidente, analisou a “interdependência liberal” da Índia por outro ângulo. O cumprimento de qualquer aspiração indiana – seja uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, a legitimação de seu arsenal nuclear ou o crescimento econômico – depende dos acordos que concretize uma ampla variedade de países.
A Índia recebe uma grande quantidade de remessas enviadas por seus cidadãos que emigraram, entre US$ 20 bilhões e US$ 25 bilhões por ano. Portanto, deve cultivar um bom vínculo com os países que os recebem. Além disso, deve ser benevolente com nações européias e africanas da mesma forma para estimular suas possibilidades de conseguir um lugar no Conselho de Segurança. Mas “os Estados Unidos são o ator mais importante em todos estes assuntos”, segundo Limaye. Das quatro variáveis estruturais que determinam como a Índia se integra à economia mundial – comércio, remessas, dívida externa, importações de petróleo – os norte-americanos são os atores críticos para tudo, menos para o fornecimento de energia.
Entretanto, em última análise, a Índia pode converter-se em prisioneira de sua vizinhança, devido às tensões com o Paquistão pela disputada Caxemira; à guerra civil no Sri Lanka; à pobreza endêmica em Bangaldesh, e ao crescente caos no Afeganistão. O manejo que a Índia fizer destes desafios em seu perímetro pode determinar a sustentabilidade de seu crescimento econômico. “A maioria dos países que se elevaram ao status de grande potência se beneficiaram da inatividade em sua região”, explicou Kurt Campbell. É responsabilidade da Índia conseguir “uma lógica mais profunda para tirar outros países do aperto”, acrescentou.
Para Mehta, a Índia poderia conseguir certa estabilidade na região oferecendo integração econômica, com base em acordos de livre comércio. Nações como Paquistão e Bangladesh “podem unir-se ou ficar de fora”, afirmou o especialista. “Se estes países se convencerem de que o convite não é para uma ordem centrada na Índia, mas para uma integração maior da Ásia austral, a verão como benéfica”, ressaltou. (IPS/Envolverde)

