Saúde: A circuncisão como barreira à aids

Sidnei, 26/07/2007 – Praticar a circuncisão nos homens pode evitar milhões de infecções com HIV (vírus da deficiência imunológica humana), segundo informou-se ontem em uma reunião de especialistas nesta cidade australiana. A circuncisão reduz em cerca de 60% a transmissão de homens para homens do vírus causador da aids, assegurou o especialista Roberto Bailey perante o plenário da IV Conferência sobre Prevenção, Tratamento e Patogênese do HIV, organizada pela International Aids Society. “Em áreas de grande prevalência, o impacto da circuncisão pode ser maior e a intervenção seria muito econômica”, disse Bailey, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos.

A equipe de Bailey chegou a esta conclusão após estudo de mais de 45 casos, três testes clínicos e várias pesquisas biológicas que, a seu ver, oferecem provas convincentes. Várias pesquisas indicam que milhões de novas infecções de HIV poderiam ser evitadas na África subsaariana, a região mais afetada do mundo, se for circuncidada uma quantidade substancial de homens. As estimativas sugerem que se nessa região esta operação for praticada maciçamente se poderá evitar 5,7 milhões de novos casos e três milhões de morte sem 20 anos.

Bialey, que desde 1995 investiga a circuncisão masculina como estratégia de prevenção, disse que os homens que não se submetem a essa intervenção têm duas vezes e meia mais possibilidades de contrair o vírus. O especialista chegou a tais conclusões por meio de testes de controle feitos ao acaso no Quênia, Malawi, Uganda, Zâmbia e também nos Estados Unidos. “Cada vez há mais provas da eficácia da circuncisão na prevenção de novos contágios”, afirmou. Se houvesse um remédio, um composto ou uma vacina, os doadores e as agências internacionais há meses ou anos estariam lutando para serem os primeiros a fabricá-los”, acrescentou.

Se 50% dos homens forem circuncidados em algumas zonas da África do Sul se poderia reduzir em 9% a incidência do HIV entre homens heterossexuais em mais de 10 anos. “Isto é, a circuncisão pode combater a epidemia até quase liquidá-la”, afirmou Bailey. O especialista pediu urgência aos governos para que esta prática “seja segura, acessível e voluntária” para os interessados. Segundo ele, homens jovens desejam fazer a circuncisão, mas, “ela não acontece em massa nem há financiamento”.

A circuncisão masculina talvez seja o procedimento cirúrgico mais antigo. Remonta, pelo menos, a 2.300 anos antes de Cristo. Sua origem está no Egito. Aproximadamente 30% da população masculina mundial é circuncidada, 67% do total na África. A intervenção não está vinculada apenas a questões sanitárias, mas é atravessada por uma complexa rede de crenças e práticas religiosas e culturais. “As pesquisas mostram que as mulheres são a favor da circuncisão por questão de higiene. Na medida em que sua aceitação for maior, diminuirá a idade de circuncisão dos homens. As mães estarão mais dispostas a submeter seus filhos à operação”, disse Bailey.

A Organização Mundial da Saúde e o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (onusida) em fevereiro aplaudiram as conclusões dos testes feitos no Quênia e em Uganda para determinar se a circuncisão tinha algum efeito de proteção contra o HIV. O resultado das duas pesquisas apoiou o de outro teste feito no assentamento informal de Orange Farm, 45 quilômetros ao sul de Johannesburgo. Os três estudos, dos quais participaram mais de 10 mil pessoas, indicam que a transmissão do vírus de mulheres para homens cai entre 50% e 60% no caso de homens circuncidados.

“Esses resultados são uma importante contribuição para a prevenção do contágio do HIV. Ao revelar a grande incidência da circuncisão”, disse em um comunicado o diretor do departamento de HIV/AIDS da OMS, Kevin de Cock. Mas, esta agência alerta que a circuncisão não é uma forma de proteção total contra o vírus da aids. Os homens devem usar preservativos, abster de manter relações sexuais fora do casamento, reduzir a quantidade de parceiras e demorar na iniciação sexual, segundo especialistas. A International Aids Society defende maior vigilância para garantir um acesso universal aos métodos de prevenção e tratamento contra o HIV/aids e por mais pesquisas para informar e fortalecer a resposta mundial contra a pandemia.

Por sua vez, o presidente dessa organização, Pedro Cahn, disse que “menos de uma entre três pessoas portadoras do HIV nos países de renda baixe e média têm acesso à medicação adequada e uma proporção ainda menor tem acesso a métodos provados de prevenção, como camisinha e seringas descartáveis”. Segundo Cahn, “o objetivo de ocnseguir acesso universal ao tratamento até 2010 deve continuar sendo uma prioridade. A ciência nos dá ferramentas para prevenir e tratar o HIV com efetividade. O fato de não termos conseguido traduzi-lo em práticas concretas é um fracasso vergonhoso”, acrescentou o especialista, também diretor da Fundação Huésped, da Argentina.

Na semana passada, a International Aids Society e a Australian Society for HIV Medicine divulgaram a Declaração de Sidney, que pede urgência aos governos doadores para dedicarem à pesquisa 10% dos recursos destinados à luta contra a enfermidade. “A boa pesquisa leva à formulação de novos planos e novas políticas”, segundo a declaração. Por sua vez, o diretor do Instituto Nacional de Alergias e Enfermidades Infecciosas dos Estados Unidos, Anthony Fauci, pediu à imprensa que evite se referir a possíveis curas da aids.

“É um momento muito importante em matéria de pesquisa. Temos possibilidades de contar com tratamentos muito bons, há vacinas projetadas e novas opções para usar esses recursos como nunca antes. Mas, deixemos de falar que existe uma cura”, enfatizou Fauci, também assessor da Casa Branca. Nos Estados Unidos são registradas cerca de 40 mil novas infecções por ano, há 14 anos. Na Austrália o ritmo duplicou nos últimos sete anos, passando de 500 novas infecções em 2000 para quase mil atualmente.

Na conferência, iniciada domingo e que termina hoje, os cinco mil participantes de 133 países assistem a seções informativas e debates sobre patogenese do HIV, os mecanismos pelos quais o vírus causa a deficiência imunológica, as conseqüências clinicas do envelhecimento da população portadora e tratamentos pediátricos, entre outros assuntos. (IPS/Envolverde)

Neena Bhandari

Neena Bhandari is a Sydney-based foreign correspondent, writing for international news agencies IPS and InDepth News, as well as India-based Indo Asian News Service and other national and international publications. Neena first began contributing to IPS in 1991 while based in New Delhi and was the main contributor from London between 1998 and 2000. Since the 2000 Olympics, she has been reporting from Australia and New Zealand. She started her career with India's leading national daily, The Times of India, in 1985 and has since worked in the United Kingdom and Australia, reporting on a range of issues from environment and development, human rights and gender, education and health to crime and law. She has a master’s degree in political science and a bachelor’s degree in law, with a diploma in environmental law and a certificate in international humanitarian law from the Red Cross.

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