EUA: A falácia do poder aéreo

Washington, 13/07/2007 – No dia 18 de junho, sete crianças morreram em um ataque aéreo realizado pelos Estados Unidos contra um suposto “santuário” da Al Qaeda no leste do Afeganistão. Três dias depois, pelo menos 25 civis perderam a vida em um “incidente” semelhante na província de Helmland, sul do país. No mesmo dia, um ataque aéreo norte-americano que tinha por objetivo uma casa na cidade de Baquba, no Iraque, atingiu acidentalmente outra residência, com saldo de 11 civis feridos. O Pentágono investiga o ocorrido. Estes fatos são parte inseparável da guerra, inicialmente negados, depois chamados de “acidentes”, racionalizados como “dano colateral”, regularmente “sob investigação” e sempre “lamentáveis”.

Entretanto, na medida em que a política de escalada da guerra no Iraque decidida pelo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, está patinando e as forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) lideradas por Washington se esforçam para manter a ordem no Afeganistão, esses incidentes prometem se repetir. As demandas, que aumentam, tanto do Congresso quanto do público norte-americano, para que haja uma retirada gradual das tropas pode levar à intensificação da guerra aérea.

Tom Engelhardt, colunista do portal da Internet Tomdispatch, escreveu: “Salvo uma inesperada mudança de política, a multiplicação destes incidentes é o que surge como alternativa mais provável no futuro do Afeganistão e Iraque”. As incursões aéreas raramente aparecem nas manchetes, ao contrário dos sensacionais ataques suicidas que abrem os noticiários da noite, como no caso de um caminhão-bomba no norte de Bagdá que matou mais de 150 civis e foi o atentado mais sangrento desde a invasão em 2003.

Quando a imprensa escrita se ocupa dos ataques aéreos sempre aparecem perdidos nos parágrafos finais das matérias. A guerra aérea recebe o nome eufemístico de “cirúrgica”, talvez para diminuir o impressionante e devastador poder das bombas de 900 quilos jogadas desde o ceu. Foi utilizada com efeito decisivo na fase inicial da guerra no Afeganistão, em 2001, quando Washington ofereceu apoio aéreo à Aliança do Norte para tirar do poder o movimento islâmico Talibã.

Durante a invasão do Iraque, em 2003, os comandantes militares dos Estados Unidos adotaram a estratégia de “comoção e intimidação”, projetada para bombardear o exército iraquiano com uma força tão esmagadora que o levasse a aceitar rapidamente a derrota. Mas, na medida em que as forças lideradas por Washington continuam sua luta no Iraque e Afeganistão, os bombardeios aéreos recebem crescente atenção, não tanto por sua precisão milimétrica, mas pelo número de civis mortos.

O governo afegão, entidade de direitos humanos e organizações de ajuda humanitária dizem que mais de 300 civis morrera este ano devido a operações da coalizão liderada pelos Estados Unidos. A maior parte dos casos ocorreu, segundo uma matéria divulgada pela agência de notícias Reuters, quando a força aérea foi chamada em auxílio de tropas terrestres. “Estamos analisando nossas operações aéreas, mas, não se trata de algo que pensemos modificar no momento”, disse a imprensa em Cabul, em junho, o porta-voz da coalizão, tenente-coronel Maria Carl. “O uso da força aérea nos oferece a oportunidade de cobrir uma área muito maior do que poderíamos fazer com uma limitada quantidade de tropas”, acrescentou.

Há quase seis anos da invasão do Afeganistão comandada por Washington, a freqüente escassez de tropas terrestres, tanto quanto a aversão a sofrer baixas, força os chefes militares a aumentarem sua dependência do poder aéreo. O número de mortos em ataques da aviação continua aumentando. No último dia 2, 45 civis perderam a vida em uma incursão sobre Hyderabad. Sul do Afeganistão, o que levou o presidente desse país, Hamid Karzai, a reclamar publicamente uma investigação do acidente.

