Nova Yorque, 16/07/2007 – O fracasso da Organização das Nações Unidas em responder rapidamente à crise na região sudanesa de Darfur e outros focos de conflito no mundo esta originando pedidos para criação de uma força de paz permanente. A idéia é contar com um contingente preparado para responder aos conflitos armados antes que se convertam em catástrofe humanitária. A questão encontra-se em discussão na Comissão de Relação Exteriores da Câmara de Representantes dos Estados Unidos.
Os defensores do projeto argumentam que um Serviço de Paz de Emergência da ONU (Uneps), em condições de intervir nas fases iniciais das crises humanitárias, poderia salvar milhões de vidas e milhares de milhões de dólares. “A iniciativa se encaixa aos interesses de Washington”, afirmou o representante Albert Wynn, do opositor Partido Democrata, que em março apresentou um projeto de lei para apoiar a idéia, junto com seu colega James Walsh, do Partido Republicano.
De acordo com a visão de ambos, a Uneps recrutaria, treinaria e empregaria entre 10 mil e 18 mil profissionais, entre os quais haveria policiais, militares socorristas e juízes. Segundo Wynn e Walsh, a nova força poderia movimentar-se facilmente no prazo de 48 horas após ser dada autorização pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, já que teria um caráter permanente. Atualmente, quando a ONU decide enviar uma força de paz, deve encontrar os países dispostos a integrá-la e organizá-la a partir do zero.
O porta-voz de Wynn, Eriade Hunter, disse à IPS que o legislador “acredita que esta é uma iniciativa importante, que deve ser implementada com rapidez. Portanto, estamos procurando conscientizar sobre sua necessidade para obter o apoio de outros congressistas e dar os passos necessários para convertê-la em realidade”. Os defensores da idéia lembram os assassinatos em massa na Libéria, República Democrática do Congo, Ruanda, Serra Leoa, Sudão, Timor Leste e a ex-Iugoslávia com claros exemplos dos fracassos da ONU.
Em Darfur, uma campanha de contra-insurgência de “terra arrasada”, realizada pelo governo e por milícias árabes, provocou em seus três anos de duração dois milhões de refugiados e a morte de 200 mil a 400 mil pessoas. A ONU procurar organizar uma força de paz com 17 mil a 20 mil homens em conjunto com a União Africana, mas o processo é muito lento e apenas um punhado de nações africanas se ofereceu para colaborar com tropas. Os Estados Unidos e a União Européia não assumiram nenhum compromisso a respeito.
Independente do destino que tiver o projeto no Congresso norte-americano, a proposta recebeu o apoio de várias influentes organizações humanitárias e entidades de direitos humanos. ‘Este é um projeto importante e os deputados Wynn e Walsh devem ser elogiados por sua liderança bipartidária neste esforço internacional”, disse o vice-presidente executivo para as Relações governamentais da organização norte-americana Cidadãos pelas Soluções Globais, Don Kraus. Este e outros 36 representantes de entidades humanitárias enviaram um pedido para que os legisladores em Washington apóiem o projeto de criação de uma força permanente das Nações Unidas.
Os signatários da petição assinalaram que esse contingente não seria útil apenas para que a comunidade internacional cumpra seu dever de proteger os civis, mas que também ajudaria a criar um clima de estabilidade em regiões “voláteis”. A tarefa de conseguir os apoios e o dinheiro para cada nova missão da ONU é equivalente à situação de “um chefe de bombeiros que deve reunir dinheiro, encontrar voluntários e conseguir um caminhão-tanque cada vez que começa um incêndio”. Kraus afirmou que Washington votou a favor das 18 missões de paz da ONU atualmente em ação ao redor do mundo, por isso o projeto de lei seria benéfico para os Estados Unidos.
“O povo norte-americano reconhece que o mundo inteiro é nosso quintal”, disse Kraus à IPS. ‘Esta é a razão pela qual o projeto conta com o apoio de tantas organizações. Ajudar as pessoas a viverem em paz nos faz mais seguros e, além disso, é o correto”, acrescentou. Kraus e os demais promotores do projeto estão otimistas a respeito de seus esforços para convencer os legisladores. Mas, funcionários da ONU sugeriram que a idéia de criar uma força de paz permanente tem poucas possibilidades de se concretizar.
“Não tem futuro. A idéia está morta antes de nascer”, disse à IPS um funcionário das Nações Unidas que pediu para não ser identificado. “Esta proposta está dando voltas há 15 anos. Os países-membros não têm vontade para isso”, acrescentou. Em 1993, o então secretário-geral da ONU, Boutros Boutros-Ghali, propôs uma iniciativa semelhante, mas Washington se encarregou de fazê-la naufragar. O funcionário da ONU que falou à IPS disse que “não existe disposição por parte dos membros mais poderosos. Estamos analisando como reduzir o tempo entre a autorização e o envio da força”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

