EUA-Irã: Inimigos íntimos

Washington, 27/07/2007 – Enquanto diplomatas dos Estados Unidos e do Irã se encaminham para uma segunda rodada de diálogo diplomático sobre o Iraque, o clima político em Washington leva a uma maior agressividade no vínculo com o regime islâmico em Teerã. A mudança é evidente em relação à atitude de alguns meses atrás e reflete o triunfo dos argumentos do governo do presidente George W. Bush sobre o papel desempenhado pelo Irã no Iraque.

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Isto ameaça distorcer a visão da política dos iranianos a respeito do Iraque, tal como a entendem os especialistas na região do Golfo Pérsico, ou Arábico.

A estratégia do Irã em relação a Bagdá – dizem – é muito mais compatível com os interesses de Washington do que a dos regimes muçulmanos sunitas alinhados como governo Bush. O apoio iraniano aos xiitas do Iraque, apesar do que proclama o governo norte-americnao, não visa a desestabilização do país, mas serve para o compreensível desejo de garantir a aliança entre Teerã e os setores iraquianos que professam esse ramo do Islã, afirmam especialistas. O endurecimento do Congresso dos Estados Unidos ficou expresso com a declaração do Senado, aprovada na semana passada, que qualifica de “intolerável ato de hostilidade” a morte de um militar norte-americanos nas mãos “de um governo estrangeiro ou seus agentes”.

A resolução exige que o governo iraniano adote “medidas imediatas” para suspender todo apoio a insurgentes e milícias iraquianas. O texto foi redigido pelo principal defensor de uma guerra com o Irã, o conservador senador do opositor Partido Democrata Joseph Lieberman, e foi aprovado por 97 votos a zero no Senado, que tem cem membros. A votação foi a culminação de meses de acusações do governo contra o Irã, segundo as quais o regime islâmico entrega armas às milícias xiitas do Iraque, bem como apoio financeiro e treinamento, com as tropas dos Estados Unidos e a desestabilização do Iraque como objetivo.

Entretanto, esta linha de argumentação da administração Bush ignora que o Irã sempre manteve laços com os grupos que apóiam o governo do primeiro-ministro iraquiano, Nouri al Maliki, antes de fazê-lo com as milícias que se opõem a ele. Isto indica que o interesse fundamental de Teerã é que Bagdá estabilize o país, afirmou Mohsen Milani, especialista em políticas de segurança nacional iraniana da Universidade Internacional da Florida. O especialista disse que os interesses do Irã estão mais perto dos Estados Unidos do que os de qualquer outro país da região. “Não posso imaginar outras duas nações na área que desejam mais (do que Washington e Teerã) o sucesso do governo iraquiano”, disse Milani.

Os iranianos estão descontentes com os esforços da Arábia Saudita para minar o governo do Iraque, dominado pelos xiitas, que até estão dispostos a utilizar o diálogo diplomático com os Estados Unidos para fornecer informações de inteligência sobre o apoio de Riad à organização terrorista Al Qaeda e outros insurgentes, acrescentou. Trita PArsi, especialista em política iraniana, também alertou para o contraste entre o apoio de Teerã ao governo de Maliki com a atitude da Arábia Saudita, principal aliada dos Estados Unidos no Oriente Médio, fora Israel. ‘Os sauditas chamam de governo títere a administração de Maliki. Ninguém em Teerã diz tal coisa”, afirmou.

Estados Unidos e Irã compartilham interesses estratégicos no Iraque, pelo menos se analisados em uma base racional e realista, disse James A. Russell, professor de segurança nacional da Escola de Pós-graduação da Marinha de Guerra norte-americana. O problema, disse Russell, é que a história do vínculo entre Teerã e Washington e os interesses políticos nos Estados Unidos apresentam sérios obstáculos para avançar na concretização desses objetivos comuns. As travas, disse, são “o forte apoio que existe para atacar o Irã” e o apoio a Israel.