Karzai condenou o uso de “escudos humanos” pelos talibãs, mas, ao mesmo tempo, afirmou que os soldados estrangeiros não dão valor à vida dos afegãos. Além disso, quatro anos depois de iniciada a invasão do Iraque a campanha aérea de “comoção e intimidação”, que supostamente acabaria com Saddam Hussein e levaria paz ao país, não deu resultado. Os aviões de combate dos Estados Unidos aumentaram novamente seus ataques e deixaram cair mais do dobro de bombas do que no ano passado, segundo a agência noticiosa Associated Press (AP).

Em 2007, a aviação dos Estados Unidos lançou 237 bombas e mísseis em apoio às forças de terra. No ano passado, foram 229, segundo dados da Força Aérea obtidos pela AP. se a tendência sugere algo é que uma retirada ou redução das tropas será acompanhada por uma maior utilização do fogo aéreo. Já existe o antecedente do Vietnã, quando o ex-presidente Richard Nixon (1969-1974) anunciou sua política de “vietnamização” do conflito. Por esse plano, o Vietnã do Sul receberia armas, equipamentos e assessoramento militar enquanto as tropas dos Estados Unidos se retiravam. Nesse mesmo período, Nixon autorizou bombardeios em massa no Camboja e Laos, bem como a maior campanha aérea de toda essa guerra: a Operação Proud Deep.

Nela, bombardeiros B-52, entre outros, efetuaram mais de mil missões sobre o Vietnã do Norte. Inclusive durante a presidência do antecessor de Nixon, Lyndon Johnson (1963-1969), o bombardeio maciço sobre o Vietnã do Sul foi justificado como ferramenta para forçar os camponeses que apoiavam a guerrilha comunista do Vietcong a abandonarem suas terras e irem para as cidades. A idéia contou com apoio de um destacado assessor do presidente, Samuel P. Huntington, que ganhou notoriedade pública na década de 90 com seu livro “O choque das civilizações”, no qual expõe a teoria das diferenças culturais irreconciliáveis entre as sociedades ocidentais e as baseadas em outros sistemas de valores, fundamentalmente as que professam a religião islâmica.

Segundo Huntington, forçando uma migração maciça do campo para as cidades seria menos provável os vietnamitas apoiarem uma revolução camponesa comunista. No mutante panorama da arte da guerra do século XXI, a superioridade técnica dos Estados Unidos teve de se adaptar às táticas de contrainsurgência. A guerra de guerrilhas acontece nas ruas das cidades, freqüentemente entre a população civil. Assim, o poder aéreo jamais poderia ser um substituo efetivo do combate terrestre.

Isto foi comprovado na prática em 2006, na guerra entre Israel e a milícia libanesa Hezbolá. Por quatro semanas, os israelense bombardearam sem descanso objetivos no Líbano, destruindo grande parte da infra-estrutura do país. Mas, a intenção de eliminar a ameaça do Hezbolá não foi alcançada. “Os historiadores militares têm um nome para o argumento subjacente na campanha militar de Israel no Líbano. A ‘falácia do bombardeio estratégico’ é o termo que utilizam”, escreveu o acadêmico do centro de estudos norte-americanos Brookings Institution, Philip H. Gordon, em uma coluna para o jornal The Washington Post.

“Longe de enfraquecer o oponente, os bombardeios tendem a unir as pessoas em torno de seus líderes, levando-as a se entrincheirar contra os estrangeiros que, sem importar suas razões, estão destruindo seu país”, acrescentou Gordon. Na medida em que se reduz a tolerância do povo norte-americano às baixas de seus soldados no Afeganistão e Iraque, o governo Bush se encontra em uma posição precária. A confiança no poder aéreo e o efeito acumulativo das vítimas civis configuram um futuro agourento para os objetivos políticos de Washington nessas regiões do mundo. (IPS/Envolverde)

Khody Akhavi

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