Economia: Países em desenvolvimento desafiam o FMI

Washington, 26/07/2007 – O Grupo dos 24, que reúne países em desenvolvimento, advertiu tacitamente esta semana que não deixará de apresentar candidatos a diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, que, segundo Estados Unidos e Europa, deveria ser um europeu. O G-24, que opera como bloco de acionistas minoritários no FMI e no Banco Mundial, queixou-se em diversas ocasiões da falta de democracia e transparência nas duas organizações. Um acordo não escrito entre Estados Unidos e Europa diz que Washington escolhe o presidente do Banco Mundial e Bruxelas o principal funcionário do Fundo. O Grupo reclama uma mudança nessa tradição já há muito tempo.

A declaração conjunta divulgada na segunda-feira constitui um dos sinais mais claros de desconfiança quanto à forma como os países industrializados conduzem o FMI, do qual possuem a maioria acionária. Fontes da instituição disseram à IPS que diversos pretendentes a diretor-gerente do Fundo procedentes do mundo em desenvolvimento vacilam em apresentar suas candidaturas por considerarem que o processo de escolha está viciado a favor do indicado europeu, Dominique Strauss-Kahn. O acordo quase unânime alcançado nesse sentido pelos ministros das finanças da União Européia converte sua consagração em um fato consumado, segundo os funcionários.

Um informante do FMI que solicitou reserva sobre seu nome garantiu que o ministro das Finanças da África do Sul, Trevor Manuel, é favorito em alguns países do Sul, embora ele menos não tenha manifestado publicamente seu interesse no cargo. Mas, os que defendem a candidatura de Manuel não a apresentarão formalmente antes de os países ricos lhe garantirem que cumprirão seus compromissos de transparência e democracia interna. Manuel seria um candidato muito competitivo, pois durante muito tempo presidiu o Comitê Conjunto de Desenvolvimento, que coordena atividades do FMI e do Banco Mundial, e tem credibilidade para enfrentar os problemas do mundo pobre.

A Junta Executiva que conduz os assuntos diários do FMI em Washington assegurou que a escolha do próximo diretor-gerente será transparente e democrática, e que os 185 países-membros tinham liberdade para apresentar indicações. O órgão se comprometeu em que desta vez o processo se basearia no mérito dos candidatos, com critérios claros e sem preferências geopolíticas, com o objetivo de alcançar o consenso, mais do que uma maioria simples dos votos. Mas, há duas semanas, a Europa, que concentra o principal bloco na Junta, alinhou-se rapidamente em torno do francês Strauss-Kahn e declarou que nem mesmo consideraria outros nomes.

Strauss-Kahn, de 58 anos é, agora, o único candidato. Ministro das Finanças da França entre 1997 e 1999, participou ativamente da privatização da companhia de telecomunicações France Telecom e da criação do euro. O apoio unânime dos europeus ao seu nome parece ter provocado o velado questionamento do G-24. “Os candidatos não-europeus só poderão avançar se houver confiança em que o compromisso da Junta Executiva será respeitado por todos os membros”, diz a declaração do bloco. “Poirtanto, não nos comprometemos com esses princípios e chamamos as economias avançadas a fazerem o mesmo”.

A declaração esta redigida em termos diplomáticos, mas deixa claro que os países do G-24 não vêem um forte compromisso dos países ricos com os princípios que assumiram na Junta do FMI. “Um compromisso forte com um processo de seleção aberto, transparente e multilateral fortalecerá muito a legitimidade e efetividade do próximo diretor-gerente e da instituição, no momento em que o FMI enfrenta desafios fundamentais para sua relevância e viabilidade”, acrescenta a declaração. Segundo observadores do sistema financeiro internacional, esse documento não é apenas uma exortação às reformas, mas uma evidencia a mais da desconfiança do Sul em desenvolvimento com relação ao Fundo.

Este texto “tem um alto valor, pois mostra que o G-24 não confia na abertura do processo como o pintam as grandes potências do FMI”, disse Aldo Caliari, do Centre of Concern, um centro de estudos não-governamental com sede em Washington. “É um indicador importante da verdadeira sensação de desconfiança na possibilidade de um não-europeu não ser tomado seriamente em consideração”, acrescentou Caliari. O G-24 é integrado por Brasil, Argélia, Argentina, Costa de Marfim, Egito, Etiópia, Filipinas, Gabão, Guatemala, Índia, Irã, Líbano, México, Nigéria, Paquistão, Peru, República Democrática del Congo, Síria, Sri Lanka, África do Sul, Trinidad e Tobago e Venezuela.

O debate sobre o processo de escolha do diretor-gerente do FMI não é novo, mas se renovou por causa da iminente sucessão do atual ocupante do cargo, o espanhol Rodrigo Rato, que anunciou sua renúncia para outubro deste ano. (IPS/Envolverde)

Emad Mekay

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