O diretor do Centro de Políticas de Defesa e Segurança Internacional da Instituição Rand, James Dobbins, ex-embaixadordos Estados Unidos no Afeganistão, concordou que o Irã não tenta desestabilizar o Iraque. “Apoiou o governo de Bagdá e esperam que tenha sucesso”, afirmou. Os iranianos não vêem nenhuma maneira de capitalizar a principal fonte de instabilidade no Iraque, o conflito entre as facções muçulmanas xiitas e sunitas, disse Dobbins. Os laços de Teerã com as milícias xiitas não são novos, apesar do que possa dizer o governo Bush. Tem sido uma constante na política iraniana desde que a queda do regime de Saddam Hussein, que abriu o caminho para retorno dessas milícias até então radicadas no Irã.

Em agosto de 2005, a revista norte-americana Time disse que os iranianos estavam dando apoio a “rebeldes xiitas”. Mas, ao mesmo tempo citou diplomatas ocidentais que os viam em “uma atitude mais defensiva do que ofensiva”. As mesmas fontes destacaram que a ajuda iraniana aos xiitas era vista “pequena pela quantidade de dinheiro e fornecimentos que os países vizinhos do Iraque entregam aos rebeldes sunitas”. Especialistas em Irã e na região do Golfo concordam em assinalar que os laços de Teerã com as milícias que atacam as forças norte-americanas e da Grã-Bretanha e o governo iraquiano constituem, essencialmente, um sinal para garantir que manterão uma boa relação com qualquer regime que tome o poder em Bagdá no futuro. “Tentam encobrir suas apostas porque não sabem quem se imporá no final”, disse Dobbins.

Russell concordou com a idéia de que o Irã não está embarcando em uma tentativa de desestabilização, mas que desenvolve uma estratégia para estabelecver boas relações com todas as facções xiitas. “É um passo lógico para proteger seus interesses”, afirmou. A presença militar dos Estados Unidos no Iraque é um óbvio ponto de discordância entre Washington e Teerã. O Irã mostrou no passado um nível de tolerância relativamente alto em relação à ocupação norte-americana do território de seu vizinho, mas, tornou-se progressivamente mais critico no último ano.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Manoucher Mottaki, disse em maio que as tropas norte-americanas são mais um motivo de instabilidade do que uma solução para o problema. “Acreditamos que mais cedo ou mais tarde terão que retirar suas forças do Iraque, porque essa é a causa pela qual continuam as atividades terroristas”, afirmou. A vacilante posição iraniana sobre a presença militar dos Estados Unidos pode refletir um enfraquecimento relativo do governo de Maliki e a irrupção como força política dominante de Moqtada al-Sadr, ferozmente nacionalista. Sadr transformou a demanda de um cronograma para a retirada dos Estados Unidos no centro de sua estratégia.

Em vista do incerto futuro do Iraque e diante das demandas de apoio das milícias xiitas para suas ações armadas contra as forças ocupantes, o Irã sente que, provavelmente, não lhe resta outra opção que responder positivamente frente a elas. Embora o porta-voz do comando militar dos Estados Unidos no Iraque tenha sugerido que o Irã apoiou “elementos foragidos” contra as tropas internacionais, os serviços de inteligência norte-americanos confirmaram em novembro que unidades rebeldes foram treinadas pela milícia libanesa Hezbolá, aliada do Irã, e que Sadr tinha conhecimento do que ocorria.

Mas o Irã pode, inclusive, compartilhar o interesse do governo de Maliki para que Washington continue oferecendo assistência para o desenvolvimento de forças de segurança xiitas. “Teerã não está necessariamente a favor de uma retirada completa” dose uu do Iraque, disse Russell. O grau de convergência entre os interesses de Washington e Teerã a respeito do Iraque pode ser um elemento importante nas negociações bilaterais. Inclusive apesar da determinação do ainda poderoso vice-presidente dos Estados Unidos, Dick Cheney, em assegurar que essas conversações fracassa. (IPS/Envolverde)

* Garreth Porter é historiador e especialista em políticas de segurança nacional dos Estados Unidos. “Perigo de domínio: Desequilíbrio de poder e o caminho para a guerra no Vietnã”, seu último livro, foi publicado em junho de

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

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